Endocrinologista alerta sobre riscos da obesidade

Dia Nacional de Prevenção da Obesidade é comemorado hoje

Denise Claro
Da redação

A escritora Márcia Ribas emagreceu 40Kg com reeducação alimentar./ Foto: Arquivo Pessoal
A escritora Márcia Ribas emagreceu 40Kg com reeducação alimentar./ Foto: Arquivo Pessoal
A Organização Mundial de Saúde aponta a obesidade como um dos maiores problemas de saúde pública no mundo. A projeção é que, em 2025, cerca de 2,3 bilhões de adultos estejam com sobrepeso; e mais de 700 milhões, obesos.
No Brasil, a obesidade também cresce e já é um problema de saúde pública. Nesta terça-feira, 11, é comemorado o Dia Nacional de Prevenção à Obesidade. A data foi oficializada pelo Governo Federal em 2008, pela Lei nº 11. 721.
A escritora Márcia Ribas sofreu com a obesidade durante muitos anos. Após levar um susto em uma consulta médica, ao tomar consciência de como estava sua saúde, se determinou e perdeu 40 kg com a reeducação alimentar e a prática de atividade física. “Com 1,56m e mais de 100 kg, meu estado de saúde era grave. Aí percebi que precisava tomar uma atitude e ser responsável comigo mesma”, conta Márcia.
A endocrinologista Fernanda Freitas ressalta que o tratamento para a obesidade requer um acompanhamento multidisciplinar, e que o primeiro passo é o desejo real do paciente de emagrecer.
Confira abaixo a entrevista completa com a especialista:
Pode-se dizer que a obesidade é o mal do século? O que caracteriza a obesidade?
Fernanda Freitas- Sim, sobrepeso e obesidade estão dentro dos maiores desafios na área de saúde, tanto em países em desenvolvimento como em países desenvolvidos. No Brasil, a proporção de pessoas com excesso de peso passou de 42,7% em 2006 para 48,5% em 2011, enquanto o percentual de obesos subiu de 11,4% para 15,8% no mesmo período. Estima-se que mundialmente a cada 10 pessoas adultas, entre 3 e 4 encontram-se no grau de obesidade ou sobrepeso. Sendo assim, a prevalência da obesidade/sobrepeso vem aumentando assustadoramente nos últimos 40 anos.
A obesidade é definida como um Índice de Massa Corpórea (IMC) maior ou igual a 30 kg/m2. Fernanda- Classifica-se em obesidade I (IMC 30 a 34,9), II (IMC 35 a 39,9) e III ou severa (IMC maior ou igual a 40). Para se fazer o cálculo do IMC é bem simples. Divide-se o peso em kg pela altura em metros ao quadrado. IMC <18,5 kg/m2 é definido como desnutrição, entre 18,5 e 24,9 kg/m2 como peso normal, entre 25 e 29,9 como sobrepeso.
Quais as causas da obesidade?
Fernanda- A Obesidade é uma condição crônica causada pelo consumo excessivo de energia (excesso de ingestão de alimentos) em relação à perda (falta de atividade física), associada a fatores genéticos e emocionais. Desta forma, é considerada uma doença multifatorial devendo todos estes aspectos ser avaliados nas estratégias do tratamento.
Que doenças são decorrentes da obesidade?
Fernanda- A obesidade está associada com diversas comorbidades, incluindo resistência insulínica, diabetes mellitus tipo 2, aumento do colesterol (dislipidemia), aumento da pressão arterial (hipertensão arterial), doenças cardiovasculares, doença gordurosa do fígado, doenças articulares degenerativas e vários tipos de câncer (como mama, fígado, intestino, colo do útero, próstata, etc) e apneia do sono. Em geral, quanto maior o IMC, maior o risco dessas doenças.
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Que tipo de ajuda a pessoa obesa deve procurar?

Fernanda- O sucesso do tratamento da obesidade requer um acompanhamento multidisciplinar. Para tanto, deve-se procurar a ajuda de profissionais especializados, endocrinologista e nutricionista. O ideal é que haja avaliação psicológica e física associadas, já que o tratamento, mais uma vez, requer reeducação alimentar, prática de atividade física e modificação comportamental (mudança de estilo de vida).
Quais as maiores dificuldades no emagrecimento? 
Fernanda- Até mesmo em pacientes com mudanças significativas do estilo de vida, a perda de peso é um desafio, já que a redução do consumo de calorias e o aumento do gasto são contrabalanceados por respostas do próprio organismo que fazem com que a perda de massa corporal resulte em um aumento do apetite e na diminuição do gasto de calorias, além de causarem modificações hormonais e cerebrais. Infelizmente, a maior parte destas modificações se mantém por período indeterminado. Vem daí a necessidade de se desenvolverem estratégias de tratamento e acompanhamento do paciente obeso a longo prazo.
O que é preciso para se ter sucesso no emagrecimento?
Fernanda- O mais importante digamos que seria o desejo real do paciente em contribuir para este processo. Mudar o estilo de vida todos sabemos que não é fácil, já que muitas vezes são hábitos enraizados, que vêm de anos e anos. Partindo do pressuposto que o paciente está ciente da necessidade de mudanças, procurar ajuda especializada é fundamental.
A reeducação alimentar é realmente a melhor solução?
Fernanda- Entre as diferentes estratégias para o tratamento da obesidade, destacam-se modificações dos hábitos alimentares, prática de atividade física, terapia comportamental, medicamentos e cirurgia bariátrica, entretanto a modificação do estilo de vida é a base do tratamento, estando o tratamento medicamentoso e/ou cirúrgico reservados a determinados pacientes.
Quando o tratamento medicamentoso está indicado?
Fernanda- De acordo com o Consenso Latino-Americano de Obesidade, o uso de medicamentos é indicado para pessoas com IMC maior que 30 kg/m2 (obesidade) ou entre 25 e 30 kg/m2 (sobrepeso), para este último se houver outras doenças associadas. No passado, medicamentos para obesidade eram usados por um curto período de tempo. Entretanto, novas drogas têm sido aprovadas para tratamento a longo prazo, já que a obesidade, conforme descrito anteriormente, é considerada uma doença crônica.
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Quais os benefícios da modificação do estilo de vida na obesidade?

Fernanda- A perda de peso inicial de 5% ou mais do peso corporal esta associada a melhoras a curto e longo prazo dos parâmetros cardiometabólicos e respiratórios, do preparo físico, da qualidade de vida, humor e da apneia do sono (apenas uma parte da lista de benefícios), podendo prolongar o tempo de vida em cerca de 10 anos. Sim, você pode viver mais e muito melhor com alguns kilos a menos!
Maiores perda de peso geralmente estão associadas a melhoras mais substanciais dos fatores de riscos cardiometabólicos, como redução da pressão arterial, dos níveis de triglicerídeos, melhora do controle do diabetes e aumento do HDL (colesterol bom).
Quando a redução de estômago e outras cirurgias devem ser utilizadas? Quais os prós e contras?
Fernanda- A Cirurgia Bariátrica é frequentemente o único tratamento de resultado significativo na obesidade severa, que é a que foi definida anteriormente como um IMC igual ou maior que 40 kg/m2. Esta também é indicada para os pacientes com IMC maior que 35 kg/m2 na presença de complicações associadas à obesidade (definida como cirurgia metabólica).
Cirurgia bariátrica pode incluir introdução de anel e/ou cirurgia de retirada parcial do estômago associada ou não ao desvio intestinal.
Dos pacientes que se submetem a estes procedimentos, como benefícios podemos citar uma melhora ou resolução completa maior que 70% das seguintes doenças: diabetes, hipertensão, dislipidemia e apneia do sono, dentre outros benefícios deste tipo de cirurgia.
As complicações vão depender basicamente do tipo de cirurgia, sendo as mais comuns: náuseas, vômitos, deficiência de vitaminas e minerais (como ácido fólico, cálcio, vitamina lipossolúveis – K, D, E, A; vitamina b12, além de outras do complexo B) e síndrome de Dumping que é resumida como a presença de náuseas, vômitos e tonturas após ingestão de alimentos ricos em açúcar.
O reganho de peso é uma das possíveis complicações da cirurgia bariátrica e metabólica, entretanto está associado mais uma vez à manutenção dos maus hábitos de vida, podendo relacionar-se à recidiva do diabetes.

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