Fortaleza Liberta volta a celebrar e debater a cultura negra na capital cearense

por Felipe Gurgel - Repórter
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Marcello Santos (de boina), do grupo Caravana Cultural, participa da sétima edição do Fortaleza Liberta ( Foto: Divulgação )
A sétima edição do projeto "Fortaleza Liberta" acontece hoje (13), de 16h às 22h, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC), na Praia de Iracema. O evento, trazendo a referência dos marcos abolicionistas no Ceará, celebra as expressões da cultura negra em Fortaleza. A programação reunirá, além das cerimônias de abertura e encerramento, painéis, apresentações dos grupos locais "Na Quebrada do Coco", "Batuqueiros da Caravana" e "D' Passagem"; exposição de indumentárias e adereços da Associação Cultural Maracatu Rei do Congo e o lançamento da próxima edição da Bienal Percussiva.
As discussões vão se concentrar em dois momentos. Às 16h20, no auditório do CDMAC, haverá o painel "As manifestações da cultura tradicional e popular de expressão afro-brasileira presentes em Fortaleza". O expositor é o pesquisador, ritmista e arte-educador Marcello Santos, da Caravana Cultural.
Marcello também participa, em seguida, às 17h, da mesa redonda "Perspectivas de fomento e crescimento para a cena da cultura tradicional e popular de expressão afro-brasileira de Fortaleza", no auditório do CDMAC. Ele debaterá ao lado de Alênio Carlos, da Coordenadoria de Patrimônio Histórico e Cultural da Secretaria da Cultura do Estado, Juliana Holanda, assistente-técnica do mesmo órgão; e Rodrigo Damasceno, presidente da Associação Cultural Maracatu Rei do Congo.
Para Marcello Santos, que se diz um "cidadão do mundo", para além das identidades que a organização do evento atribui a ele, o eixo principal da discussão não só em Fortaleza, como em todo o País, é ampliar a consciência sobre a negritude.
"Há sempre um desconforto com a temática afro-descendente. Então a questão é a consciência, dos que vão dialogar, escutar, do público", observa Marcello, abordando a expectativa do painel de abertura desta terça.
Política
Sobre as manifestações da cultura negra presentes em Fortaleza, Marcello pontua que existe um movimento que segue em paralelo às programações do Carnaval da Avenida Domingos Olímpio (com os desfiles dos maracatus), as edições da Kitanda do Dragão (a Feira Kilofé de Economia da Negritude) e as celebrações do 20 de novembro (Dia da Consciência Negra).
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Desfile do Maracatu Rei do Congo, que exibe suas indumentárias e adereços durante a programação: acervo que é patrimônio Foto: Natinho Rodrigues
Ele atesta que a essência do movimento é independente, e precisa caminhar em paralelo às políticas públicas de promoção da igualdade racial. "São poucas ações governamentais. Mas a sociedade não deve ficar esperando. A Caravana Cultural existe há 14 anos e, em alguns momentos, a gente realiza atividades com apoio do governo. Mas, em grande parte, é sem apoio", observa Marcello Santos.
O pesquisador lembra que, para a cultura afro-descendente, o cenário político sempre foi instável. "Houve uma melhorazinha nos governos mais sociais, mas não foi 'essas coisa' não. Inclusive, algumas conquistas nossas estão paradas por causa de ideologia política. E eu não trabalho com cultura de partido", avalia Marcello Santos.
A expressão "Fortaleza Liberta" é inspirada na pintura de autoria do artista plástico cearense José Irineu de Sousa (1850-1924). Ele retratou a solenidade de libertação dos escravos em Fortaleza, realizada há 133 anos (24 de maio de 1883). O quadro, hoje, integra o acervo do Museu do Ceará, na sala "Escravidão e Abolicionismo".
Terra da Luz
Ainda que nomes como o do Dragão do Mar (como era conhecido o jangadeiro Francisco José do Nascimento, que se recusou a transportar escravos e tornou-se abolicionista) e o município de Redenção situem o Ceará no pioneirismo da abolição da escravatura brasileira, Marcello Santos observa que a história ainda é mal contada para a população cearense.
"(Essa história) não tem um tratamento adequado. É uma coisa básica, chega hoje em qualquer escola, e pergunta: 'por que o Ceará é a Terra da Luz?'. Somos a Terra da Luz, por conta dessa libertação. E deveríamos estar à frente dos demais estados (em questão de conscientização pela igualdade racial), já que fomos os primeiros a libertar", aponta Marcello.
Ele solicita que haja "conhecimento, reconhecimento, e atividades no sentido dessa conscientização. Não posso dizer que todos os cearenses não sabem, mas precisam saber. Tem muitos cearenses que não se reconhecem como negros ainda. E 'moreninho' é só um preto que não se assume", reflete o pesquisador, sobre a relativização da cor da pele, nesses casos.
Programação
Local: Auditório do CDMAC
16h às 16h20 - Abertura
16h20 às 17h - Painel "As manifestações da cultura tradicional e popular de expressão afro-brasileira presentes em Fortaleza", com Marcello Santos
17h às 19h - Mesa redonda "Perspectivas de fomento e crescimento para a cena da cultura tradicional e popular de expressão afro-brasileira de Fortaleza", com Alênio Carlos (Secult/CE), Juliana Holanda (Secult/CE), Marcello Santos (cidadão do mundo) e Rodrigo Damasceno (Associação Cultural Maracatu Rei do Congo).
Local: Espaço Mix do CDMAC
19h às 22h:
Apresentações dos grupos Na Quebrada do Coco, Batuqueiros da Caravana e D' Passagem; exposição de indumentárias e adereços da Associação Cultural Maracatu Rei do Congo; lançamento da Bienal Percussiva/2016 e encerramento
Mais informações:
VII Encontro "Fortaleza Liberta". Painéis, exposição e apresentações artísticas sobre a cultura negra de Fortaleza, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (R. Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema). Hoje (13), de 16 às 22h. Entrada franca. Contato: (85) 3488.8600
Diário do Nordeste

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