Em "Xica da Silva - a cinderela negra", Ana Miranda percorre os labirintos da história do Brasil escravo

A escritora Ana Miranda: novo livro dedicado a Xica da Silva quebra noções equivocadas
À luz da história, aos poucos, o mito da mulata Xica da Silva - filha de pai branco com mãe africana, cuja trajetória de vida se passou no século XVIII - vira personagem histórica. De mulher sensual - estigma carregado inicialmente pelas índias, depois pelas negras - surge uma nova imagem para a ex-escrava, que conseguiu mais do que a própria alforria.
Tornou-se milionária, sendo mãe cuidadosa, benemérita e mecenas, conforme descreve a escritora Ana Miranda no livro "Xica da Silva - a cinderela negra" (Editora Record, 529 páginas), previsto para ser lançado em Fortaleza em fevereiro, mas ainda sem data definida.
A obra é ilustrada pela autora, que lança mão de desenhos alusivos à cultura negra, com ênfase nas máscaras, além de fotografias históricas.
Ana Miranda faz um levantamento da vida de Xica da Silva como um todo, justificando que o adulto não deixa nunca de ser a criança que foi um dia. Por isso, a autora acredita que o mito em torno da escrava forra permanecerá.
A autora usa o artifício das letras em itálico nos relatos históricos reconstruídos por sua imaginação, nos mínimos detalhes, a fim de diferenciar dos fatos reais.
"Aos olhos de nosso tempo ela reaparece libertada de estigmas - iluminada pelo estudo que a fortaleceu e lhe deu maior dignidade e mais 'realidade', conforme posturas adotadas por estudiosos para o levantamento de figuras do passado", observa. Nesse sentido, novas imagens de Xica da Silva não apagam as antigas, argumenta.
Empoderamento
Hoje, Xica da Silva representa a libertação da mulher. A palavra da moda "empoderamento" define bem a personagem, brinca Ana Miranda. No contexto histórico do seu tempo, o século XVIII, saiu da condição de escrava para se transformar numa cinderela.
Diferentemente da jovem do conto de fadas, Xica extrapola a questão familiar, conseguindo um lugar na sociedade desigual e preconceituosa, na qual a riqueza era medida pelo número de escravos. Ela tinha muitos, alforriando vários, numa demonstração de consciência de classe.
O desafio de Ana Miranda, portanto, é contrapor sua biografada aos arquétipos criados em torno de uma mulher que a mídia transformou em símbolo sexual. A autora atenta para a relação com o homem português, que não buscava só sexo, como outros autores (a exemplo de Gilberto Freire) mostraram mais tarde.
"Buscavam mulheres que cozinhassem e dessem filhos para eles". Havia uma construção no imaginário do colonizador em torno da mulher exótica, que teve início com as índias, passando depois para as africanas, esclarece.
Fatos históricos
Com a proposta de escrever a biografia de Francisca da Silva de Oliveira, nascida por volta de 1734, Ana Miranda ambienta sua narrativa no Brasil colonial, mais precisamente entre os séculos XVII e XVIII.
Em texto preciso e elegante, a autora, como se desenrolasse um novelo, vai soltando fios de pura história, já que se trata de biografia "baseada em fatos históricos", passando ao largo da ficção.
Dividida em seis capítulos, além de prólogo e palavras finais, a obra funciona como uma lente, ao percorrer de maneira minuciosa importantes momentos da memória brasileira. O principal cenário é Diamantina, antigo Arraial do Tijuco, cidade mineira na qual viveu Xica da Silva, a escrava que virou rainha, assinala a autora de "Boca do inferno".
Conforme Ana Miranda, até há pouco tempo, o que se conhecia sobre a protagonista de seu novo livro era lenda - que aos poucos começa a dar lugar à figura histórica.
O primeiro passo no sentido de desfazer o mito foi dado pela historiadora mineira Júnia Ferreira Furtado, autora de uma biografia acadêmica sobre Xica da Silva, publicada em 2003.
Uma das constatações é a escassa documentação sobre a ex-escrava. A pesquisadora encontrou informações acerca de mulheres contemporâneas à rainha do Tijuco.
A situação da ex-escrava, que encantou um rico contratador de diamantes, o português João Fernandes de Oliveira, não fugia à regra das demais de sua época.
Muitas escravas se tornavam livres e poderosas, constata a escritora. "Não havia mulheres brancas suficientes para casar com os fidalgos portugueses", informa Ana Miranda, apoiando sua escrita em fatos reais.
Casamento e alforria
A saída era contrair matrimônio com escravas forras, pardas ou mulatas. O casamento garantia a alforria, como aconteceu com Xica da Silva, cuja história virou lenda, repassada por várias gerações.
Entre os achados da historiadora, a certidão dos 14 filhos de Xica da Silva, bem como registros em escolas, demonstração de quer era uma mãe zelosa. A descoberta serviu para desfazer a imagem da "revolucionária devassa" atribuída pelos autores do filme e da novela sobre a ex-escrava, que detinha mais riqueza do que o rei de Portugal.
O marido era generoso com a mulher e mãe dos seus filhos, já que não podia casar oficialmente com a amada, sob pena de "sujar" o sangue e ser amaldiçoado. A lei da época era implacável, proibindo um fidalgo de misturar seu sangue com o de índio, negro, mouro ou cigano.
Mãe cuidadora
"Xica da Silva era casada e fiel ao marido. Não se sabe que tenha mantido relação com outros homens, sendo mãe cuidadora. Enviou os filhos para Portugal, e as filhas foram para um recolhimento perto de Diamantina", afirma a autora.
Ana Miranda consegue identificar ainda outro traço em sua personalidade: Xica gostava de incentivar as artes. Chegou a construir um teatro na sua famosa chácara - palco de óperas, encenações teatrais e diversas apresentações de músicas folclóricas.
Dessa maneira, ela contribuiu para o surgimento do teatro, além de promover a cultura negra, citando as orquestras formados por ex-escravos.
Ao esmiuçar a história de Xica da Silva, a escritora descobre sua origem, que aparenta ser bastante remota. No livro, há um capítulo dedicado à vida de sua mãe, que veio da África.
Costumes
Naquela época, o modelo de vida era ditado pelos fidalgos portugueses, daí a necessidade de imitá-los, fosse no comportamento, fosse na maneira de se vestir.
Os ex-escravos precisavam "embranquecer-se" para ascender na sociedade do Brasil do século XVIII, que tinha como base os costumes ideias da corte portuguesa.
A mesma realeza que ditava uma maneira de viver com fidalguia explorava as riquezas materiais, as jazidas de ouro de Minas Gerais, às custas dos escravos africanos comercializados no Brasil.
Com Xica da Silva não era diferente. Seu marido tinha o contrato de usar até 900 escravos e extrair ouro de determinadas regiões. Há relatos de que o contratador tinha seis mil escravos.
Aos olhos da autora, nada passa despercebido. Sua narrativa inclui os costumes de uma sociedade formada, em grande parte, de negros forros e mestiços. Lembra o uso de peruca pelos homens e as armações nos cabelos das mulheres - algumas dormiam sentadas para não estragar o penteado.
Para as roupas, os tecidos vinham de Paris, lembrando do uso do pó de arroz e os adornos. "As mulheres caprichavam nas vestimentas que eram luxuosas e acompanhadas por joias. "Era esse o padrão da sociedade do século XVIII",escreve.
Muitas vezes, a corte portuguesa precisava baixar decreto proibindo os excessos. Os governadores chegavam a proibir tal ostentação, principalmente nas igrejas.
"A missa era o lugar mais importante de aparição pública", lembra, completando que a estratificação da sociedade era representada pela distribuição no templo.
Nos bancos da frente ficavam os mais ricos, até chegar aos escravos, a quem cabia a calçada. "As mulheres queriam se mostrar sempre bem vestidas e penteadas. A maioria eram negras", observa Ana Miranda, confessando ter adorado escrever o livro, que se propõe relatar a história real da ex-escrava que virou lenda.
Livro
Xica da Silva - a cinderela negra
Ana Miranda
Editora record
2016, 520 páginas
R$69,90
Diário do Nordeste

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