O INIMIGO DO MEU INIMIGO É MEU AMIGO

Grecianny Carvalho Cordeiro*

Utilizando minha imaginação enquanto romancista, escreveria a seguinte história:

O país passava por um momento único em sua História. As instituições descreditadas, a política enlameada pela chaga da corrupção, a mídia expondo as vísceras de um sistema político-administrativo corrompido e, no meio de tudo isso, uma sociedade exausta por tanta inaptidão estatal, a deixá-la desamparada, sem serviços de saúde, educação e segurança pública. Era o retrato dantesco do inferno.

Era chegada a hora de mudar, de passar a limpo a História de um país explorado e espoliado desde a sua descoberta.
           
E ao que parecia, as coisas estavam mudando.
           
Ninguém mais poderia se julgar acima da lei, nem mesmo os políticos, sob a proteção do foro privilegiado e da influência do dinheiro e do poder.
           
O país estava sendo passado a limpo por meio de uma investigação policial realizada mediante a união de esforços entre Policia Federal, Ministério Público e outras instituições, ao abrigo do Poder Judiciário.
           
A verdade estava prestes a vir à tona.
           
–Não podemos deixar isso acontecer – diria alguém.
           
–Será o fim da República, o fim de todos nós, que levamos uma vida inteira para construir uma imagem, uma história e uma fortuna – diria outro.
           
–Mas como fazer, depois de tantas rusgas e intrigas formadas ao longo desse tempo? Jamais imaginamos que as coisas pudessem ir tão longe – avaliou outro, consternado.
           
–Pensem. Deve haver uma luz no fim do túnel  – insistiu um esperançoso.
           
Alguém sorriu com os olhos brilhando de emoção e sentenciou:
           
–O inimigo do meu inimigo é meu amigo; vamos juntar todas as forças e chegar a uma solução.
           
Então, os inimigos fizeram uma reunião secreta, por meio de interlocutores insuspeitos, e tramaram um plano ousado. Faltava escolher o momento exato para pôr em prática, pois o alvo era bastante vulnerável e não se acautelava de sua segurança.
           
O instante chegou. Seria no auge de um clamor social, em que as pessoas e a mídia estavam envolvidas ao extremo num problema grave relacionado aos presídios.
           
–Sinal verde. Façam de um modo que não levante suspeitas.
           
–Irão suspeitar.
           
–Mas jamais conseguirão provar, afinal, estamos juntos nessa operação.
           
–Não deixem rastro.
           
Numa tarde chuvosa, um avião estava prestes a decolar, quando fez uma manobra estranha e, de forma surpreendente, caiu no mar. Ninguém sobreviveu.
           
Os fatos aqui narrados são irreais. Qualquer semelhança será mera coincidência.

*Promotora de Justiça

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