Em "Arvorada", Orlandeli reinterpreta Chico Bento e entrega um dos títulos mais bonitos da Graphic MSP

O lançamento aconteceu na Comic Con Experience Recife, em abril deste ano. O anúncio já havia sido feito, quatro meses antes, na edição do evento em São Paulo: no painel No painel da Mauricio de Sousa Produções, o editor Sidney Gusman revelou os quatro novos álbuns da linha Graphic MSP. Um deles era "Arvorada", segunda aventura do caipirinha Chico Bento dentro da coleção - a primeira foi "Pavor Espaciar", assinada por Gustavo Duarte.
Na ocasião, o público soube que a nova empreitada havia ficado a cargo do cartunista, quadrinista e ilustrador Walmir Orlandeli. Um acerto e tanto da equipe de Mauricio de Sousa: responsável por publicações como o ótimo "(SIC)" e o famoso personagem Grump, o paulista é um dos mais instigantes profissionais em atividade hoje
Além do traço muito particular em seus quadrinhos autorais, Orlandeli se destaca pelo bom texto e a engenhosidade com que constrói a narrativa a partir das imagens. Essa competência já lhe rendeu salas lotadas em oficinas como "Contando pequenas histórias", na qual explora o uso de ferramentas narrativas nas HQs.
Identificação
Nascido em Bebedouro, interior de São Paulo, Orlandeli tem aí seu primeiro ponto de identificação com Chico Bento, um dos personagens mais cativantes da turminha.
"O próprio Gusman falou que isso ajudou um pouco a me chamar (para fazer o novo livro do personagem), ele achava que tinha a ver", conta Orlandeli. Mas proximidade com o universo de Chico vem também do contato com suas historinhas. "Não pesquisei nada, porque lia muito as revistinhas", brinca.
Segundo Orlandeli, a única orientação recebida da editora foi tentar construir uma história não apenas engraçada (caso de "Pavor Espaciar"), mas com apelo emotivo. "Como o humor é um aspecto muito forte no meu trabalho, eles fizeram essa observação", explica.
"Mas aquele ambiente de Interior, cheguei a vivenciar um pouco daquilo, então fiquei feliz de ter ganhado o Chico, porque possibilitava justamente falar da questão da simplicidade da vida, trabalhar os dois lados do personagem. Chico é muito engraçado naturalmente, mas também tem uma coisa cativante", completa.
A partir dessa possibilidade, Orlandeli surpreendeu ao escolher uma personagem secundário da turma do Chico para sua história. "Vo Dita entrou porque ela mesma é uma contadora de história, a partir dela dava pra trabalhar com muita coisa do folclore", justifica o autor.
Outro protagonista inesperado é o ipê-amarelo, árvore que ocorre em quase todo o País e bem comum tanto na capital paulista quanto em zonas rurais do estado. "Desde o começo queria usar o ipê-amarelo, tanto pela cor quanto por sua relação com o efêmero". Sobre esse últim aspecto, a própria Vó Dita explica: "Ele passa o ano inteirinho quase sem chamá a nossa atenção/ até qui suas froris exprode numa belezura qui mais parece um milagre/é argo único/ um presente imbruiado num pedaço di tempo".
Antes mesmo de o leitor confirmar esse e outros acertos de Orlandeli, o próprio Mauricio de Sousa adianta alguns, no texto de apresentação do livro. "O danado do Orlandeli, caipira como eu, tratou de me emocionar em um novo patamar. É que, até agora, eu me sentia emprestando meus personagens a esses talentos todos que passaram pelo selo. Em 'Arvorada', foi como se um pedacinho da minha vida tivesse sido transposto para as páginas. Porque a sabedoria popular que Vó Dita transmite ao Chico bento é a mesma que a minha Vó Dita passava para mim e meus irmãos", escreve o mestre.
"Neste álbum, tem de tudo. Tem suspense, medo, humor, meninices, lembranças (boas e ruins), sobrenatural, fé, alegria, valentia e diferentes tipos de amor", continua.
Delicado
De fato, está tudo lá. Orlandeli trabalha uma história de tema delicado (morte, perdas) com equilíbrio impecável. "È uma linha bem estreita, porque precisou cuidado para não ficar muito meloso", comenta o cartunista. Esse cuidado traduz-se tanto nos respiros cômicos pontuais quanto em detalhes que impedem de tornar mesmo os momentos mais tristes em algo piegas.
O que dizer, por exemplo, da referência à irmã de Chico Bento, Marianinha, que morre ainda bebê (em todos esses anos, a personagem apareceu em apenas duas historinhas, uma em 1990 e outra em 2005, mas o suficiente para marcar uma legião de fãs)?
Como não engasgar quando Vó Dita fica doente e Chico olha para o céu, sozinho no meio de uma página inteira, e fala "Di novo, não!"? Como não se enternecer com sua carinha espiando o quarto da avó pela porta? Como não se derreter com o final escolhido pelo autor?
"Só percebemos o resultado depois que os leitores começam a responder. E no meu caso foi bem positivo, você não tem noção do tanto de mensagem que recebi, até mesmo de voz, de adultos soluçando", emociona-se Orlandeli.
Estilo
Parte do enorme acerto de "Arvorada" vem do casamento entre o excelente traço do quadrinista (cheio de personalidade, ao ponto de ser possível reconhecer a aparência de outros personagens seus em "Arvorada" - a isso damos o nome de assinatura) e a maneira colo constrói os enquadramentos. Muitas vezes os desenhos atravessam de uma página à outra (nesse sentido, os galhos do ipê são uma constante), conferindo fluidez à história.
Algumas são arrebatadoras, com espaços vazios que falam tão alto quanto balões, ou personagens agigantados a ocupar uma página inteira - por vezes, Orlandeli resolve uma sequência de ação inteira nesse único espaço (repare na chegada dos Saci, do Curupira, do Lobisomem e do Boitatá, no plano de Chico com o porquinho Torresmo para distrair uma das criaturas ou quando vive sua rotina de atividades).
Vale ressaltar ainda o sensível uso das cores, que dá o tom em diferentes momentos da história - a explosão amarela e solar do primeiro capítulo; o verde ora tranquilo, ora remetendo à seriedade pálida do mundo dos adultos; o alaranjado melancólico do fim de tarde; o sépia agridoce das memórias; o vermelho flamejante dos seres folclóricos; o preto e branco da noite cheia de perigos).
Assim, ler "Arvorada" pode ser uma experiência ansiosa: ao mesmo tempo em que as ilustrações nos fazem demorar nas páginas, queremos saber o que acontece na história. Nesse meio tempo, uma coisa é certa: se em algum momento não lhe subir um arrepio pelo braço, é bom checar se está tudo bem com seu coração.
Livro
Image-0-Artigo-2247698-1
Arvorada
Walmir Orlandeli
Panini
2017, 100 páginas
R$ 36,90 (capa dura) / 27,90 (capa cartonada)

Diário do Nordeste

Comentários

Mais Visitadas

A linguagem do amor

Garimpeiro do conhecimento

Museu da Fotografia Fortaleza realiza nesta quinta (17) palestra sobre a imagem contemporânea

Aposentadoria por idade será aprovada por internet e telefone

Theatro José de Alencar recebe instalação/espetáculo "Grande Sertão Veredas" em duas únicas apresentações