Livro-ensaio combina arte urbana de São Paulo, Nova York e Berlim em imagens e textos

por Roberta Souza - Repórter
A capital paulista se diferencia pela vegetação que cresce o cimento da metrópole ( Fotos: reprodução )
Às vezes é mais fácil se definir mostrando para o outro o que não se é. Isso vale para pessoas e para coisas também. O livro "Grafite - Labirintos do olhar" segue essa lógica. Logo na introdução, Gabriela Longman, jornalista, deixa muito claro o que ela e o pai, o fotógrafo Eduardo Longman não propõem com o material. Ampliam o recorte subentendido no título e negam o projeto visual para quem possa julgar apenas pela aparência.
Ao receber a obra, com 123 imagens captadas de três cidades - São Paulo, Nova York e Berlim - e textos leves de uma repórter casados com essa imersão visual, faz-se necessário ler logo de cara que "não é apenas um livro de fotografia - ainda que as fotos extrapolem e muito, o registro documental - não é um diário de viagem, não é um catálogo artístico e não é uma reportagem - ainda que essas categorias estejam misturadas aqui e ali".
O projeto é resultado de incursões dos autores pelas ruas das três capitais mencionadas e surgiu de conversas entre pai e filha sobre trabalhos que poderiam realizar juntos. Ele lembrou de um ensaio emblemático que fizera sobre o centro paulista para a 14ª Bienal Internacional de São Paulo (exibido também no MIS em 1980); e ela, como jornalista da área de cultura, trouxe o interesse pelo desenvolvimento da linguagem global do grafite em diferentes arquiteturas e contextos.
O livro é bilíngue e vem sendo trabalhado desde 2014. Lançado em abril deste ano no período de realização da SP-Arte, no Pavilhão da Bienal do Ibirapuera, ele faz refletir sobre cada uma das cidades representadas num tempo em que conceitos e políticas públicas dedicadas à arte urbana soam contraditórios.
Estrutura
"Grafite - labirintos do olhar", cujo design foi criado pela Bloco Gráfico, apresenta-se com capa impressa em serigrafia e uma combinação de papéis que remete à sinalização urbana. São Paulo, Nova York e Berlim têm cada uma um capítulo fotográfico, evidenciado pelos textos curtos em quatro folhas amarelas que antecedem os retratos visuais. O livro conta ainda com três pôsteres, que dão maior visualização a uma intervenção de grafite por cidade.
Mas ainda que os textos de Gabriela não sejam tão longos, ela consegue tocar em discussões sociais, econômicas e políticas tão atuais quanto históricas. Vai das origens da manifestação em Nova York, aos contextos de realização em Berlim, sem deixar de comentar a postura do prefeito de São Paulo, João Dória, frente às intervenções da cidade. É interessante como as ideias se misturam e fazem crer que, embora se desenvolvam em lugares distintos, interligam-se e seguem uma lógica semelhante em todas as localidades. Fortaleza incluso.
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Grafites em Berlim (Alemanha)

"Este livro procura situar o grafite nem no céu, nem no inferno, mas quer exaltar alguma de suas qualidades, especialmente o ideal de liberdade, risco e experimentação que muitas dessas obras de arte trazem em si", propõe a autora.
Partindo desse princípio, as páginas trazem obras de artistas mundialmente conhecidos e de autores anônimos; trabalhos encomendados e outros feitos na ilegalidade; obras de homens e mulheres de diferentes nacionalidades, técnicas e estilos.
"A seleção baseia-se no diálogo entre a obra - o estêncil, o mural, o adesivo - e o suporte - a ponte, a parede, o muro, o vidro. É a conversa entre a obra artística, o ritmo e a vida nessas três aldeias globais o verdadeiro tema desse ensaio", situa Longman na introdução, que acompanha uma nota explicativa sobre o que eles entendem por grafite - o desenho figurativo no espaço público.
Cidades
De São Paulo, Longman destaca duas marcas naturais que a maior parte das capitais europeias, americanas e asiáticas não tem: a vegetação tropical - plantas, raízes, arbustos que brotam em qualquer canto em meio às fissuras do concreto; e o relevo - em referências às ladeiras íngremes. São essas interações que valorizam o material visual da cidade.
De Nova York, as reflexões partem de um contexto periférico, de uma "guerra ao grafite" orientada também sobre a persistência da discriminação racial. E avança sobre uma paisagem que muda todos os dias, sujeita à venda e à demolição de imóveis, às novas mãos de tinta fresca ou à erosão causada por vento, chuva e neve.
De Berlim, chama atenção o conceito de "cidade zumbi", cuja gentrificação não tem se contentado em destruir espaços criativos. "Essa zumbificação ameaça transformar Berlim em cidade museológica de verniz, com a 'cena artística' preservada como parque de diversões para quem puder pagar os aluguéis cada vez mais caros", cita a autora.
Os Longman sugerem, por fim, uma aproximação da manifestação que escolheram detalhar com o "primo" jazz. Separados por um século, eles partilham uma origem semelhante: negra, suburbana, provocativa, alegre, dolorida. "Enquanto o primeiro foi a trilha sonora de um século lindo e terrível, o segundo tem tudo para ser a matriz visual de uma era que ainda nos desafia, intriga e interroga". Tomara, então, isso continuar.
Livro
Grafite - Labirintos do olhar
Eduardo Longman e Gabriela Longman
BEI Editora
2017, 182 páginas
R$60

Diário do Nordeste

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