Trabalho voluntário na terceira idade traz benefícios para saúde

Vanilda se diverte com as crianças na instituição(Foto: Divulgação Associação Peter Pan)
Vanilda Martins, 63, é dona de casa, avó, atleta e universitária. Um ânimo só, que ela não cansa de aguçar. Às terças e quintas-feiras, divide espaço na agenda intensa com o trabalho voluntário na Associação Peter Pan
Ela sai cedo de casa, no Antônio Bezerra, para chegar na instituição, que fica no bairro Vila União, às 8 horas. Lá, ela participa do projeto “Ler faz bem”, em que a leitura é usada como instrumento de cultura e lazer de crianças e adolescentes com câncer.  
A experiência traçou novos rumos na vida da voluntária, como voltar a estudar. “O trabalho me aproximou de outra realidade. A gente fica querendo ajudar", explica. "O curso que escolhi foi por causa desse contato com as crianças”, afirma a estudante do 3º semestre de Serviço Social, de uma faculdade em Itapipoca, a 136km da Capital, para onde ela vai aos fins de semana estudar. "Saio na sexta-feira à noite. É longe, mas eu gosto. Sei que na assistência social vou poder ajudar as pessoas". 
Além da nova perspectiva profissional, ela relata mudanças nas relações sociais. “Tenho muita amizade lá dentro, somos uma família”, por telefone, Vanilda detalha que a atividade a ajudou na comunicação com as pessoas. 
A dona de casa começou a atuar na Associação há 10 anos, quando achou que era o momento de buscar por ocupações fora de casa, já que os filhos se tornaram adultos.  
Mas foi nos últimos três anos - quando entrou na terceira idade - que o trabalho serviu como combustível para novos desafios. “Lá, é como se fosse uma terapia”. Além do núcleo de leitura, ela entrou para o coral da instituição, e, agora, canta nos hospitais e festinhas das crianças. 
Vanilda também começou a praticar atividades físicas. “Corro com meu filho. Saio bem cedinho, 4h30min”, conta orgulhosa, e acrescenta que já corre 10km, mesmo tendo começado no ano passado. “Ah, minhas duas netinhas, de 7 e 10 anos, já correm também”. 
As transformações narradas pela voluntária podem ser explicadas pela Ciência. Para a professora de Psicologia do Centro Universitário Estácio Ceará, coordenadora do Núcleo de Estudos em Psicologia, Gênero e Política (Nupex), membro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia (Anpepp), e doutoranda em psicologia, Juliana Fernandes, o trabalho voluntário pode atuar como ferramenta de socialização.
“O idoso necessita de uma rede social, de apoio emocional e um sistema que possibilite uma redescoberta dos projetos e novas ações”, destaca. Segundo a pesquisadora, a inserção do idoso no trabalho voluntário, assim como a reinserção no mercado de trabalho, têm impactos positivos que vão desde a saúde física à psíquica.
“Quando você elabora uma nova linguagem, no caso do trabalho voluntário, está regando sementes para uma linguagem que está sendo esquecida, apagada no silêncio”, explica. “Isto é fundamental, tanto para o organismo físico, biológico, como aspectos emocionais e cognitivos”. 
Pesquisas 
Um estudo realizado na China em 2005, mostrou que os idosos engajados em causas sociais apresentavam melhor saúde física e satisfação com a vida e menor índice de depressão. Ao todo, 501 idosos foram analisados. 328 deles eram voluntários, os outros 173 não.   
Outra análise, em Israel, notou que os idosos que eram voluntários, apresentavam menor déficit cognitivo, maior número de relacionamentos interpessoais e avaliação mais positiva da vida, em relação aos que não praticam atividades do gênero.
Os resultados são expressivos. Sobretudo, em um cenário em que cerca de 20% dos idosos no mundo sofrem com depressão, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). 
Ambas as pesquisas foram citadas pelo artigo "Trabalho voluntário: uma alternativa para promoção da saúde dos idosos", de estudantes de pós-graduação da Universidade de São Paulo (USP).  
Peter Pan
A instituição atua há mais de 20 anos na Capital, com o apoio de crianças e jovens até 19 anos. Assim como amparo emocional aos pais e responsáveis. Lá, os assistidos recebem o diagnóstico precoce do câncer e tratamento especializado, sempre com o atendimento humanizado. 
“Na Associação, a gente aprende a ser mais humano. A gente faz cursos de humanização e vários outros", apresenta. "Às vezes, as crianças saem chorando da terapia, e eu abordo, mostro um livrinho, conto uma história. É gratificante”, conclui a voluntária. Assim como Vanilda, cerca de outros 320 voluntários trabalham nos projetos da Peter Pan.
SERVIÇO
Associação Peter Pan
Onde: Rua Alberto Montezuma, 350, no Vila União
Telefone: (85) 4008-4109
BRUNA DAMASCENO

O Povo

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