Bertolt Brecht: um poeta de posição revolucionária

por Iracema Sales - Repórter
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O pensador francês Didi-Huberman: em "Quando as imagens tomam posição", ele o elabora trabalho de resgate histórico, ao debruçar-se sobre a figura do poeta e dramaturgo alemão Bertold Brecht
As imagens não aparecem apenas como apêndices ou coadjuvantes; elas ganham função de alicerces e viram referências na construção do pensamento de um dos mais instigantes filósofos contemporâneos, o francês Georges Didi-Huberman. Sua obra percorre as artes visuais, com um olhar especial para a pintura, fotografia, cinema e escultura, procurando manter interlocução com a literatura, estética e política.
Outra característica de seus estudos - como mostra no recém lançado "Quando as imagens tomam posição - o olho da história, I" - é o apoio que busca em alguns autores, sendo recorrentes as conversas com os alemães Aby Warburg (1866- 1929) e Walter Benjamin (1892-1940).
Os dois foram buscar em ruínas explicações tanto para a história da arte quanto para a filosofia e condição humana. Um dos símbolos dessa inquietação é a obra "Anjo novo", do pintor suíço Paul Klee (1879-1940), realizada em 1920, sendo analisado por Benjamin, no ensaio "Sobre conceito de história".
Dividido em cinco partes, em "Quando as imagens tomam posição" o pensador francês elabora trabalho de resgate histórico, ao debruçar-se sobre a figura do poeta e dramaturgo alemão Bertold Brecht (1898-1956), tendo como foco as criações "Diário de trabalho" e "ABC da guerra".
Nas obras, marcadas pela subjetividade, é como se autor desnudasse a própria alma para denunciar não somente sua condição de exilado político, mas também a situação pela qual o mundo vivia. Sobretudo a Europa, ameaçada pelo avanço do nazismo. Seus escritos misturam literatura e realidade fazendo valer uma das principais funções da arte: "denunciar a desordem do mundo".
Inquietantes, os trabalhos exigiram posicionamento de Brecht, sentencia o autor, cujas obras se caracterizam em farejar tanto imagens quanto informações - de preferência as que fogem do senso comum, no sentido de montar nova maneira de contar a história da arte.
Nesse aspecto, as publicações estudadas por Didi-Huberman não têm caráter biográfico, demonstrando forte ligação com a política, associada à estética, mas sem perder de vista o contexto político do período, vai de 1933 até 1955.
Dessa maneira, a forma e o conteúdo dos documentos históricos, com viés estético-revolucionário, passam em revista as vanguardas artísticas europeias. Brecht recorre à colagem, técnica usada pelos surrealistas, cubistas e dadaístas, sem perder de vista o nascimento da indústria cultural.
Posição
Assim, ele constrói sua narrativa retirando a matéria-prima dos jornais, com destaque para as fotografias. "Cartilha da guerra" foi publicada em 1955, concebida por montagens que sugerem um desmonte da realidade. Quando recria sua obra usando o material tirado de jornais, o autor comunga com a tese de Gilles Deleuze (1925-1995): "Escrever não é contar suas lembranças, suas viagens, seus amores e seus lutos, seus sonhos e seus fantasmas. (?) A literatura segue a via inversa (?.) A literatura só começa quando nasce em nós uma terceira pessoa que nos despoja do poder de dizer Eu". E foi justamente o que fez Brecht com sua cartilha e o seu diário.
Brecht não esperou pela chegada da guerra para se posicionar. A tomada de posição aparece em 1939, quando escreveu poemas enérgicos com o título "Manual da guerra alemã". Em 1933, ironizava sobre a abrangência dos meios de comunicação que chegavam no bojo da indústria cultural. "Creio que o próprio Deus não se informa mais sobre o mundo, senão pelos jornais", sentenciou o poeta alemão, que criou com Benjamin, um projeto de jornal estético e político "Crise e política".
Aos poucos, assumia posição de artista moderno, "numa época em que cubistas já haviam feito grande uso do papel-jornal. Depois da grande carnificina da Primeira Guerra Mundial, os dadaístas divertiram-se em desconstruir poeticamente a própria noção de informação pela via da imprensa, propondo recortar tudo isso em mil pedaços". O Poeta Tristan Tzara faz o convite em "Para fazer um poema dadaísta", de 1920: "Pegue um jornal. Pegue uma tesoura. Escolha neste jornal um artigo com o tamanho que pretende dar a seu poema (?)"
Vida mutilada
Outra palavra bastante significativa para Brecht e sua obra é exílio. Trata-se de condição que marcou parte da história do século XX, usada por ele com o significado "vida mutilada", defendido por Teodor Adorno (1903-1969).
O exílio do dramaturgo alemão começou em 28 de fevereiro de 1933 e não conseguiria voltar a Alemanha antes de 1948. "Terá, então passado 15 anos de sua vida sem teatro, muitas vezes sem dinheiro, vivendo em países cuja língua não era a sua, entre o acolhimento e a hostilidade, sobretudos a dos processos macartistas que teve de enfrentar na América", como escreveu no seu diário.
O autor de "Os tambores na noite" esteve exposto à guerra, embora não tenha sido recrutado para os campos de batalha, o que não diminuiu sua vivência com os horrores, que acompanhava pelos jornais e sentia na própria pele. Perdeu sua pátria.
Em 1940 escreveu: "só estou bom para compor pequenos epigramas, octossílabos e agora quadras". Com seus versos e ilustrações dava sua visão sobre o conflito - também uma maneira de combater a guerra e o nazismo. Benjamin conseguiu identificar nas obras "uma escritura de exílio, capaz de manter suas exigências formais ao intervir diretamente no terreno das análises e tomadas de posição políticas", observa Didi-Huberman.
No seu "Diário de trabalho", o poeta propõe a criação de passagens capazes de transpor fronteiras, constituindo um exercício de liberdade. Era uma poeta na guerra e em guerra. A recorrência no estudo da imagem constitui um dos traços da pesquisa de Didi-Huberman, autor que passa ao largo das respostas prontas, preferindo arriscar-se. Isto é, sair em busca de pistas que possam levar a um novo pensamento acerca da história da arte, disciplina que parece estar sempre sendo posta em xeque. É isso o que faz no livro "Diante do Tempo - história da arte e anacronismos das imagens, publicado também pela Editora Ufmg, e traduzido por Vera Casa Nova e Márcia Arbex. Na obra, ele resgata o pensamento de alguns historiadores da arte, entre outros Aby Warburg (1866-1929), Alois Riegel (1858-1905) e Erwin Panofski (1892-1968), considerados desbravadores dessa área do conhecimento.
No entanto, são injustiçados. Talvez por tentarem fazer o caminho inverso, quando propõem a criação de uma história da arte partindo da leitura de imagens, e não de palavras. A hipótese implica no deslocamento do ponteiro da história da arte ocidental.
O filósofo francês destaca "a mutação epistemológica da história da arte", defendendo que teve lugar na Alemanha e em Viena, nas primeiras décadas do século XX. Entretanto, muitos desses autores, caso de Warburg, começaram a ser reconhecidos nos últimos anos.
Revisão
Didi-Huberman é um dos responsáveis por essa revisão histórica, ao trazer à contemporaneidade o pensamento do alemão, que descobriu uma nova maneira de relatar a história da arte. O seu "Atlas de Mnemosyne" é um exemplo, ao dar voz e palavra às imagens.
"Quando entramos hoje, em Hamburgo, na casa-biblioteca de Aby Warburg, vazia de todos os seus livros - os sessenta mil volumes foram deslocados principalmente, numa noite de 1933, sob a ameaça nazista -, ficamos tocados por um pequeno cômodo cheio de dossiês, de velhos papéis: eles reúnem os destinos de todos os historiadores da arte alemães, judeus em sua maioria, que tiveram de emigrar nos anos 1930", escreve.
O arquivo é o testemunho material da "fratura" ou corte que a história da arte ocidental sofreu. Conforme o estudioso, seria possível resumir a situação que prevaleceu dizendo que a Segunda Guerra quebrou esse movimento, mas também que o pós-guerra enterrou sua memória.
Os dois livros guardam muitas semelhanças e parecem se complementar. Eles apresentam as imagens como protagonistas, ou seja, constituem os principais objetos de estudo de Didi-Huberman, que tem no tempo outro aliado para desenvolver seu pensamento. Suas pesquisas assemelham-se a escavações em memórias que, à primeira vista, aparecem apenas como esboços, mas que ganham forma e corpo quando se deparam com vestígios de imagens.
No livro, sugere a imbricação entre tempo e imagem. Daí sua discussão começar como uma provocação, ao sugerir ser a história da arte uma disciplina anacrônica. Como se usasse um microscópio, inicia sua hipótese, analisando um detalhe, localizada na parte inferior da obra "Madona das sombras", afresco de Fra Angelico, pintado por volta de 1440-1450.
Defendendo o anacronismo das imagens, o crítico de arte francês atenta para as pinceladas renascentistas do pintor italiano e as do norte-americano Jackson Pollock (1912- 1956). "As relações de analogia entre o pano manchado de Fra Angelico e um quadro de Jackson Pollock não resistem muito à análise. Fra Angelico não é, de forma alguma, o ancestral da 'action painting', e seria simplesmente estúpido procurar, nas projeções pigmentares de nosso corredor, alguma economia libidinal, do tipo expressionismo abstrato. É evidente que a arte de Pollock não pode servir de interpretante adequado às manchas de Fra Angelico".
Em ambos os estudos, o autor francês ancora-se no pensamento de Benjamin para quem as imagens não são nem puros fetiches atemporais ligados à estética clássica, nem simples crônicas figurativas herdadas de uma história positivista das artes.
Livro
Quando as imagens tomam posição - o olho da História, I
Georges Didi-Huberman
Editora UFMG
2017, 278 páginas
R$ 60
Livro
Diante do Tempo - história da arte e anacronismo das imagens
Georges Didi-Huberman
Ediotora UFG
2015, 328 páginas
R$ 65

Diário do Nordeste

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