Em novo livro, o historiador Luiz Antonio Simas revela um Rio de Janeiro para além dos holofotes

por Roberta Souza - Repórter
Se uma expressão puder resumir o novo livro do historiador, professor e escritor Luiz Antonio Simas, lançado na última edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no fim de julho, apostaria em "chuchu beleza". Antiga assim porque, afinal, essa linguagem ele domina bem.
Carioca, filho e neto de nordestinos, o escritor traz em "Coisas Nossas" uma série de crônicas - mais de 60 - que refletem seu olhar apaixonado pela terra em que nasceu. E são com generosas doses de comicidade e saudosismo que ele apresenta um Rio de Janeiro para além dos holofotes de Réveillon, Carnaval e Olimpíadas que cercam a Cidade Maravilhosa.
Não se engane. Simas não poderia falar de Rio em 140 páginas sem citar samba e futebol, até porque sua vida acontece muito em torno disso. Na verdade, está tudo ali, do clichê ao inusitado, mas com um "borogodó" a mais, facilmente identificado pelos causos que resolve contar e pelas palavras devidamente escolhidas para isso.
"Todas elas, de certa forma, falam a partir da fronteira entre a crônica e a História sobre a vida que acontece nas ruas, entre festas, folguedos, brincadeiras, celebrações e miudezas. Muitas coisas foram inventadas, sobretudo aquelas que, convictamente, tenho certeza que ocorreram", escreve o autor na apresentação do livro.
A seleção de crônicas traz desde textos inéditos até alguns publicados em sites e redes sociais do historiador. Mas, em maioria, o livro traz aquelas que circularam por dois anos na coluna semanal de Simas, no jornal carioca O Dia.
Desde lá, o Rio desenhado em Carnaval, botequim, festas, histórias de antigamente, velhas gírias, lojas do subúrbio, personagens e brincadeiras já era destaque em suas escolhas.
"Os textos formam uma espécie de roteiro sentimental de uma cidade que talvez nunca tenha existido, mas que certamente vive em mim", acredita o autor. E de fato, é difícil saber quando estamos diante de um texto ficcional ou real. Simas costura tudo com maestria, e faz querer acreditar que é tudo verdade, quando nem mesmo ele pode afirmar isso.
Destaques
Fiel ao que propõe o gênero crônica, Simas registra fatos cotidianos com uma linguagem simples, espontânea, além de parágrafos curtos e narrativas que pouquíssimas vezes ultrapassam duas páginas. A leitura é leve e divertida, sobretudo pela veia humorística do escritor.
O texto parece mesmo uma conversa de botequim, que aproxima qualquer leitor de um Rio não tão distante.
Entre os textos, é possível se deparar com histórias que Simas relembra da infância, como a atração pela Conga, a mulher-gorila, comum nos parques do subúrbio da década de 80; ou ainda as balas Soft, que assombravam crianças e pais com a possibilidade delas matarem caso fossem engolidas inteiras. Há também lembranças de brincadeiras de rua, com destaque para pipa e pião, por exemplo, em conflito com os prazeres tecnológicos da nova geração.
Sim, o escritor soa bem saudosista. Mas não é dessas saudades de quem queria ter vivido mais. Parece mais de quem bem viveu e gostaria que outros tivessem a mesma oportunidade. Afinal, jogo no maracanã e desfile de escola de samba já não são os mesmos de 40 anos atrás, tampouco os esquemas de bailes, bares e fantasias.
Sobre o Carnaval, é possível dizer que a cobertura feita pelo escritor é bem completa. Ao rememorar blocos antigos e enredos subversivos, ele demonstra todo seu encanto por uma manifestação que transforma o cotidiano em festa; sendo essa, talvez, a proposição maior de seus textos.
Vivências pessoais e de pessoas com quem topou na vida dão o tom de "Coisas nossas" e fazem com que, mesmo quem não teve experiências de Rio nos anos 80, se transporte para lá e viva a beleza de uma cidade cujo imaginário nunca para de (re)inventar.

Livro

Coisas nossas
Luiz Antonio Simas
José Olympio
2017, 140 páginas
R$32,90

Diário do Nordeste

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