Iniciativa de destaque na história das políticas culturais nacionais, Projeto Pixinguinha comemora 40 anos

por Iracema Sales - Repórter
SS
Uma das ações mais longevas no campo da política cultural do País, o Projeto Pixinguinha completa hoje quatro décadas de criação. Ao longo de sua trajetória, teve como principal objetivo divulgar e preservar a música popular brasileira.
Na realidade, porém, a linguagem artística escolhida era apenas o chamariz para um alerta maior: barrar o processo de "desnacionalização" pelo qual passava a cultura brasileira, realidade que começou incomodar o então governo militar.
Em 1975, o general Ernesto Geisel (1907-1996) lançou o projeto denominado Política Nacional de Cultura (PNC), instituindo, ao mesmo tempo, a Fundação Nacional de Artes (Funarte), braço direito do Pixinguinha, responsável pela administração da empreitada - que terminou ganhando conotação de cruzada, tanto pela abrangência (ao levar shows para todas as regiões do País), quanto pelo viés ideológico.
O pesquisador em estudos brasileiros Sean Stroud, da Universidade de Londres, analisa o assunto à luz do cenário político da época, no artigo "O estado como mediador cultural: Projeto Pixinguinha", que integra o livro "Arte e Política no Brasil", organizado por André Egg, Artur Freitas e Rosane Kaminski.
Pela ótica de Stround, era como se, naquele momento, o governo tentasse fazer uma "política da boa vizinhança" às avessas - ou seja, diferentemente da proposta entre os anos 1930 e 1945, quando os EUA se aproximaram dos países da América Latina, usando a cultura como mote. Dessa vez, o governo brasileiro comandaria campanha em defesa da nacionalização da cultura, tendo a música como atração.
O estudioso em música e empresário Juarez Sampaio destaca que mesmo os governos ditatoriais realizam projetos voltados à cultura. "O governo brasileiro tinha o seu", diz, fazendo referência ao PNC, instituído por Geisel, que vinha da Petrobras, estatal patrocinadora das caravanas do "Pixinguinha, um projeto carinhoso", como era chamado. A iniciativa mostrava o braço forte do Estado tentando executar iniciativas no campo subjetivo da arte.
Estratégia
Para Sampaio, no aspecto cultural, o governo militar parece ter demonstrado mais atenção, afirmando desconhecer outra ação de resgate musical realizada no Brasil. "Hoje, o Estado não atua mais na cultura e nem discute seus valores. A política de difusão cultural é tímida. O governo justifica a falta de recursos argumentando que cultura é despesa quando, na realidade, é investimento, correndo o risco de se tornar uma nação sem identidade ", afirma o empresário, completando que não é papel de secretaria da cultura divulgar carreira de ninguém.
No entanto, critica o planejamento centralizador por parte do governo militar, situação que não pode ser repetida. "É muito perigoso", ressalta. Sampaio frisa que o Pixinguinha nasceu em uma das fases mais duras do regime (1964-1985), nos anos 1970.
Quanto à invasão da música norte-americana, representada pelas gravadoras multinacionais que comandavam a festa no País, o governo percebeu que não conseguiria furar o bloqueio das rádios - que ganhavam para tocar, praticando o famoso jabá. Logo, o jeito era criar um projeto capaz de preservar e difundir a música brasileira.
Além disso, a ideia também era patrocinar a descoberta de novos talentos - a maior parte dos artistas convidados para compor as caravanas estavam começando suas carreiras. Sampaio cita o caso do instrumentista Egberto Gismonti.
No atual contexto, é impossível viabilizar talentos, tampouco desenvolver política de resgate e preservação, pondera ele. "Hoje, o artista quer ser famoso e o público tem um gosto pouco exigente".
Fortaleza
Na época da primeira fase do projeto, Sampaio morava no Interior. "As vezes, a gente saía de Sobral e ia direto para o Theatro José de Alencar para ver o show. Noutras vezes, era às cegas. Não sabíamos quem iria cantar ou tocar, mas tínhamos certeza que valeria a pena", recorda-se, destacando o alcance nacional do projeto, responsável pelo surgimento de muitos artistas, que começaram suas carreiras rodando pelo Pixinguinha. O grupo 14 Bis foi um exemplo.
A lista é extensa, incluindo, entre as novas vozes, nomes como Zizi Possi, Marina Lima, Luiz Melodia, Zé Ramalho, Arrigo Barnabé e Itamar Assunção. Na opinião de Sampaio, que garante não ser saudosista, o Pixinguinha foi um modelo bem-sucedido de uma boa ideia, numa época em que o Ceará não dispunha de infraestrutura para receber artistas.
"Lembro que o material para o show do 14 Bis veio numa carreta que trazia os amplificadores e caixas de som porque não tinha como alugar ou emprestar aqui".

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