"O Silêncio Possível" é um dos quatro títulos do catálogo inicial da editora Radiadora Cultural, recém-lançada no mercado local

por Felipe Gurgel - Repórter
O escritor Alan Mendonça, que junto ao colega Leo Mackllene l lançam o selo Radiadora Cultural: "temos que criar maneiras da comunicação ser mais potente e gerar uma estrutura profissional para os autores", pontua (Foto: Matheus Machado/divulgação)
Na última edição da Bienal Internacional do Livro do Ceará, a editora Radiadora Cultural foi lançada no mercado literário cearense, à luz das publicações de quatro autores cearenses. Dércio Braúna (com "Como cavalos fatigados abrindo um mar", um livro de poemas), Evaristo Filho ("Luz", poemas), Leo Mackellene ("Como gota de óleo na superfície d'água", romance) e Alan Mendonça ("O Silêncio possível", poemas) estão no catálogo inicial.
Metade do grupo, Alan e Mackellene, passou por São Paulo no último dia 27 de julho, lançando seus novos títulos. À frente da iniciativa de criar a editora, o escritor Alan Mendonça pontua a instigação para lançar a Radiadora. "Foi pela inquietação de ir atrás das possibilidades, dos caminhos para conseguir se comunicar. A principal coisa do artista é o desejo de comunicação. E você tenta pela criação, mas temos que criar maneiras dessa comunicação ser mais potente e gerar uma estrutura profissional para os autores", observa.
A princípio, a Radiadora fez um recorte com autores cearenses que trazem referências interioranas. Dércio é de Limoeiro do Norte; Alan, de Russas; Evaristo, de Capistrano; e Leo Mackellene é fortalezense, porém radicado em Sobral (CE).
"É uma literatura para além da capital, para o 'Ceará grande'. Há a percepção de uma literatura bem feita nos interiores", pontua Alan Mendonça. Ele faz a ressalva de que a produção literária de Fortaleza costuma ter maior visibilidade.
Outro foco da Radiadora é a concepção estética de cada publicação. Alan comenta que os livros precisam "ser bonitos", em termos de capa, edição. Para viabilizar os títulos financeiramente, a editora não banca tudo 100%, e conta com a parceria dos autores. "Todos os acordos são de parceria, sem aquela ideia de ficar em casa esperando boas novas. É uma ideia até de cooperativa", esclarece o editor.
Publicação
O editor lança seu quarto livro de poemas, "O Silêncio Possível". A compilação traz uma produção de diversos tempos e, segundo Alan, selecionada a partir de "diferentes gavetas". "Geralmente escrevo e vou pondo em gavetas. Daí quando os livros surgem, faço uma procura nessas gavetas, dentro das temáticas que eu penso", situa o autor.
"O Silêncio Possível" se volta à memória, destaca ele. "São poemas que têm um cunho de memória real, e inventada. E essa imagem do 'silêncio'. Do silêncio como uma metáfora para a própria poesia, para o estado de poesia", reflete Alan.
Indagado sobre o que entrelaça "O Silêncio Possível" e suas produções poéticas de antes, o autor coloca que os livros são diferentes e esse traço "comum" seria, para ele, difícil de definir. "Lógico que, alguém lendo, pode perceber que aquilo é meu. Mas o conjunto de poemas, enquanto blocos, é diferente. Não saberia dizer que elementos unem. Pulo essa (pergunta) (risos)", diz.
Poesia
Aos 40 anos de idade, Alan Mendonça também segue trajetória como compositor e dramaturgo. Seja na música, na literatura, ou em outra linguagem artística, ele observa que a poesia é o cerne de quaisquer das produções artísticas.
"Eu trabalho a palavra. Em que roupa essa palavra vem vestida seria a diferença. Mas minha intenção, primeira, é a poética. Se está no teatro, na canção, e com os detalhes que essas linguagens pedem. Mas toda pedra inicial é a poesia. Minha parada é a caneta", reflete o realizador.
Digital
Ainda sobre as "roupas" que vestem a poesia, Alan Mendonça observa que o livro, em seu formato tradicional impresso, não perdeu tanto espaço, com a cultura digital, em relação à música armazenada através de suportes físicos.
"A questão do virtual interferiu menos na literatura. Acho que, até certo ponto, foi algo a favor do livro. Acho que até impulsionou a geração do impresso", diz Alan. Ele reconhece que os preços dos livros ainda são muito altos, mas não "demoniza" a existência do livro impresso no mercado. O escritor coloca que os meios digitais pontuam outras possibilidades de difusão da literatura e amenizam a falta de acesso gerada pelo alto custo das impressões.
"Mesmo que a pessoa não consiga ter o livro, mas a literatura segue bem mais popular (com o advento dos meios digitais) em relação a quando só existia o livro concreto e as discussões em salas fechadas. Acho que as duas possibilidades estão em harmonia", avalia.
Embora endosse os meios digitais para a literatura, Alan Mendonça admite que o interesse por e-books (e outras formas de ler através de uma tela) se resume ao seu olhar enquanto produtor. Como leitor, ele continua fiel ao livro impresso.
"Eu gosto do cheiro do livro, de pegar nas páginas, dessa relação amorosa. E acho que, com o virtual, se perde imensamente algo dessa relação tátil, que gera outros sabores para além da leitura em si", descreve.
O escritor observa que a quantidade de informações difundidas pelos suportes digitais, em si, não lhe seduz. "Quanto mais informação (se absorve), menos informação fica", enfatiza.

Livro

O Silêncio Possível
Alan Mendonça
Radiadora
2017, 104 páginas
R$25

Diário do Nordeste

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