Obra de Leonilson está exposta em Mostra de SP

por Silas Martí* - Folhapress
Image-0-Artigo-2282084-1
Obra sem título, de 1992, de Leonilson, que foi exposta no Espaço Cultural Unifor. A peça pode ser vista na mostra coletiva "do silêncio: vers Leonilson", com curadoria de Ricardo Resende, em São Paulo ( Foto: Fabiane de Paula )
Uma vontade minimalista atravessa a obra de Leonilson. Suas pinturas da década de 1980, quando despontou no cenário artístico, foram se tornando cada vez menores e menos coloridas até chegar a seus desenhos delicadíssimos, elaborados com poucos traços e emoldurados por imensos espaços em branco.
Seus bordados, que chegaram a ter várias camadas e uma série de objetos costurados no tecido, seguiram a mesma linha da depuração, coincidindo com a descoberta da doença que tirou sua vida.
Numa mostra organizada por Ricardo Resende ("do silêncio: vers Leonilson"), agora na galeria Marilia Razuk (SP, até 23 de setembro), um desses trabalhos - só um véu esticado sobre um chassi de madeira com duas letras negras bordadas num canto - está em diálogo com obras de outros artistas que investigam a solidão e o silêncio.
Proximidades
Nem todas as conversas ali, no entanto, têm a mesma intensidade. Os belíssimos quadros de seda desfiada de Marina Weffort, de fato, lembram a mudez radical das obras em que Leonilson tentou expurgar todo vestígio de cor, arquitetando um espaço estéril, mas a semelhança parece restrita à superfície da forma.
As cartografias etéreas de Hilal Sami Hilal, traçadas sobre papel de algodão oxidado, sugerindo rotas entre planetas distantes e plantas arquitetônicas enferrujadas, talvez estejam mesmo mais próximas em conceito dos espaços errantes, fluidos que o artista âncora da mostra construiu em suas telas de escala elástica, onde homens são do tamanho de entroncamentos de rios. Uma paisagem urbana de Maria Leontina, que reduz as cidades a densas formas geométricas, lembra também a relação de Leonilson com as metrópoles que amava, de São Paulo a Los Angeles.
É com o se o casario chapado da modernista servisse de rota de fuga ou território de seus desencontros amorosos - a cidade ali vista como selva estoica, dura e indiferente.
Silêncios
Os silêncios também surgem ritmados, em sintonia com a sensação de impotência que atormentou Leonilson ao longo da vida, nas obras de papel recortado da colombiana Johanna Calle.
Suas composições poderiam ser textos ou partituras, mas, no lugar de notas e letras há buracos na folha de papel, ausências que se querem cheias de significado, como frases soltas ditas em nome de amores impossíveis.
*Jornalista e crítico de arte

Diário do Nordeste

Comentários

Mais Visitadas

O saber na periferia do conhecimento

Mistério da Santíssima Trindade

Garimpeiro do conhecimento

Cannes: Filmes de qualidade, mas sem ousadia