Conheça o cearensês e saiba como surgiram vocábulos muito usados pelos cearenses

A língua falada e escrita é herança. No Brasil, portugueses, indígenas, africanos e uma série de nacionalidades construíram durante séculos o que conhecemos hoje. No entanto, há de se reconhecer que mesmo no português há diversas variações da língua. Seja no Sul do País, no Nordeste ou no Norte. Cada região possui sua cultura e modo de falar.
No Ceará, não é diferente. Mais conhecida como cearensês, a língua aqui é característica própria de seu povo. Mas de onde surgiu essa peculiaridade dos cearenses? Quais são as influências e os significados das palavras?
Foi neste desafio, de conhecer e reconhecer os vocábulos do cearensês, que o Diário Plus mergulha no jeito cearense de falar e traz algumas explicações a seguir.

Surgimento do cearensês

Segundo o professor Doutor de Latim e Filologia Romântica da Universidade Federal do Ceará (UFC), Josenir Alcântara de Oliveira, antes de abordar alguns vocábulos do cearensês, é necessário que se faça uma breve introdução no campo lexical.
Professor Josenir Alcântara explica que a origem das palavras do cearensês está relacionada ao nativo, europeu e outras culturas FOTO: FABIANE DE PAULA
O humor e o deboche estão inseridos nas palavras usadas cotidianamente pelos cearenses e são características marcante da língua falada
"Os vocábulos que temos no cearensês têm três origens. A origem nativa, das línguas indígenas, representada pelo tupi, que nós chamamos em filologia de substrato linguístico, que é a língua do nativo. O segundo elemento do vocabulário do cearense são as palavras portuguesas, de origem latina, que vieram com os portugueses. Em filologia nós chamamos essas palavras de superestrato, que é a língua do colonizador, do conquistador".
O professor ainda acrescenta que uma terceira origem advém de palavras de outras culturas, que não a nativa e nem do colonizador. "São palavras do espanhol, do francês e do inglês".
Outro aspecto citado por Josenir é o humor do cearense. "Não é que o cearense seja o único povo que tenha essa característica, mas é que graças à mídia e aos nossos talentosos humoristas que ganhamos essa visibilidade. Há, então, uma tendência de se evidenciar essa marca na cultura cearense".
Quer dizer tacho, tem origem africana . "Em várias culturas no tocante à procriação a mulher era vista como receptáculo, um vaso de esperma, daí a conotação".

Desconstruindo explicações

Não é raro tomar conhecimento de várias histórias acerca do surgimento de vocábulos do cearensês. Um dos exemplos mais famosos é a palavra baitola.
Baitola no cearensês significa homossexual. Apesar do significado, os cearenses também podem empregar o vocábulo para tirar brincadeira com os amigos homens, sem dar o sentido real à palavra. Veja o exemplo:
— Vamos para o jogo hoje? 
— Não, tenho outro compromisso! 
— Vamos, baitola, deixa de frescura! 
— Vou não baitola!

Algumas histórias tentam explicar o surgimento da palavra baitola. Porém, nem tudo que é falado condiz à realidade. Na internet, por exemplo, é possível encontrar uma explicação que diz que o vocábulo surgiu da língua inglesa quando engenheiros da Inglaterra construíam a ferrovia no Ceará. Nesse contexto, um dos trabalhadores ingleses não conhecia a pronúncia de bitola e falava baitola. Os trabalhadores cearenses, conhecidos por seu humor, começaram a chamar os engenheiros ingleses de baitolas.
TÔ FICANDO ABIROBADO
ABIROBADO
ABIROBADO
ABIROBADO
A palavra baitola muito provavelmente não é originária do vocábulo bitola, e sim do tupi baito
Segundo o professor Josenir, essa explicação é pouco provável para o surgimento da palavra baitola, apesar de ser a mais difundida pela cultura popular. "Nem sempre é fácil a gente estabelecer a raiz de uma palavra, mas é necessário que a gente pondere. É muito divulgado que havia muitos engenheiros ingleses construindo a rede ferroviária. Os cearenses trabalham sob o sol, com fome. Já os ingleses ficavam debaixo do guarda-sol. Um dos engenheiros, diz a lenda, foi pedir para que eles botassem a bitola. Então, em dúvida sobre a pronúncia, ficou baitola. Mas não é a única interpretação", afirma.
A interpretação que o pesquisador considera mais plausível está no livro "Casa-Grande e Senzala", de Gilberto Freyre. "Nesta obra tem a palavra baito, que significa oca. Durante a segregação nas tribos, o menino aprendia a tratar a mulher como resto. As afinidades que se exaltavam eram as fraternas de homem para homem, as de afeto viril, que resultava em ambiente propício para a homossexualidade. Baitola era o garoto que ia para o baito, mas aqui culturalmente não era perversão, era um traço cultural", explica.
Neste baito, afirma Josenir, havia ainda o baitinga, outra palavra muito utilizada por cearenses. "Esse inga é apenas para dizer que é pertencente ao baito", acrescenta.
Outra expressão muito conhecida entre os cearenses é espilicute, que significa uma menina tagarela e metida. As explicações para a origem desse vocábulo também remetem aos ingleses, que, para dizer que as moças eram bonitas, diziam a frase: "she is pretty cute".
"Eu sou muito zeloso. Não gosto de me pronunciar sobre aquilo que eu ainda não pesquisei. No caso de espilicute, eu vou suspender o juízo. Acho intuitivamente pouco provável essa explicação porque é uma expressão muito longa para um nativo ouvir e deduzir o significado. A rigor, não é que ela seja sapeca e sabida, mas é que ela é bonita e simpática. Então eu prefiro me acautelar no momento", pondera.

As palavras do dia a dia

No seu uso cotidiano as palavras do cearensês ganham entonações, significados e formas. Não raro há vocábulos que, dependendo do contexto em que são utilizados, podem ou não transmitir aquilo que se deseja. A seguir algumas palavras, que na explicação do professor Josenir, são bastante usadas no dia a dia do cearense e que passam muitas vezes o humor característico do povo.
ABIROBADO OU ABILOBADO: De acordo com o professor da UFC, você encontra esta palavra também em outros estados do Nordeste. "O vocábulo vem de abilolado, de bila, o que é uma analogia da bila com a cabeça humana. Chamar alguém de abirobado, então, significa dizer que a pessoa não tem cabeça, não tem juízo".
ARIADO: Outra palavra muito comum no cearensês. "Ariado vem de ar, do mesmo jeito que alguém fica a flutuar no ar sem um rumo certo. É isso que o cearense quer dizer: eu me perdi, não sei para onde ir. Tem um toque marcante do humor cearense".
ARRIBA: "Veja que o elemento comum é riba, que vem do latim ripa. Riba ou ribeirinho vem de margem do rio. Quando você diz riba, quer dizer em cima, em cima do ponto alto do rio, de uma margem alta. Arriba é para, em direção, em direção à parte alta". Ainda de acordo com o professor, há uma influência do espanhol.
ENTONCE: Significa então e vem da mesma palavra do espanhol.
APERREAR: Encher o saco. "Vem de perro, cachorro em espanhol. Neste caso é um exemplo de adstrato porque o espanhol não esteve no Brasil, nem como superestrato e muito menos como nativo. É como se tivesse um cachorro querendo morder o seu calcanhar, é um momento de aflição", explica o pesquisador.
DIABÉISSO: Que diabos é isso? Segundo o professor, essa palavra é meramente mutilação fonética.
CUNHÃ: Significa mulher em tupi. "Hoje o que é que muitas vezes nós entendemos por cunhã? É a mulher vulgar, às vezes até prostituta. Claro que há contextos que você pode construir, como duas amigas se chamando de cunhã, mas isso é um contexto". O pesquisador explica que o significado pejorativo da palavra veio dos portugueses que menosprezavam a cultura indígena.
MIRIM: Quer dizer menino em tupi, crianças pequenas. "Não há nada de pejorativo, mas hoje quem é mirim para nós? Você chama uma criança da classe média de mirim? Não. Mirim é somente as crianças que vivem abandonadas, na delinquência, entregues ao mundo violento. Nós fizemos uma distorção".
MARMOTA: Vem do francês marmot, que é um roedor e vem do latim murmur, ranger dos dentes do roedor. Significa algo estranho.
FECHECLER: Zíper, vem do francês fecho eclér. "Então fecho de fechar e ecler de relâmpago. É o movimento que fecha rapidamente. O zíper vem do inglês e tem mais sentido onomatopáico, exatamente pelo som que faz", explica o professor Josenir.

Diário do Nordeste

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