Mulheres contam das vidas que se refazem após o câncer de mama

Dona Vaniberta. “Só olho a vida ali ó, bem acolá”. Parece até que Vaniberta Nogueira, com seus 70 anos recém-completos, nasceu com uma receita muito particular de como enxergar o amanhã. Para ela, planejar o futuro e estar sempre em atividade são caminhos para encontrar leveza e enfrentar percalços. A finitude é sabida. Todavia, esse não é o cerne da questão. Ela quer é viver. Com o diagnóstico de câncer de mama, há 22 anos, “todo mundo chorou e eu nunca derramei uma lágrima”. A certeza de que as coisas iam dar certo era tão grande, que nem se preocupava. Além de fazer o tratamento rigorosamente, ela lembra que o cuidado do marido e dos quatro filhos e a fé em Nossa Senhora foram importantes para a recuperação. “Não quis colocar prótese. Meu marido disse: ‘se você vai botar por mim, não tem importância’. Eu não fiquei traumatizada de jeito nenhum”, recorda. “Não vivo de passado. Vivo hoje, amanhã, depois”, argumenta. E foi sem olhar para trás, que ela enfrentou um novo diagnóstico de câncer de mama. “De novo, não reclamei nenhuma lágrima”, garante, como quem não permite amarguras na vida.
Sâmia. “O susto do mundo todo. A felicidade do mundo todo. E o medo do mundo todo”. Sâmia Clementino, 34, descreve assim como recebeu a notícia de um presente tão inesperado e que parecia impossível. Em meio ao tratamento de um câncer de mama — que poderia deixá-la infértil —, durante exame de rotina, soube que estava grávida. “A bebê que eu ia tentar no próximo ano, o sonho que eu tinha, se antecipou”, vibra a estudante. Para ela, além de anseio particular, Hadassa é “uma vitória da família”. O sonho que já aparece com nitidez na barriga de 36 semanas é, agora, alvo de todos os cuidados. A descoberta do câncer ocorreu “meio que por providência divina”, ao esbarrar a mão no seio. “Desmoronou todo mundo aqui. Se abalaram muito mais do que eu. Mas me colocaram nos braços”, descreve, apontando um lado bom na doença. “Quando você se vê em uma situação dessas, você passa a ver a vida com outros olhos, valoriza tudo que tá a sua volta e que, muitas vezes na vida corrida, a gente não dá valor, como a família”. A criança inspira na mãe o desejo de “viver plenamente cada dia com tudo o que Deus tem dado”. “É outra vida, outra história. Como voltar a viver”.
Fabíola. Amar pode ser presença, palavra e até remédio. Para Fabíola Sousa, 38, o amor a ajudou na recuperação de um câncer de mama, diagnosticado há 10 anos. “Eu amo viver”! Para a educadora social, a doença não deve ser esquecida. “Não é só ficar boa e esquecer que tive câncer. É fazer minha parte, dar apoio e fortalecer. Às vezes, a pessoa tá precisando disso, de uma palavra”, diz. Mais sensível, madura e uma pessoa melhor, se autoavalia, após ter sido acometida pelo câncer antes da idade de risco e sem precedentes na família. “Hoje não me calo. Se vejo alguém com exame, já pergunto e falo logo: eu fiz, deu certo, tá com dez anos. Vai dar tudo certo, faça o tratamento, não desista”, descreve, sobre a forma que encontrou de retribuir a nova oportunidade de viver. E a família foi fortaleza necessária e fonte de carinho que o tratamento demandava. O aprendizado ainda não acabou, é progressivo. “É bom ver a vida de outra maneira, mais calma. Não é fácil, principalmente no começo, mas depois de dez anos eu me transformei em uma pessoa bem melhor”.
Dona Vênia. Diante do diagnóstico de câncer de mama, dona Vênia, 67, revelou força. “A dificuldade é você quem faz, o segredo tá na cabeça”, resume a dona de casa que, há 18 anos, venceu o câncer. A travessia delicada entre o diagnóstico e a cura foi acompanhada de silêncio, dificuldades e medo, que não eram pronunciados pela família. “Eles cuidavam muito de mim, com remédio, médico. Mas, vixe, nem falavam. Acho que tavam morrendo de medo. Mais do que eu”, supõe. “Mas nunca passou pela minha cabeça que eu fosse morrer. A confiança é muito importante. Se você confia em Deus, você tem tudo”. A doença revelou a Dona Vênia a importância do perdão e da proximidade com Deus. “A gente se magoa com palavras. Às vezes a pessoa não tem nem a intenção de dizer aquilo, mas naquela hora sai uma palavra e lhe machuca e você passa a vida com aquilo dentro de você. E faz mal”, reflete. Cada conselho de Dona Vênia é acompanhado de sorriso e afeto. Como no café e o pão quentinho para quem a visita, nos cuidados com os filhos e netos. “Eu hoje? Maravilhosa! Cheia de problemas”, brinca. “Porque problemas não faltam. Agora o que importa é o modo como você se comporta diante do problema”, aconselha.

ANA RUTE RAMIRES
O Povo

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