Clássico de Santo Agostinho ganha nova tradução do latim

por Rodrigo Gurgel - Folhapress
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Santo Agostinho entre Cristo e a Virgem, numa pintura do século XVII, de Bartolomé Estebán Murillo: escrita do místico católico é um dos clássicos da literatura ocidental, marcada pela pluralidade interna de gêneros narrativos e poéticos
Não se espere das "Confissões de Santo Agostinho" o relato minucioso da vida desse filósofo cuja obra completa abarca dezenas de volumes, a maioria jamais traduzida no Brasil.
Os 13 livros vão muito além de um esforço de rememoração empreendido pelo homem maduro que visita, com olhar crítico, seu percurso existencial até se converter ao cristianismo.
Em nossa época, quando alguns defendem a impossibilidade do gênero autobiográfico, o depoimento agostiniano relembra, a cada página, o "pacto" ressaltado por Philippe Lejeune - evidência capaz de libertar a autobiografia e o diário da prisão pós-estruturalista, reinserindo-os no compromisso moral, sempre possível, que um autor estabelece com seus leitores: dizer a verdade sobre si mesmo.
Pluralidade de gêneros
O mergulho em que Agostinho nos leva é um continuum de gêneros: a poesia do Saltério - com seu caráter elíptico, seu paralelismo semântico e uma incrível variação de tons, em que se mesclam súplicas, lamentos, hinos plenos de lirismo - mistura-se às orações despojadas de fórmulas, ao exercício de dialogar com o passado por meio do enredo compreensível e às reflexões filosóficas e teológicas.
Essa variação de vozes magnetiza o leitor, abrindo-o, de forma crescente, à reciprocidade que, para Lejeune, a autobiografia cobra de nós.
Perigo
dDe fato, os leitores correm um perigo iluminador quando abrem as "Confissões", pois o livro nos instiga a nos reconhecermos em seu testemunho. Longe de ser, como os mais apressados podem pensar, mero conjunto de catequeses escritas por um religioso da Antiguidade, o que se apresenta é a própria vida, enovelando-se em dúvidas, anseios, constatações, idas e vindas semelhantes às de qualquer pessoa com um mínimo de autocrítica.

Se fosse possível atualizar esse périplo em busca da verdade, eu diria que Edward St. Aubyn, no primeiro volume de "Romances de Patrick Melrose", aproxima seu protagonista do comportamento agostiniano quando o faz superar a violência sexual paterna, as superficialidades da vida contemporânea, a indiferença da mãe alcoólatra, os vícios e ódios a que se entrega até reencontrar sua alma, que vê "precipitando-se e contorcendo-se como uma pipa ansiando ser solta".
Cícero
Agostinho, contudo, foi além. A aventura do bispo de Hipona segue o itinerário que Erich Auerbach salienta no ensaio "Sermo Humilis": depois de ler o "Hortensius", de Cícero, "inflamado com o anseio apaixonado pela sabedoria", Agostinho passa a estudar a Sagrada Escritura, decepcionando-se por não descobrir nela a "dignidade ciceroniana" - até perceber que, sem a agudeza das crianças, jamais penetraria o mistério.
Só então está pronto a escutar o que é repetido desde a eternidade. Agarrando-se a Deus, o náufrago do hedonismo resgata a si próprio e pode se referir à "beleza tão antiga e tão nova" que descobre em seu interior, em todas as coisas, pois não há mais limites.
Fique por dentro
Trecho do livro "Confissões", de Santo Agostinho
Mas deixa-me falar à tua misericórdia, eu, terra e cinza,27 deixa, contudo, que eu fale, porque é à tua misericórdia que falo, não a um homem que possa rir de mim. Até tu talvez rias de mim;28 porém, voltando-te para mim, terás piedade. Pois o que é que quero dizer, Senhor, senão que não sei de onde vim até aqui, para isso que chamo vida mortal, ou morte vital?29 Não sei. Aqui me acolheram as consolações de tua compaixão,30 segundo aprendi pelo meu pai e mãe carnais, do qual e na qual me formaste no tempo; de fato, eu não lembro. Receberam-me as consolações do leite humano, e não era minha mãe ou minhas amas que enchiam a si mesmas os seios, mas tu me davas através delas o alimento da infância, conforme estabeleceste, e as riquezas que colocaste até o fundo das coisas. Tu me davas também de não querer mais do que me davas, e às que me nutriam, de querer dar-me o que davas a elas. Queriam me dar, com efeito, segundo um sentimento regrado, aquilo de que abundavam graças a ti. Era bom para elas o bem que eu recebia delas, porque não vinha delas, mas através delas: de ti, por certo, Deus, vêm todos os bens, do meu Deus vem toda minha salvação. Isso, eu o percebi mais tarde, quando tu mo declaraste por aqueles dons que concedes interior e exteriormente. Por enquanto, sabia mamar e me apaziguar nos prazeres, ou chorar pelas ofensas à minha carne, nada mais. (Págs. 37-38)

Diário do Nordeste

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