Especialistas debatem questão da seca em encontro

por Iracema Sales - Repórter
A escritora Rachel de Queiroz, autora de um clássico da literatura sobre a seca: o romance "O Quinze"
No momento em que o Estado atravessa o sexto ano consecutivo de estiagem, a Universidade de Fortaleza (Unifor) promove a mesa-redonda "A escassez de água revisitada na literatura cearense", nesta sexta-feira (17), às 8 horas, no auditório da biblioteca da instituição. O evento marca o Dia da Literatura Cearense - a data de nascimento da escritora Rachel de Queiroz (1910-2003) - e mostra que o universo simbólico da arte busca referência na realidade.
A ideia é mostrar o drama da seca pela literatura de diferentes autores locais, enfatiza a professora e escritora Hermínia Lima, que apresentará o texto "Luzia-Homem: recriação de uma tragédia", no qual analisa a criação do romancista, natural de Sobral, Domingos Olímpio (1851-1906). Seu principal romance foi escrito em 1903.
A pesquisadora atenta para a singularidade da obra ao explorar os vários aspectos que envolvem a estiagem. Não se resume apenas aos efeitos naturais, lembrando que o drama remete à questão de gênero. Informa que a Biblioteca da Unifor - Acervos Especiais possui edição original de Luzia-Homem, livro que relata uma história trágica, que tem como tema o drama social da seca. Seus efeitos contribuem para que o ser humano se esfacele, destaca Hermínia Lima.
O drama traz, ainda, temas secundários, citando a agressão sexual, narrada à luz da escola naturalista: a protagonista arranca o olho do agressor para se defender da violência. São vertentes que permeiam o fenômeno, capaz de provocar desagregação social, a exemplo do êxodo, bem como feridas na alma. Na conversa, os convidados tentarão enfocar as diversas nuances da questão. "Serão falas curtas", antecipa Hermínia Lima. A professora e escritora Aíla Sampaio escolheu o livro "A fome", de Rodolfo Teófilo (1853 - 1932), seguindo a temática do evento, voltado para a "literatura da seca".
A escritora destaca a importância de criação da data, que tem o objetivo de valorizar a literatura cearense, que esteve deixada de lado nos últimos anos, critica. "Não se trata apenas de revisitar os clássicos", afirma, defendendo a valorização dos autores contemporâneos. Demonstra o desejo de tornar o evento permanente, apostando na formação de novos leitores. Os alunos da disciplina "ateliê de leitura e produção textual", do curso de jornalismo da Unifor, ministrada por Hermínia Lima e Aíla Sampaio, são convidados a participar da mesa-redonda. "É uma forma de chamar a atenção do público jovem", assevera.
Interdisciplinar
A promoção do evento é da Vice-Reitoria de Extensão e Programa de Pós-Graduação em Direito Constitucional da Universidade de Fortaleza (Unifor), ressaltando o caráter da interdisciplinaridade. Entre os convidados: a deputada Silvana Oliveira de Sousa, presidente da Comissão de Educação da Assembleia Legislativa do Ceará, o escritor e presidente da Fundação Waldemar de Alcântara, Lúcio Alcântara. Além dos professores Aíla Sampaio, Ana Carla Pinheiro, Batista de Lima, Monica Tassigny, Randal Pompeu e Tereza Porto, que analisarão o tema partindo de obras específicas.
As comemorações continuam no sábado (18), na Praça dos Leões, a partir das 9h30, com enfoque na vida e obra da autora de "Memorial de Maria Moura", uma das mais significativas autoras brasileiras. Foi a primeira mulher a integrar a Academia Brasileira de Letras (ABL), em 1977. Será uma conversa descontraída pontuada por leitura de crônicas pelos professores da Unifor Aíla Sampaio e Batista de Lima, tendo como convidados Beatriz Alcântara, Cecília Cunha, Flávio Leitão e Lourdinha Leite Barbosa.
De curiosidade científica, passando pela interpretação de castigo divino até enveredar pelo campo político- ideológico, responsável pela criação da "indústria da seca". Em rápidos traços, essas são algumas concepções acerca da seca ou estiagem, fenômeno presente na cartografia do Nordeste desde a colonização do Brasil. Depois, torna-se um dos piores flagelos de nordestinos e cearenses, servindo de inspiração para diversos autores, em especial, os que integraram a chamada Literatura de 1930.
Acervo
Rachel de Queiroz foi uma das pioneiras, surpreendendo o universo literário brasileiro, quando lançou, em 1930, o romance "O Quinze", no qual narra, em texto simples e direto, as agruras do sertanejo durante a seca de 1915. A obra, que tem o sertão cearense como cenário, no Estado que possui cerca de 90% de seu território encravado no solo rochoso do semiárido, foi publicada em 1930. Rachel de Queiroz lança um olhar sensível e perspicaz sobre o tema, sem deixar escapar a conotação política, o drama social, abrindo espaço para o romantismo.
A Unifor inaugurou, em maio deste ano, espaço que abriga grande parte do acervo bibliográfico da escritora cearense. É aberto a pesquisadores interessados em conhecer a fundo seu processo criativo. O acervo é composto por cerca de 3,1 mil títulos, dos quais 2,8 mil são livros e 300 periódicos. O material foi doado à Universidade pelo Instituto Moreira Salles (IMS), do Rio de Janeiro. O espaço encontra-se aberto ao público, no 1º piso da Biblioteca Central da Unifor.

Mais informações:
Mesa-redonda "A escassez de água revisitada na literatura cearense", nesta sexta (17), às 8h, no Auditório da Biblioteca da Unifor (Avenida Washington Soares, 1321, Edson Queiroz).
Contato: (85) 3477-3000

Diário do Nordeste

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