Praça Luiza Távora, em Fortaleza, abrigou castelo

O cuidado e a preservação que a Praça Luiza Távora, na Aldeota, recebe atualmente não estiveram presentes na década de 1970 quando o Castelo Plácido de Carvalho foi demolido, virando escombro inútil. No local, restou apenas a lembrança de que o atual espaço público já foi privado, lar de uma família, recordação que é materializada, hoje, apenas pelos seis minicastelos que estão na parte da frente da praça.
E se essas construções, hoje, parecem grandes para os padrões de arquitetura, no passado, elas representavam uma pequena parcela do grandioso complexo arquitetônico, erguido pelo empresário Plácido de Carvalho. A construção do palácio se deu na década de 1920, no momento em que Fortaleza começava a crescer para o lado leste, cujo principal acesso era a Boulevard Nogueira Acciolly, avenida que atualmente conhecemos como Santos Dumont.

História: construído para a amada italiana

Plácido de Carvalho era um rico comerciante cearense, dono de terras e casas em Fortaleza. Todos os anos ele viajava à Europa, visitando diferentes países. Maria Pierina Tacconi Rossi era italiana, de Milão, mas vivia e trabalhava num estabelecimento em Paris. Os dois se conheceram, justamente, na "cidade do amor". Apaixonado, Plácido propôs casamento a Pierina e, de acordo com o pesquisador e memorialista Nirez, a italiana avisou que só se casaria se ele construísse um castelo para ela.
O projeto do palácio, então, foi encomendado ao artista plástico e engenheiro João Sabóia Barbosa, com uma planta de um castelo que havia em Florença, na Itália. Em 1917, Pierina desembarca em Fortaleza, aos 28 anos, para viver com o marido no palácio. Os dois tiveram uma filha, Zaíra.
Plácido de Carvalho construiu o castelo para sua amada, Pierina. O casal se conheceu em Paris FOTO: ARQUIVO NIREZ
A familía se mudou do castelo em 1933, depois que Plácido ficou doente 
FOTO: ARQUIVO NIREZ
O monumento reunia características do requinte europeu, como mármores e vitrais importados, com traços das mais belas madeiras brasileiras. A torre alta era o símbolo principal, que passava ares de castelo, bem como as escadarias e mobílias luxuosas. No entorno do palácio, havia inúmeros canteiros de rosas, dálias e plantas regionais, além de duas fontes de água, que deixavam o lugar ainda mais encantador. Sem dúvidas, era o imóvel mais imponente da Avenida Santos Dumont.
A italiana Pierina mudou-se para Fortaleza em 1917 para viver no palácio com o esposo, o empresário Plácido de Carvalho FOTO: ARQUIVO NIREZ
Em 1933, Plácido de Carvalho adoece e a família decide se mudar para o Centro de Fortaleza, onde havia uma facilidade maior de acesso à atendimento médico. Eles ficaram vivendo no Hotel Excelsior, também um imóvel do comerciante. Um ano depois, no entanto, Plácido de Carvalho morre aos 60 anos de idade.
Cinco anos depois, em 1938, Pierina decide construir seis castelinhos próximos ao castelo principal e contrata o técnico em edificação Emilio Hinko, de origem húngara, para realizar os projetos. O Sr. Hinko acabou se tornando o segundo esposo de Pierina. Um dos castelinhos, inclusive, foi lar do casal, já que eles preferiram ocupar o imóvel menor a voltar para a edificação central. Os demais palacetes foram alugados ou cedidos para parentes próximos viverem.
Com o falecimento de Pierina em 1957, aos 68 anos, a filha Zaíra tornou-se proprietária de todo o complexo, mas nunca voltou a viver no palácio maior. A herdeira decidiu, então, vender o castelo para o grupo Romcy, que desejava construir um supermercado no local. Na época, o palácio, que era cinza com tons marrons, começou a se deteriorar e o grupo comercial cercou a edificação com tatames até a década de 1970, quando foi demolido, apesar das críticas negativas da população e da imprensa do período.

Ecletismo na expansão fortalezense
A construção do Castelo Plácido de Carvalho ou Palácio de Dona Pierina, como também ficou conhecido, se deu no momento de expansão da cidade de Fortaleza no fim do século XIX e início do século XX, como explica a professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará (UFC), Margarida Andrade.
"A expansão da cidade de Fortaleza a partir da década de 1920 é marcada pelo surgimento de vários bairros. A zona leste, com acesso pelo Boulevard Nogueira Accioly (atual Santos Dumont), surge como uma área de ocupação residencial bastante rarefeita. Os imóveis conviviam junto a vários sítios, como por exemplo, o de Adolfo Quixadá, limitado pela Rua Idelfonso Albano até a Rua Carlos Vasconcelos e da Avenida Santos Dumont até a atual Deputado Moreira da Rocha", contextualiza.
A também professora de Arquitetura e Urbanismo da UFC, Solange Fran, complementa a conjuntura do período, afirmando que o surgimento de edificações com características de outros locais na década de 1920 não foi uma peculiaridade apenas de Fortaleza.
"O Palácio Plácido de Carvalho foi tipo uma cópia. Era uma atitude conhecida da época copiar edifícios de outro lugar, com outras linguagens" (SOLANGE FRAN, PROFESSORA DE ARQUITETURA E URBANISMO DA UFC).
"O momento do crescimento da cidade para o lado leste mostra uma época de expansão da Capital e isso é um sinal dessa ocupação. O Palácio Plácido de Carvalho foi tipo uma cópia. Era uma atitude conhecida da época copiar edifícios de outro lugar, com outras linguagens. Isso aconteceu muito aqui no Brasil e ficou conhecido como ecletismo arquitetônico. Foi um certo momento da história da arquitetura, de copiar modelos antigos, e que invadiu vários países da Europa e da América também. Não pode ser considerado uma especificidade de Fortaleza, porque várias cidades brasileiras têm edifícios e até ruas inteiras modificadas segundo essa onda", explica Solange.
O Pálicio Plácido Carvalho deu lugar a Ceart

Do privado para o público

O objetivo de fazer um supermercado na área nunca foi alcançado. Isso porque o grupo Romcy tinha uma dívida com o Governo do Estado e, para quitar o montante, transferiu a posse do complexo, mesmo com o castelo principal demolido, para o poder público estadual. Foi nessa época que a primeira-dama, Luiza Távora, mandou construir uma edificação para abrigar os artesãos em plena produção.
Castelinhos foram reformados para sediar órgãos do Governo, mas ainda apresentam algumas características originais FOTO: SAULO ROBERTO
O engenheiro Pedro Natale Rossi foi contratado para projetar a primeira central de artesanato do local. Depois, descobriu-se, coincidentemente, que Natale era sobrinho de D. Pierina. O projeto desenvolvido por ele fazia demasiado uso do tronco da carnaúba em uma estrutura bem ousada.
Com o passar do tempo, o desgaste natural e a falta de segurança exigiram uma nova reformulação. As arquitetas Nélia Romero e Melania Cartaxo desenvolveram a estrutura que existe atualmente e que foi inaugurada no Governo Tasso Jereissati, em março de 1992. O local passou a ser chamado oficialmente de Central de Artesanato do Ceará (Ceart).
Antes, o local tinha o Castelo Plácido de Carvalho no centro do complexo. Atualmente, há o Centro de Artesanato do Ceará (Ceart) no meio da Praca Luíza Távora FOTO: ARQUIVO NIREZ E REINALDO JORGE
Funcionam, atualmente, nos seis castelinhos, órgãos de apoio ao artesanato cearense e o gabinete da primeira-dama, Onélia Santana. Para sediar unidades do Governo do Estado, os castelinhos passaram por algumas modificações. Tão logo se olha para as edificações, percebe-se que grades foram colocadas em portas e janelas. Internamente, as estruturas não lembram castelos, mas locais comuns de trabalho, com características de escritório. As portas são novas, em alguns casos de vidro transparente. Paredes de gesso foram levantadas para dividir cômodos e elevadores de acessibilidades foram instalados nos edifícios. A originalidade dos castelinhos fica por conta de algumas portas e janelas, com vitrais verdes e róseo, que levam para o exterior da praça.

"Era um lugar lindo, mesmo estando muito desgastado. A escadaria era linda demais, tinha uma parte reta e dava uma volta, fazendo uma curva para o primeiro piso. Havia muitos cômodos e uma varanda bem grande, além de uma torre" (RAIMUNDA DE CARVALHO, RELEMBRANDO VISITA AO CASTELO NA DÉCADA DE 1960 FOTO: ARQUIVO PESSOAL)

Memória de adolescência

O castelo já estava desocupado, quando a jovem amazonense Raimunda Márcia, na época com 13 anos, entrou no local para conhecer, acompanhada por uma turma de amigos. "Era um lugar lindo, mesmo estando muito desgastado. A escadaria era linda demais, tinha uma parte reta e dava uma volta, fazendo uma curva para o primeiro piso. Havia muitos cômodos e uma varanda bem grande, além de uma torre", afirma Raimunda, hoje cabeleireira de um salão próximo à Praça Luiza Távora.
A cabeleireira critica a falta de conservação nos prédios históricos brasileiros FOTO: ALINE CONDE
Vivendo no Ceará desde 1963, Raimunda lembra que as telhas do local já estavam quebradas e que as portas dos cômodos estavam lacradas, com madeiras atravessadas. "Era para ninguém entrar mesmo, porque, na época, o castelo estava abandonado e havia um homem que cuidava do local. Quando eu e meus amigos subimos para tirar fotos, veio o vigia e colocou a gente para correr na hora que íamos para a torre", lembra a cabeleireira, rindo da situação.
Raimunda define como "muito triste" a demolição do palácio e critica a falta de manutenção e conservação das grandes obras brasileiras. "Eu viajei há pouco tempo para a Europa, para a Itália, precisamente, e tenho uma visão tão linda daquele lugar, porque tudo que é antigo eles conservam de todas as maneiras. E aqui os caras destruíram um castelo daquele, que era a coisa mais linda", lamenta.

Diário do Nordeste

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