1968, um ano de revoluções e esperança no mundo

O ano de 1968 foi trágico para os militantes contra a segregação racial nos Estados Unidos.
Boulevard Saint-Germain, em Paris, após protestos de 7 de maio de 1968.
Boulevard Saint-Germain, em Paris, após protestos de 7 de maio de 1968. (AFP)

Em 1968 os Estados Unidos somaram fracassos no Vietnã, a juventude se fez ouvir nas ruas de Berlim, Paris e México e a Tchecoslováquia desafiou Moscou. Foi um ano de revoltas e esperanças que mais uma vez terminou em desilusão.
Vietnã: EUA devem negociar
Desde 1961, e especialmente em 1964, os Estados Unidos mobilizaram um grande número de forças para ajudar o regime no poder no Vietnã do Sul, cenário da guerrilha Vietcong, apoiada pelo Vietnã do Norte, comunista.
No final de janeiro, coincidindo com o Ano Novo lunar, Vietcong e Vietnã do Norte atacaram centenas de localidades do Sul, entre elas Hue e Saigon.
Essa ofensiva demonstrou a força dos guerrilheiros diante dos colossais meios de guerra dos Estados Unidos, o que reduziu a credibilidade do governo do presidente Lyndon Johnson.
No final de março, Johnson anunciou uma cessação parcial dos bombardeios americanos contra o Norte. Em maio, tiveram início negociações em Paris.
Foi o início do longo processo que culminou em 1976 com a reunificação do Vietnã sob um governo comunista.
A rebelião dos jovens
Em meados da década de 1960, os campus universitários dos Estados Unidos e da Europa foram o catalisador das denúncias contra a guerra no Vietnã sob o slogan "US Go Home!".
Em 1968, o movimento ampliou-se a um desafio global para a sociedade. Às críticas ao capitalismo (muitas vezes acompanhadas de um fascínio pela China comunista) somaram-se novas reivindicações: liberdade sexual, feminismo e ecologia.
Na Alemanha, uma tentativa de assassinato em 11 de abril contra o líder estudantil Rudi Dutschke, ferido por uma bala, provocou uma revolta em Berlim que se espalhou para dezenas de cidades alemãs.
Na França, a Universidade de Nanterre, perto de Paris, era o centro da agitação. Foi fechada em abril, mas na noite de 10 de maio, os tumultos se transformaram em insurreição na capital. Dois dias depois, os trabalhadores se juntaram à revolta e uma greve geral paralisou o país por várias semanas.
O general De Gaulle, presidente da República, dissolveu a Assembleia Nacional em 30 de maio. Os seus partidários realizaram uma manifestação em massa no mesmo dia e ganharam as eleições legislativas em junho.
O movimento se espalhou, chegando à Itália, Turquia e Japão e vários países latino-americanos.
No México, as forças de segurança mataram inúmeros estudantes em 2 de outubro (33 de acordo com dados oficiais e entre 200 e 300 de acordo com testemunhas estrangeiras). Foi pouco antes da abertura dos Jogos Olímpicos, em que dois atletas negros americanos subiram ao pódio com um punho levantado em protesto contra o racismo nos Estados Unidos.
Direitos cívicos e assassinatos
O ano de 1968 foi trágico para os militantes contra a segregação racial nos Estados Unidos. O pastor negro Martin Luther King, vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 1964, foi assassinado em 4 de abril por um segregacionista branco em Memphis, no Tennessee.
Os tumultos chegaram a grandes cidades como Washington. Pouco tempo depois, o presidente Johnson assinou uma das últimas leis sobre os direitos civis reivindicada por Luther King, a da segregação no acesso à habitação.
Outro assassinato sacudiu os Estados Unidos em 5 de junho em Los Angeles, o do senador Bob Kennedy na noite de sua vitória nas primárias democratas da Califórnia.
Ele recebeu vários tiros a queima roupa disparados pelo palestino Sirhan Sirhan. Era o irmão de John F. Kennedy, assassinado em 1963.
A Primavera de Praga
Os ventos de revolta não sopraram apenas no Ocidente. Na Tchecoslováquia, Alexander Dubcek, nomeado à frente do partido comunista em janeiro, adotou reformas para descentralizar, democratizar e liberalizar o regime.
Mas Moscou não aceitou esta Primavera de Praga e, em 21 de agosto, enviou os tanques do Pacto de Varsóvia para invadir o país. Foram necessários 20 anos para a esperança ressurgir.
O martírio de Biafra
No verão deste ano, as imagens de crianças morrendo de fome na província separatista nigeriana de Biafra estremeceram o mundo. O conflito, e sobretudo o bloqueio imposto pela administração central, causaram mais de um milhão de mortos, principalmente de fome e doenças, entre 1967 e 1969. A intervenção de alguns médicos franceses marcou o início de um novo tipo de cooperação humanitária com a criação em 1971 da organização Médicos Sem Fronteiras.

AFP

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