Primeiro volume da adaptação de "O Livro do Cemitério", de Neil Gaiman ganha as prateleiras das livrarias

Ilustração de Kevin Nowlan para o "O Livro do Cemitério - Voll. 1", obra de Neil Gaiman
Se há algo a ser aprendido no romance "O Livro do Cemitério" é de que "existem os vivos e os mortos. Existem as criaturas do dia e as da noite". Que existem os andarilhos da névoa e os caçadores, os sabujos de Deus, lobisomens, que trabalham para o bem, "e também os tipos solitários". A obra de Neil Gaiman, lançada em 2010, ganha agora uma versão em HQ, adaptada por um de seus parceiros mais frequentes - P. Graig Russell. A obra traz um cenário fantasmagórico para os amantes da fantasia.
Lançada em novembro deste ano, a adaptação em quadrinhos do romance foi ganhador dos prêmios Harvey e Eisner (as duas principais premiações dos quadrinhos dos EUA. O primeiro de dois volumes da adaptação conta a história de Ninguém Owens, apelidado de Nin. Ele é um garoto como outro qualquer, até que algo acontece em sua família e ele vai parar em um cemitério. A criança é adotada por fantasmas.
Cada capítulo nesta adaptação de Russell acompanha dois anos da vida do menino e é ilustrada por um artista diferente. O resultado é uma variedade fascinante de estilos, que dão ainda mais vida à atmosfera fantástica da HQ, oscilando entre algo afetuosa e sombrio.
Ao todo, são seis artistas - entre eles, o próprio P. Graig Russell, que assina os desenhos do segundo capítulo. Kevin Nowlan, ilustra o primeiro; Tony Harris e Scott Hampton, são os responsáveis pela terceira parte; Galen Showman, pela quarta; Jill Thompson fica com o capítulo cinco; e Stephen B. Scott faz a ilustração do interlúdio, a transição para o próximo volume.

Dois mundos
A trama começa com o massacre perpetrado por Jack. Ele mata uma família, mas o "serviço" fica incompleto: o bebê da casa escapole do berço e, na madrugada, entra no cemitério existente nas cercanias. Os Owens, um casal de fantasmas, decidem adotar a criança, mas precisam da aprovação dos demais seres que vivem no local.
Órfão, Nin vive agora entre fantasmas e um ser, chamado Silas, que nem parece estar vivo, nem morto e transita entre dois mundos. Ao longo das 192 páginas, a história do pequeno Ninguém é contada sem enrolações, tendo resoluções assertivas ao final de cada parte, tendo sempre uma aventura vivida pelo menino ao longo de cada capítulo.
O recurso usado no livro para apresentar os novos personagens - com exceção de Scarlet Amber, a amiga viva de Nin, que não para de falar - são epitáfios sobre as lápides, já que a maioria dos personagens não estão mais nesse mundo.

Inversões
É inevitável não se sentir preso na adaptação. A obra consegue cativar o leitor e, a todo momento, fazê-lo se perguntar como será a vida de Nin daqui a dois anos - e daqui a mais dois. E quando for adolescente? E quando for adulto? Esta última etapa só será vista no próximo volume.
arteAs adaptações em quadrinhos viraram febre, justamente por conseguir outro tipo de público para uma mesma história e oferecer leituras renovadas sobre mitos, personagens ou enredos. Nem sempre, o resultado é uma boa HQ. A versão de "O Livro do Cemitério", felizmente, faz parte do grupo que deu certo.
A leitura dessa história leva a encontros como: fantasmas com medo de assombrações e mortos supersticiosos. O mundo fantasioso criado por Gaiman, e enriquecido pela adaptação de Russell, é enorme, abrangendo diversos seres do folclore inglês e americano.
Questões sociais também não escapam a obra. A questão de solo consagrado e não-consagrado, onde se enterravam criminosos, suicidas e bruxas são colocadas em certos momentos da obra.
É inevitável não relacionar a personagem "bruxa" que encontra Nin com o famoso episódio da pequena cidade de Salem, em Massachusetts (EUA). O evento foi retratado em livros e em diversas adaptações cinematográficas. O julgamento das "bruxas" foi acompanhado de execuções realizadas entre fevereiro de 1692 e maio de 1693 e marcou um período de intolerância da história norte-americana.

Autores
Neil Gaiman escreveu livros de sucesso para crianças e adultos, pelos quais recebeu muitos prêmios, entre eles o Hugo e o Nebula. "O Livro do Cemitério" (2010), está na lista de best seller do jornal The New York Times e foi o único livro a receber tanto a medalha americana Newbery quanto a britânica Carnegie.
Outro grande best seller de Gaiman foi "Coraline", adaptado para o cinema e candidato ao Oscar em 2010, liderou a lista dos indicados com nove categorias. Animação 3D, o filme foi dirigido por Henry Sellick, de "O estranho mundo de Jack" (1993).
Nascido na Inglaterra, Gaiman vive hoje nos Estados Unidos, e em sua obra é nítido ver as figuras folclóricas da Inglaterra, que reverberaram no país americano. P. Graig Russell, estadunidense passou 40 anos produzindo quadrinhos e ilustrações. Parceiro de Gaiman, o quadrinista já adaptou "Coraline" e "Sandman: Caçadores de Sonhos". Russell é conhecido por publicações como "Batman", "Guerra nas Estrelas" e "Conan, O Bárbaro".

Diário do Nordeste

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