Retrospectiva 2017: Um ano de extremos

A gafe histórica na entrega do Oscar no início deste ano pode ser usada como símbolo para decifrar 2017 para a cultura. Por uma confusão dos apresentadores da premiação, o longa-metragem La La Land, um musical clássico que exalta Hollywood, foi anunciado como melhor filme. Minutos depois, porém, veio a notícia do erro: o vencedor foi, na verdade, Moonlight, um drama gay com elenco totalmente negro. Como os dois filmes, o ano foi assim: uma corda bamba entre estruturas consagradas (algumas conservadoras) e avanços progressistas de temáticas e representatividade das ditas minorias.
E se Donald Trump projeta um muro para impedir a entrada de imigrantes nos Estados Unidos, por meio da música, os latinos entraram em solo norte-americano pela porta da frente e com tapete vermelho. Puxado pelo sucesso Despacito, o reggaeton, ritmo musical de origem caribenha, dominou a indústria do pop mundialmente com artistas como J. Balvin, Maluma e Daddy Yankee.
No Brasil, a batida dançante se consolidou através de nomes como Anitta (Paradinha e Downtown) e Simone e Simaria (Loka).
Entre as linguagens artísticas, as artes visuais foram protagonistas de impasses. Enquanto no Rio de Janeiro, os murais de arte urbana que ficaram como herança das Olimpíadas 2016 se firmaram como pontos turísticos, em São Paulo, o prefeito João Dória (PSDB) declarou guerra ao grafite. Já nos museus, imperou a vigilância. A partir do cancelamento da exposição Queermuseu (mostra que desvendava as sexualidades múltiplas), em Porto Alegre, uma série de casos de censura se seguiram, a exemplo das obras da artista plástica Simone Barreto que, por conter nudez, foram retiradas da XIX Unifor Plástica, em Fortaleza.
O avanço conservador chegou a outras expressões artísticas. A dança-instalação DNA de DAN, do paranaense Maikon K, foi interrompida pela polícia durante apresentação em frente ao Museu Nacional da República, em Brasília. A peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, obra em que uma atriz transexual interpreta Jesus, foi impedida de ser apresentada pela Justiça, em Jundiaí, São Paulo. Teve ainda o uso da ideia de “pedofilia” para criminalizar expressões artísticas como a performance La bête, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM). Internacionalmente, muitos foram as denúncias de assédio sexual que vieram à tona como o emblemático caso do ator Kevin Spacey, da série House of Cards, que foi demitido da produção da Netflix e teve sua participação suspensa de outros produtos audiovisuais.
Entre músicas e discos, porém, as pautas progressistas nortearam o ano. Na literatura, o feminino deu a tônica. Mundialmente, o livro Outros jeitos de usar a boca (da indiana Rupi Kaur), que versa sobre empoderar mulheres, foi sucesso de vendas. No Brasil, a escritora mineira Conceição Evaristo, destaque ao dar voz ao povo negro em seus textos, foi a vencedora do Prêmio Cláudia na categoria Cultura.
Já na música brasileira, o pop brasileiro saiu do armário em suas diversidades a partir de nomes como a maranhense Pabllo Vittar, que foi a grande revelação do ano, e a carioca Iza, que ano que vem lança seu primeiro disco e promete fazer muito barulho.
No teatro cearense, 2017 foi o ano da estreia de peças musicais: Iracema dos lábios de mel, do teatrólogo Ilclemar Nunes, e O Morro do Ouro, em remontagem da Comédia Cearense, são exemplos.
Assim como a versão musical de A Hora da Estrela, produzida por Allan Deberton, e que deve circular o País no próximo ano. E, se do ponto de vista da produção, Fortaleza teve um ano de novidades em diferentes linguagens, do ponto de vista de políticas públicas para a cultura, muitas baixas. Não teve Festival de Teatro de Fortaleza e nem “versão oficial” do Salão de Abril, evento que acabou sendo “sequestrado” pelos artistas.
Seja na esfera micro (Fortaleza) ou na macro (grande indústria cultural internacional), 2017 foi de extremos. Acompanhe nas próximas páginas outras leituras sobre os últimos 12 meses.
RENATO ABÊ
O Povo

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