Moreira Campos: quatro escritas, múltiplas histórias

Acessar o passado por meio de uma narrativa não ficcional pode ser uma experiência, senão enganosa, pelo menos incompleta. Não é caso de desqualificar o trabalho dos historiadores. Pelo contrário. O caso é que, para chegar a tais narrativas, os pesquisadores revolvem materiais de toda sorte e exercem um tipo de leitura, interpretativa, que dá valor ao fragmento, ao inacabado e, mesmo, ao silêncio.
Um arquivo é, de certa forma, algo anterior a uma história e que permite originar uma infinidade de narrativas. "Você reúne materiais que podem ajudar a entender o processo de escrita, mas também outras coisas, como era a sociedade na época que o escritor viveu", explica Elisabete Sampaio Alencar Lima, doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura da Universidade Federal da Bahia (UFBA), professora e pesquisadora. Ela é vice-curadora do Acervo do Escritor Cearense (AEC), da Universidade Federal do Ceará. O projeto é coordenado pela professora Neuma Cavalcante, curadora do acervo.
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A criação do AEC está ligada a uma pesquisa desenvolvida por Neuma Cavalcante, no concurso para professora visitante da UFC. Sua proposta era a de organizar o acervo de um dos grandes nomes da literatura cearense no século XX. "O Arquivo Pessoal de José Maria Moreira Campos: memória de uma vida criativa" pretendia ordenar e indexar os documentos pessoais do autor, famoso sobretudo por sua obra como contista.

Doações
A experiência com Moreira Campos teria, também, um efeito mais amplo. Serviria como exemplo, dando conta das possibilidades de pesquisa abertas por um arquivo organizado; e, por conta dessas, a necessidade de se engajar na preservação de acervos particulares (literários, em especial, mas não restrito ao universo dos escritores.
Hoje, mais de uma década após ser criado, o Acervo do Escritor Cearense reúne um material vasto, distribuído em quatro fundos: o, primeiro, de Moreira Campos; outro, de sua filha Natércia Campos, autora dotada de méritos próprios, para além da sombra do pai; o de Gilmar de Carvalho, ficcionista, dramaturgo e pesquisador (em especial, das culturas tradicionais populares), o único autor vivo do AEC; e de Antonio Girão Barroso, ficcionista, ensaísta e poeta, cujo acervo, organizado previamente pelo filho Oswald Barroso, inclui material que permanece inédito em livro.
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Os Campos

Patrícia, uma das netas do escritor, doou os documentos que, mais tarde, constituiriam o Fundo Moreira Campos, em 2005. Os pesquisadores não sabem como o autor de "Dizem que os cães veem coisas" organizava o material. Sua neta, contudo, acondicionou tudo em caixas numeradas, divididas e nomeadas de acordo com o conteúdo. Manuscritos, recortes de jornais (num esforço de documentação da própria fortuna crítica), livros, documentos e objetos, como móveis de uso pessoal são algumas das peças recebidas.
A organização de um fundo é um processo demorado. O de Moreira Campos é o que se encontra mais avançado no processo de organização do AEC. Hoje, ele divide espaço com o Fundo Natércia Campos. A filha de Moreira faleceu pouco depois da doação dos materiais do pai e a família decidiu fazer o mesmo com seus "guardados".
"O primeiro passo a ser feito, quando chega uma doação, é um inventário. Depois que ele é feito, repassamos à família, que confirma o que deseja doar e com o que quer ficar. Nós também sugerimos. Por exemplo, haviam cartas de Natércia Campos, que eram pessoais. Não havia interesse literário nelas e devolvemos à família", ilustra Elisabete Sampaio Alencar Lima.
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Processos

Acervos pessoais, ainda que configurem uma importante fonte histórica, não podem ser organizados a partir, somente, de sua temporalidade. Separam-se os objetos de acordo com sua natureza. E não há apenas uma metodologia que oriente esta divisão.
Neuma Cavalcante trouxe muito a expertise dos tempos que cuidou do Fundo João Guimarães Rosa, do Instituto de Estudos Brasileiros, da Universidade de São Paulo. O IEB, aliás, é uma instituição que detém coleções importantes, como a de Mário de Andrade.
No AEC, a divisão se dá por séries: correspondência, documentação pessoal, publicações de periódicos (do autor e sobre ele, quando guardadas pelo mesmo), fotografias, manuscritos, biblioteca e objetos diversos.
Acervos desta natureza requerem cuidados diferentes daqueles de quando se visita uma biblioteca comum. O público, quase sempre, é o de pesquisadores. Estes, contudo, andam escassos, para além do potencial de histórias a contar aberto por tudo aquilo que um autor decidiu conservar e de que documenta sua vida e, principalmente, sua obra.
Mais informações:
Acervo do Escritor Cearense - Localizado no 2º andar da Biblioteca do Centro de Humanidades da UFC (Av. Da Universidade, 2683, Benfica). Contato: (85) 3366.7654
Di´rio do Nordeste

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