Mostra Internacional de Teatro chega à 5ª edição

Curador busca por espetáculos que tenham certa hibridez com música, artes visuais, cinema, e outras linguagens.
'Árvores Abatidas', do polonês Krystian Lupa faz uma imersão na obra homônima de Thomas Bernhard e traça sua comunicação com base no texto.
'Árvores Abatidas', do polonês Krystian Lupa faz uma imersão na obra homônima de Thomas Bernhard e traça sua comunicação com base no texto. (Divulgação)

Mais que um panorama sobre produções teatrais contemporâneas no mundo, a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, que chega à sua 5ª edição, já provou ser um ponto de contato com a inquietude de diversos artistas do globo, suas obras e, principalmente, com o entendimento do mundo na perspectiva oferecida por essas criações. Entre os dias 1º e 11 de março, a MITsp traz uma programação com nove espetáculos de países como Alemanha, Argentina, França, Polônia, Reino Unido, Suíça e Uruguai.

Após uma quarta edição que sofreu recuo de patrocinadores em 2017, e que quase passou a ser bienal, o curador Antonio Araújo retomou o fôlego, muito embora afirme que a edição desse ano não tenha sido nada descomplicada. "Chegamos em um momento em que a mostra precisa acontecer. Trata-se de marcar terreno e dar continuidade ao trabalho."

Traçado sob eixos artísticos, Araujo aponta a busca por espetáculos que tenham certa hibridez com música, artes visuais, cinema, e outras linguagens. A abertura fica por conta de Suíte Nº 2, do francês Joris Lacoste, no Auditório Ibirapuera. A partir de um trabalho de arquivamento de textos, de diversas as origens, o artista cria um jorro verbal apresentado por atores. "Suas peças fazem parte de um projeto maior, A Enciclopédia das Palavras, com o objetivo de recolher todas as palavras possíveis e de todos os lugares", afirma Araujo. Ao lado desse protagonismo das palavras, o espetáculo Árvores Abatidas, do polonês Krystian Lupa faz uma imersão na obra homônima de Thomas Bernhard e traça sua comunicação com base no texto.

"Aqui temos um grande encenador que investe em grande autor e que comenta aspectos da arte, como foi em A Gaivota, com Yuri Butusov, na da mostra de 2015." A musicalidade também atravessa o incomum King Size, do suíço Christoph Marthaler, que traz três atores cantores e 22 canções que marcaram a história da música. "É trabalho muito singular, que não se assemelha em nada ao tradicionais musicais da Broadway", explica o curador. Outra aposta ainda mais radical é Hamlet com o músico eletrônico e performer Julian Meding a junto a orquestra barroca.

Trabalhos voltados para a memória e história de povos ganha discussão no Campo Minado, da argentina Lola Arias, com combatentes argentinos e ingleses que revisitam Guerra das Malvinas, ferida aberta até hoje. Já no solo sal., a atriz inglesa Selina Thompson refaz a o percurso de um navio cargueiro que transportava negros escravizados. "É um trabalho vigoroso, que discute o racismo com uma atriz dando marretadas em grandes blocos de sal", diz Araujo. Essa busca ganha prosseguimento em Palmira, do grego Nasi Voutsas e do francês Bertrand Lesca, que diferente de Campo Minado, recorda da destruição dos monumentos históricos da antiga cidade síria por um viés mais poético. "Eles não falam em nomes, mas no impacto dos ataques e da ideia de ser bárbaro. Quando muitos sírios se refugiaram na Europa, eles foram tratados como bárbaros", explica Araujo. Há também o trabalho de País Clandestino, produção de diretores de cinco países: França, Argentina, Espanha, Uruguai e Brasil, que se põe a pensar eventos recentes que marcaram a terra natal de cada um. Uma experiência que resultou em uma obra não teatral é o projeto AudioReflex, um conjunto de audioguias sobre a visita de brasileiros no Museu da Cidade de Munique. Durante a MITsp será a vez dos alemães visitarem o Museu da Imigração, em São Paulo.

Quem encerra a mostra é o artista Nuno Ramos com A Gente Se Vê Por Aqui - 24 hs Globo. O trabalho é uma performance com dois atores que ficam confinados no palco por 24 horas, tendo à disposição alimentos, banheiro químico e colchões. O trabalho tem início no horário do programa Fantástico, da rede Globo, e termina na edição do Jornal Nacional do dia seguinte. "A ideia e desnaturalizar esse tipo de programação televisiva. É muito natural ouvir uma Ana Maria Braga ou a transmissão de notícias. Ao deslocar isso, cria-se uma consciência crítica", afirma o curador.

Agência Estado

Comentários

Mais Visitadas

A linguagem do amor

Garimpeiro do conhecimento

História do transporte de passageiros é contada em Centro Cultural da Fetrans

Museu da Fotografia Fortaleza realiza nesta quinta (17) palestra sobre a imagem contemporânea

Aposentadoria por idade será aprovada por internet e telefone