O fotógrafo paulista Leonil Júnior levará imagens do sagrado e do profano brasileiro para a Europa

por Roberta Souza - Repórter
Leonil tinha por volta de 13 anos quando fotografou a primeira festa popular da qual tem lembrança. Ele já estava ambientado com tudo aquilo, afinal, desde criança presenciava, no bairro da zona rural paulista onde reside até hoje, na cidade de Joanópolis, essa festa de Nossa Senhora do Rosário.
Na ocasião, seus registros deram conta dos devotos arrancando punhados de terra dos barrancos, dando a volta pela igreja e jogando a terra atrás dela, no processo que denominam de "Carpição". Aquele material seria, portanto, o começo da caminhada profissional do garoto que hoje, aos 21 anos, leva o projeto "Brasil, do Sagrado ao Profano" - resultado de sua incessante busca em revelar a fé do povo brasileiro e seus ritos - para a Europa.
A turnê começa no dia 1º de março, por Londres, e segue em abril para Bélgica e Bruxelas. A exposição vai apresentar as mais diversas manifestações de fé, como o Círio de Nazaré em Belém do Pará; os Congados em Minas Gerais; os batuques no interior de São Paulo; os Maracatus e suas cortes reais em Pernambuco; o Tambor de Mina na Amazônia; a Jurema sagrada no Nordeste; as Folias do Divino Espírito Santo em São Paulo; e os rituais sagrados dos povos indígenas. Imagens dos romeiros de Canindé (CE), fotografados por ele em 2017, também constam no trabalho.
"Costumo dizer que já nasci 'batendo os pés pra São Gonçalo'. Nasci e fui criado na roça, no Interior, onde as devoções e as festas populares fazem parte do cotidiano. Desde pequeno me interessava pelas Congadas, Caiapós e diversos folguedos da região, sendo que já fiz parte de um desses grupos. Então, a cultura e a religiosidade popular são intrínsecas em mim, não consigo separar minha fotografia da fé, do povo, das festas. Faço parte disso, e amo incondicionalmente o nosso Brasil e nossa cultura", afirma, entusiasmado, o fotógrafo.
A primeira câmera, ele ganhou aos 8 anos de idade. Num belo dia, uma das fotógrafas da vanguarda paulistana, K.K. Alcovér, mudou-se para um sítio vizinho ao que Leonil morava, e fizeram-se ali uma mestra e um discípulo.
"Com ela comecei a me interessar cada vez mais pela fotografia, ela foi minha mestra, sempre me ensinando com toda dedicação e paciência e eu um jovem aprendiz 'de pés rachados'. Desde então nunca mais parei de fotografar. Hoje a fotografia representa muito pra mim, representa a memória", pontua.
Rotas
A primeira viagem que Leonil fez para registrar imagens foi em 2014. Na época, ainda cursava Fotografia, graduação que só viria a concluir em 2015. O convite veio de um amigo, quando o jovem sequer tinha andando de avião. "Me embrenhei pelos congados do Vale do Jequi, pelas antigas e tradicionais Irmandades do Rosário, nascendo então uma nova paixão, os congados". A partir dessa viagem um novo projeto nascia, o Rosário dos Pretos, a partir do qual Leonil reuniria imagens de diversos roteiros pelo Brasil em uma exposição no Sesc Sorocaba, em São Paulo.
As manifestações de fé e seus desdobramentos sempre foram critérios para o fotógrafo definir por onde deveria passar. Esse seria um indicativo do olhar de Leonil, ainda que ele não consiga defini-lo. "Alguns dizem que é um olhar espiritualista, confesso que ainda não consigo definir. Busco transmitir a fé e a esperança por um mundo melhor. A fé dos povos é algo que me encanta, pois é capaz de levantar multidões, começar e terminar guerras e 'mover montanhas'", acredita.
Fotógrafo documental, Leonil trabalha na perspectiva de registrar as pessoas, porque vê nelas sua conexão com o sagrado. "As pessoas me movem, me fazem refletir sobre quem somos, de onde somos e pra onde vamos, e mesmo sem saber me dão mais fé e esperança. É amando ao próximo e me colocando entre eles que consigo captar os momentos e eternizá-los em fotografias", declara o jovem.
As imagens em preto e branco são características em seu trabalho, e é com um equipamento simples que ele captura o que lhe é sagrado. "Utilizo uma câmera de entrada da Nikon e algumas analógicas. A fotografia analógica me faz refletir mais", explica.
Exposições
A turnê pela Europa contará com uma exposição de 20 imagens, divididas em quatro núcleos - Círio de Nazaré, folguedos, religiões e indígenas - além de fotos de um projeto social do qual Leonil faz parte, o "Eyes of the street" - de fotografia, voltado para crianças em situação de vulnerabilidade social. Em maio ele retorna ao Brasil, já com planos de expor em outras localidades, incluindo Fortaleza entre as prioridades. "Já estou em negociação com diversos museus e espaços culturais para trazer a exposição, e Fortaleza com certeza vai ser o primeiro destino depois da Europa", garante Leonil.
A diretora de Museus do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC), Valéria Laena, já se reuniu com o fotógrafo no ano passado e confirma que suas imagens devem ocupar a varanda dos museus, onde ficava a livraria do Dragão, no segundo semestre de 2018.
"O Ceará como um Estado que vivencia experiências de romarias, especialmente em louvor ao 'Padrinho Cícero' e ao São Francisco de Canindé, acolhe com admiração a exposição 'Brasil do Sagrado ao Profano', do fotógrafo Leonil Júnior. Percorrendo um Brasil de maracatus, congadas, círios e romarias, as imagens de Leonil revelam a fé e a força da religiosidade popular no País. Leonil é promessa grande!", opina Valéria.
No retorno da Europa, ele também pretende se voltar mais para o seu Interior, para os mestres, para os povos tradicionais. "Sou feito de cada momento que vivi, de cada mestre que conheci, de cada Preto Velho que conversei, de cada chão que pisei, de cada sorriso que cliquei. Sou feito dos lugares que passei, sem esquecer da minha raiz", define-se. Com a sensibilidade e a câmera em mãos, ele ainda tem muito a florescer.
Experiência
O Ceará e a fé que "move montanhas"
O Ceará sempre foi um sonho pra mim; as Romarias de São Francisco das Chagas no Canindé, os romeiros de Padre Cícero... Estive em 2017 no Canindé, onde fui muito bem acolhido pelo querido Frei Domingos e pelo hospitaleiro povo cearense. A viagem para o Canindé mexeu muito comigo, me fez refletir sobre diversas outras coisas. Tudo isso resultou em inúmeras imagens dos romeiros de São Francisco e me levaram a ter certeza de que a fé "move montanhas". Ainda pretendo passar uma temporada no Ceará, documentando as romarias de Padre Cícero, de São Francisco e as outras festas populares da região, que por sinal já são muito bem documentadas por grandes fotógrafos, a exemplo de Tiago Santana, Celso Oliveira, e outros mestres da fotografia cearense e nacional.

Leonil Júnior
Fotógrafo

Saiba mais
"Brasil, do Sagrado ao Profano" na Europa
1/3
Gallery 32, embaixada do Brasil em Londres.
7/4
Café Botéco - Gent, na Bélgica.
12/4
Casa do Brasil, embaixada do Brasil em Bruxellas.
*Algumas fotos estão disponíveis no instagram @leoniljr

Diário do Nordeste

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