Obra propõe resgatar a memória de movimentos artísticos marginais das décadas de 1970 e 1980

por Iracema Sales - Repórter
Uma obra pulsante, visceral, urgente, construída no meio da rua, em consonância com seu momento histórico, fazendo valer a tese de que toda arte é política. Assim pode ser definida a trajetória dos jovens Hudinilson Jr., Mario Ramiro e Rafael França, que conceberam suas criações no contexto da arte urbana, usando a cidade de São Paulo como suporte para a realização de uma arte de guerrilha. O elemento surpresa era um dos principais ingredientes das obras desses "artistas guerrilheiros" que ensacaram monumentos, lacraram galerias e interditaram ruas com pedaços de plásticos ou papel celofane.
O objetivo era um só: democratizar a arte e, neste ponto, o coletivo radicalizou, ao realizar a operação "X-Galeria", que consistia em lacrar simbolicamente com um X de fita-crepe várias galerias paulistas. A ação, além de desafiar a ordem estabelecida em um Estado que vivia ainda sob o signo da intervenção militar, colocava o dedo em um vespeiro, o mercado fechado de arte. Essa foi uma das primeiras intervenções do grupo que aproveitava as brechas da então emergente abertura ou distensão política.
Com essas ações, o grupo - cuja história está registrada no livro "3NÓS3 Intervenções Urbanas 1979-1982" - escreveu seu nome no panorama da arte urbana brasileira, que não ficou restrita apenas à década de 1980. O livro chama atenção para outras manifestações ocorridas ao longo do século XX, tendo como um dos precursores o arquiteto-artista Flávio de Carvalho (1899-1973), com a performance que ele chamou de "estudo sobre a psicologia das multidões".
Destaque ainda para as ações dos artistas visuais Nelson Leirner e Hélio Oiticica (1937-1980) em 1968; e de Cildo Meireles, em 1969.
Ao observar o trabalho do grupo é possível perceber traço importante do coletivo (além da conotação política, claro): a relação com a mídia, sempre presente nas intervenções ou "interversões". Mesmo sem contar com a explosão das tecnologias digitais - essas apareceriam a partir dos anos 1990 - , os integrantes do "3Nós3" provaram que artistas estão sempre à frente do seu tempo, antecipando linguagens como arte digital e a videoarte.
Memória
Lançando mão das ferramentas tecnológicas disponíveis naquele momento, como grafite, xerox e mimeógrafo, a ação desses jovens reverberou em várias partes do País. "Chuva" de poesia e poemas colocados em postes eram algumas táticas da "guerrilha artística" do período. O grupo é considerado um dos mais importantes protagonistas da arte independente ou marginal que vigorou no País entre as décadas de 1970 e 1980.
Nesse sentido, "3Nós3" pode ser considerado também um livro de memória de uma geração que acreditou numa arte independente ou marginal. Tão urgente quanto sua proposta artística foi a vida do grupo, com duração de apenas três anos.
O coletivo iniciou sua atuação em 1979, quando começa o processo de abertura política que se estende até 1985. Havia uma agitação no País, iniciada com a campanha Lei da Anistia, promulgada em 1979. Aos poucos, os movimentos sociais e estudantil se reorganizavam, assim como os sindicatos. O trabalho do grupo nasce nesse contexto de rebeldia dos movimentos contestatórios que nasceram no fim dos anos 1960, passando pelas décadas seguintes.
Projeto
Organizado por um dos integrantes do grupo, o pesquisador e artista multimídia Mario Ramiro, a obra, mais do que trazer aos dias de hoje o trabalho desse coletivo, cumpre o papel de ajudar na construção da memória da participação dos artistas visuais no período da ditadura militar (1964- 1985) e distensão política.
Ou seja, a bibliografia é escassa e acredita-se que ainda exista muito para ser contado. O projeto para a elaboração da obra, esboçado em 1982, tornou-se realidade ao ser contemplado pelo programa Rumos do Itaú Cultural.
A publicação prima pela apresentação gráfica. A edição - que inclui documentação de trabalhos do grupo, material fotográfico das principais obras, bem como registro de jornais - é da Ubu Editora, com versão em inglês. Coube às pesquisadoras Annateresa Fabris, Adelaide Pontes e Erin Aldana, que acompanharam a produção do grupo, analisar as obras.
O livro traz ainda uma rápida cronologia da produção de arte urbana brasileira anterior ao grupo, assim como algumas que ocorreram simultaneamente, denunciando a efervescência cultural daquele período.
No texto de apresentação, Mario Ramiro escreve que, "pouco antes de encerrar seu ciclo de atividades, o 3Nós3 projetou um catálogo que iria registrar toda a produção do grupo". A ideia era reunir imagens e textos que documentaram as intervenções urbanas e outros trabalhos realizados entre os três anos de existência do grupo (1979-1982).
E não foram poucas as intervenções comandadas por aqueles três jovens que sonhavam em retirar a arte das quatro paredes de museus e galerias. "O País fervia com greves de trabalhadores, imprensa alternativa, movimento estudantil e com o sangue da juventude que corria nas veias para produzir um fluxo contínuo de manifestações e agitações culturais, políticas e artísticas. A arte alternativa, independente e marginal, é um novo capítulo dos estudos da arte contemporânea no Brasil, e por isso a urgência do livro", pontua Mario Ramiro.
Pontes
Sobre a atuação do coletivo, ele explica que a produção do "3Nós3" não foi resultado apenas do esforço e da criatividade de três jovens artistas, mas da interação com outros realizadores, produtores culturais, jornalistas, críticos, fotógrafos, ilustradores, diretores de museus, amigos, ex-professores e também figuras anônimas das ruas.
"As ações coletivas congregavam agentes culturais de diferentes procedências", argumenta Ramiro, lembrando da historiadora da arte Annateresa Fabris, ao assinar um cheque em branco, quando apostou no talento daqueles jovens inquietos, que sonhavam com uma arte independente.
"Foi a primeira a identificar em nossa produção os traços de uma manifestação que ainda não havia sido captada pela crítica de arte no início dos anos 1980. Seu primeiro texto, publicado pela revista Arte em São Paulo, em 1984, aborda de forma concisa e abrangente os principais aspectos da produção do grupo, nos seus vínculos com a cidade e a mídia".
Na análise "Pretexto para uma intervenção", Fabris observa que "à primeira vista, a operação artístico/crítico do 3Nós3 abrange duas esferas distintas e quase dicotômicas: o circuito artístico e a cidade. Àquela corresponderiam três intervenções que datam de 1979; o ensacamento de estátuas, a operação X-Galeria e o Tríptico. Desta seriam testemunho as interversões quando o grupo, deixando de lado a polêmica/diálogo com o milieu artiste, se volta explicitamente para o espaço urbano, não mais mero contentor de estruturas /objetos preexistentes ou ponto referencial para uma exposição, mas verdadeiro destinatário de ação artística que nele percebe uma relação essencial com o material que lhe conferirá uma fisionomia momentânea".
A principal característica do trabalho do grupo é a relação com a cidade, traço que aparece desde as primeiras ações. "Se a arte é o centro de convergência do fazer do grupo, se assimila à cidade por um breve lapso de tempo, não se pode desconhecer a ambiguidade inerente a essa e às outras atitudes que fazem do espaço urbano o palco de suas ações. Arte e cidade, na verdade, não chegam a fundir-se, pois as estátuas ensacadas, as telas expostas na calçada, o celofane e o plástico interferindo nas grandes estruturas viárias, longe de dessacralizar a arte, acabam por converter-se ou não reconverter-se em obras e espaços de fruição estética. Mesmo que os materiais sejam pobres ou precários (saco de lixo, fita-crepe, celofane, plástico), a estátua torna-se mais estátua, a tela mais tela, o viaduto ou a avenida um sucedâneo do museu/galeria porque, no transcorrer da intervenção, o tempo se suspende, são propostos valores que, do fluxo da vida, remetem à fixidez da arte, não importando que a presença da arte seja temporária", escreve Fabris.
Análises
Um dos trabalhos mais radicais e "flagrantes" do "3Nós3" é a operação "X-Galeria", que trazia a mensagem "O que está dentro fica/ O que está fora se expande", sintetizando a filosofia do trabalho dos artistas. A ação tinha como alvo não apenas o "circuito fechado do mercado de arte", mas provocou efeito dominó, atingindo a crítica de arte, curadores e galeristas.
O caminho mais curto para rebater a intervenção foi descredenciar o trabalho dos novos artistas, fazendo com que a crítica se afastasse deles. A ajuda dos meios de comunicação foi essencial para que a mensagem fosse alcançada, além de contribuir para a segurança dos artistas, uma vez que a democracia não estava ainda restabelecida.
Em análise acerca da arte do coletivo, após 35 anos, Fabris elabora novos paralelos do "3Nós3" com outras manifestações artísticas, sendo o movimento italiano futurista um deles. "Pela ideia da cidade como um espaço de controle, no qual é possível injetar uma energia positiva e crítica, que deveria levar o transeunte a estabelecer relações com um paisagem embotada pelo uso cotidiano", justifica.
A crítica de arte estabelece ainda conexão do "3Nós3" com a teoria da estética relacional de Nicolas Bourriaud, justificando que as ações do coletivo visavam a ativação de lugares. "Se, como afirma o autor, a arte contradiz a cultura passiva ao propor mercadorias e consumidores e ao ativar as formas dentro das quais se desenrola nossas vida cotidiana, sem dúvida é esse o horizonte dentro do qual ocorriam as ações de Hudinilson Jr., Mario Ramiro e Rafael França.

Diário do Nordeste

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