Sem Título Arte abre nova exposição do artista visual Junior Pimenta

Fotografias da série Adentrar%u2019evidenciam o gesto do corpo como um lugar de resistência FOTOS DIVULGAÇÃO
Fotografias da série Adentrar%u2019evidenciam o gesto do corpo como um lugar de resistência FOTOS DIVULGAÇÃO
A expressão “não pertencer”, no sentido de não se reconhecer – seja a um lugar, a uma turma, a um determinado padrão de comportamento pré-estabelecido – faz parte da trajetória de Júnior Pimenta há um certo tempo. Natural da cidade de Orós (distante 410km de Fortaleza), mudou-se aos 14 anos de idade para a capital mineira, permanecendo lá por um período de cinco anos. “Uma tia, que morava em BH, convidou e eu fui. Foi uma mudança... enorme. De uma cidade que conhecia todos para uma que não conhecia quase ninguém. Uma cidade que não me pertencia”, relembra.
Artista visual e atualmente mestrando em Artes pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Júnior Pimenta teve como ponto de partida a reflexão sobre pertencimento para sua terceira exposição individual, batizada de Vá em frente, volte pra casa!. A residência artística em São Paulo, em decorrência da premiação durante o 67º Salão de Abril (2016), foi fundamental nesse sentido. A atual exposição, que surge após Âmago (2013) e Descaminhos (2014), abre hoje, às 19 horas, na Sem Título Arte (Aldeota), seguindo com visitação gratuita até 22 de fevereiro.
Sobre o título, a justificativa: “Em janeiro de 2017, me deparei com a situação de um refugiado (do Gabão) que morava legalmente na Itália, tinha autorização pra viver lá, e ele se joga no canal de Veneza – não sei a razão, se foi num surto devido aos ataques xenofóbicos que ele sofria por não pertencer àquele lugar – e vários turistas e cidadãos italianos filmam aquela situação, algumas pessoas jogam algumas moedas, mas ninguém tentar salvá-lo de fato. Se não bastasse isso, ainda proferiam frases e uma delas foi ‘Vá em frente, volte pra casa!’, mandando ele nadar, se jogar e voltar pra casa. Essa frase ficou marcada em mim e acabou virando o nome da exposição”, explica.
Para além dessa situação pontual, Júnior também sentiu na pele esse questionamento. “Fiz o ensino médio lá em Belo Horizonte e era comum eu escutar como ‘o que é que eu fui fazer lá’, ‘por que eu fui morar lá’, ‘por que eu não voltava pra minha terra’, ‘se eu tinha ido lá roubar as vagas deles’... E era bem estranho pra mim pensar que a gente morava no mesmo país, então por que eu não podia circular e estar ali, né? E era um lugar que não me pertencia”.
Em Vá em frente, volte pra casa!, cuja curadoria é assinada por Marcelo Amorim (GO), Júnior Pimenta apresenta seis trabalhos, divididos entre fotografias, instalações, bandeira e objeto. “O trabalho não nasce de uma coisa só, vem de coisas anteriores. Esse trabalho da bandeira, na realidade, me veio em mente a partir de uma música do Cidadão Instigado, que é Apenas um Incômodo. No final da música, ele fala ‘Só tenho um sonho que já é meu e duas palavras pra lhe dizer nesse instante: Me aguente’. Esse ‘me aguente’ foi uma coisa que me marcou muito. A partir disso, eu resolvi desenvolver um desses trabalhos”.
No caso das fotografias, estas fazem parte de uma instalação chamada Adentrar, a partir do tema em questão. “Fui me interessando por esse gesto do corpo, o gesto como lugar de resistência, o corpo que não se contenta com esse limite imposto por um muro”, resume.
SERVIÇO
Abertura da exposição Vá em frente, volte pra casa!, de Júnior Pimenta
Quando: hoje, 17, às 19horas, prosseguindo até 22 de fevereiro
Onde: Sem Título Arte (rua João Carvalho, 66 – Aldeota)
Entrada franca
Outras info: (85) 99742 2701

TERESA MONTEIRO
O Povo

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