E O CRIME SE ORGANIZOU

Grecianny Carvalho Cordeiro*

Crime organizado não é coisa nova. Sempre existiu e sempre existirá.
Exemplos não faltam. Podemos citar Al Capone, o famoso gângster americano que contrabandeava e comercializava bebidas na época em que vigorava a lei seca nos Estados Unidos.
Existe crime organizado relacionado ao tráfico de drogas e de armas, ao tráfico de pessoas e de órgãos, à lavagem de dinheiro... O que diferencia a criminalidade organizada de outro tipo de criminalidade é a sua forma de atuação, estruturada como se fora uma empresa, onde cada componente exerce um determinado papel, com divisão de atribuições, tendo por objetivo a obtenção de vantagens por meio do cometimento de crimes. Logo, não estamos falando aqui de amadores, mas sim de criminosos altamente perspicazes.
A criminalidade organizada se caracteriza, também, por possuir braços nos mais diversos espaços, na esfera privada e pública, esta última, por sua vez, imprescindível ao sucesso de qualquer empreitada criminosa, garantindo ao criminoso estar sempre adiante, sempre um passo à frente daquele que poderia detê-lo: o Estado.
Acontece que, há algum tempo, vem surgindo um tipo de criminalidade organizada bem diferente daquela até então existente: a nascida no interior dos presídios, por meio da união de presos – às vezes por meio de um pacto de sangue – os quais juram lealdade aos “mandamentos” de sua respectiva facção, encarregada de protegê-los no interior dos estabelecimentos penais, e de prestar auxílio à sua família, do lado de fora dos muros da prisão.
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O fato é que a massa carcerária que superlota os presídios brasileiros se uniu, se organizou; cooptou novos adeptos e simpatizantes; arrecada dinheiro necessário à sua manutenção através do pagamento de “estadias” dos presos ou de financiamento para o cometimento de crimes extramuros ou de gerenciamento das “bocas de fumos”; agentes públicos estão em suas folhas de pagamento...
E vem as chacinas, os massacres, as rebeliões, as fugas, as mortes de policiais.
O cidadão assiste atônito à ocupação das ruas, dos bairros, das cidades, pelas facções que imprimem seus selos nas paredes e determinam o toque de recolher.
O Estado se mantem impávido e colosso, incapaz de reconhecer que falhou. E continua errando ao negar o óbvio.
O crime se organizou e vem ganhando espaço a cada dia.
Talvez seja a hora de o Estado ter humildade e reconhecer que errou para que, mais tarde, não possa dizer que perdeu.


*Promotora de Justiça

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