Estudantes do IFCE apresentam espetáculo

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O dramaturgo Eugène Ionesco, referência do chamado Teatro do Absurdo: um de seus textos clássicos, "A Cantora Careca", foi escolhido para ser adaptado em montagem de mais uma turma da Licenciatura em Teatro do IFCE
Eugène Ionesco é um dos grandes representantes do teatro do absurdo e sua peça teatral "A Cantora Careca", um clássico do gênero, considerada a primeira obra dessa corrente. Escrita em 1949, a peça estreou pela primeira vez em 11 de maio de 1950 e tem cerca de 477 versões cênicas conhecidas.
Agora, a obra escrita pelo dramaturgo romeno será interpretada em Fortaleza pelos alunos da 25º turma do curso de licenciatura em Teatro do Instituto Federal do Ceará (IFCE), nesta sexta-feira (16) e sábado (17), encerrando a temporada nos dias 23 e 24 de fevereiro, na Escola Porto Iracema
Sob direção da aluna Vitória Mota e orientação do professor Danilo Pinho, o espetáculo se trata de um processo pedagógico e o projeto tende acabar com o final do semestre, por isso as apresentações serão únicas, com entrada franca.
O elenco é composto pelos alunos Catarina Viana, Gislene Furtado, Xaday Moreira, Felipe Hélder, Wendel Generoso, Rafaelle Santhiago, Vitória Mota e Kleberson Alberto.
O espetáculo traz diálogos absurdos que levam a uma total impossibilidade de comunicação entre os seus personagens e mostra ao público o distanciamento e a frieza do ato de comunicar dessas pessoas.
A história passa-se no interior da Inglaterra e mostra o cotidiano de dois casais, os Smith e os Martim, e da empregada Mary, no período pós-guerra. Entre conversas banais que não fazem sentido até palavras desarticuladas que se limitam a sons, a peça vai acontecendo e chega a um clima crescente de violência.
"A estética desse gênero é trazer o humano isolado, que mesmo juntos em um lugar, sentem-se sozinhos. Ao usar o humor sarcástico, os textos dessa época trazem como mote a solidão, mostram o ser humano como uma criatura que não consegue interagir. 'A Cantora Careca' traz essa crítica, a ruptura do homem com o diálogo", explica Danilo Pinho, orientador da turma de teatro.
Gênero
"A intenção desse espetáculo não foi trazer questões sociais/políticas atuais, mas levar o público para outro universo, trazer a plateia pra dentro dessa casa, dentro desse jantar. A gente constrói um universo paralelo para as pessoas. Não como uma fuga, mas um convite para que eles entrem naquele lugar e por alguns minutos só tomem chá com os personagens", pontua a aluna e diretora Vitória Mota.
A peça está dentro da categoria do Teatro do Absurdo, gênero que tem alguns autores icônicos - como Samuel Becker e mais uma galeria enorme de dramaturgos e escritores que surgiram após a Segunda Guerra (1939-1945), que usaram dessa experiência trágica para criarem textos.
O Teatro do Absurdo teve influência do drama existencialista e se originou a partir do Surrealismo - movimento literário e artístico da década de 20, representado por nomes como o francês André Breton, e que se caracteriza pela expressão espontânea e automática do pensamento. Alfred Jarry surge como inaugurador desta tendência. Já sua denominação é atribuída ao crítico norte-americano Martin Esslin.
No século XX, o Teatro do Absurdo teve a contribuição de nomes como o já citado irlandês Samuel Beckett, o inglês Harold Pinter, os franceses Artand e Jean Genet, o espanhol Fernando Arrabal e, é claro, de Eugène Ionesco. Este popularizou técnicas surrealistas e rejeitava a estrutura lógica - não costumava desenvolver seus personagens mais a fundo, principalmente na dimensão psicológica.
"Eugène traz a realidade daquele período, onde as pessoas não tinham uma boa comunicação nem com elas mesmas, nem com os outros e nem com o mundo. Você meio que era obrigado a criar uma realidade paralela para passar por cima daquilo (o pós-guerra) e esse texto traz muito isso. Esses personagens criam seu próprio lugar", afirma Vitória.
Para a estudante, o texto de Ionesco "não faz a plateia gargalhar, nem ri só das personagens, mas de você mesmo. O absurdo é justamente isso, é algo que você se distancia, acreditando que aquilo não acontece, que não está presente, quando na verdade é tudo que você vem fazendo o tempo todo".
Processo criativo
Os professores do curso sempre se alternam entre montagem e orientação. Neste ano, o responsável pela orientação da turma é Danilo Pinho.
"Ajudo na orientação do processo criativo. Cabe a mim deixá-los livres para criarem a dramaturgia. Os próprios alunos escolhem quem vai dirigir, e esses escolheram Vitória. Fica sob sua responsabilidade a escolha do arranjo", ressalta Danilo.
O grupo se reuniu por vários dias e todos levaram textos de suas preferências, de vertentes diferentes. Mas desde o começo já estava bem definido que a turma iria adotar algo que enveredasse pelo lúdico, pelo realismo fantástico.
Entre textos como o de "Alice no País das Maravilhas", de característica fantástica e voltado para um mundo lúdico, o grupo mudou sua vertente, enveredando para o teatro do absurdo, de autores como Ionesco e Beckett.
"Não estávamos encontrando uma unicidade para falar sobre ludicidade, sobre quimera, sobre esse realismo fantástico, então resolveu-se falar sobre esse teatro do absurdo e era uma vertente com a qual boa parte da turma se identificava", confirma Catarina Viana, uma das atrizes.
"Nesse processo abortamos diversos textos e optamos por algo que nos desse a possibilidade de fugir do real, do cotidiano. Assim, o texto escolhido foi o de Eugène", comenta Vitória Mota. "Como orientador tenho como missão diagnosticar as possibilidades daquela turma, observar as lideranças e descobrir os talentos. Sou apenas um provocador do processo, para que quando eles saiam do curso tenham liderança, uma maior independência e autonomia no mercado profissional", finaliza o professor-orientador.
Vivências
Como o curso é voltado para o magistério, para formação de um professor em artes cênicas, o curso prepara os alunos para a sala de aula e por isso há poucas cadeiras voltadas para práticas teatrais, se comparadas a um curso técnico.
"Vivemos sempre nesses dois caminhos, de atores e professores. Essa disciplina nos dá a oportunidade de vivenciarmos uma montagem de um espetáculo grande", explica Vitória. "Começamos a entender melhor como funciona o cenário teatral em Fortaleza".

Mais informações:
Espetáculo "A Cantora Careca". Nesta sexta-feira (16) e sábado (17) e nos dias 23 e 24, às 19h, no Porto Iracema das Artes, (R. Dragão do Mar, 160, Praia de Iracema). Gratuito. Contato: (85) 3219.5865

Diário do Nordeste

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