Pesquisadores desenvolvem novo tratamento para tratar lesões da hanseníase

Pesquisadores da Universidade Federal do Ceará desenvolveram um novo método para tratar lesões da hanseníase: uma biomembrana produzida a partir de proteínas vegetais extraídas da planta Calotropis procera (algodeiro-de-seda ou ciúme). A membrana já foi testada clinicamente e chegou a fechar quase completamente feridas abertas há 15 anos.
Ela tem a aparência de um plástico transparente, que adere à pele e promove o fechamento das lesões (por conta do constante estado de inflamação, elas têm dificuldade de se curar sozinhas). A ideia dos pesquisadores é disponibilizar a membrana no sistema público de saúde, já que tratamentos convencionais de cicatrização são caros.

A lesão

Um dos fatores que dificultam a cura da lesão da hanseníase é seu constante estado de inflamação. Isso faz as bordas do ferimento adquirirem forma semelhante à de calos, impedindo o processo de cicatrização do tecido epitelial. A membrana produzida na pesquisa age como um princípio ativo quando aplicada diretamente na pele dos pacientes, quebrando essa barreira e estimulando o processo de recuperação.
O grupo é coordenado pelos professores Márcio V. Ramos, do Programa de Pós-Graduação em Bioquímica, responsável por todas as etapas relacionadas à obtenção da proteína; e Nylane Nunes de Alencar, do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia, que acompanha todas as ações ligadas à área médica.
Essas ações são realizadas no Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM), da UFC, em parceria com a médica Maria Araci Pontes Aires, do Centro Dermatológico Dona Libânia, referência em hanseníase no Estado do Ceará.
No Centro, os pacientes considerados pós-hansênicos (que se curaram, mas ainda apresentam lesões) recebem tratamento apenas para evitar infecções, uma vez que as feridas estão abertas. A rede pública, no entanto, não disponibiliza um tratamento que favorece a cicatrização.
A ideia dos pesquisadores, portanto, é fornecer a biomembrana de forma gratuita pelo Sistema Único de Saúde (SUS), algo que seria viabilizado pela criação de um laboratório totalmente destinado a essa produção. Esse laboratório seria voltado não apenas para tratamento da hanseníase, mas para outras doenças de sequelas semelhantes, como a diabetes.
“Há drogas no mercado que promovem cicatrização, mas com preço inacessível aos pacientes. E quem tem hanseníase geralmente são pessoas pobres”, conta o Prof. Márcio Ramos, coordenador do Laboratório de Plantas Laticíferas, responsável pela extração e caracterização das proteínas ativas.

Tratamento

O estudo teve início ainda em 2013, quando os pesquisadores já haviam constatado o efeito cicatrizante dessas enzimas em modelos animais. Com o início das aplicações em humanos no ano passado, a biomembrana se mostrou igualmente eficiente, com resultados que variavam de acordo com o paciente.
As doutorandas do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia da UFC responsáveis pelo trabalho experimental, Marília Nunes e Tamiris Goebel, explicam que a porcentagem de cura da lesão depende, por vezes, de fatores externos ou de apoio médico. “É preciso acompanhamento de neurologista, ortopedista e até uso de um calçado adequado, por exemplo. Às vezes há pacientes que não cicatrizaram por conta de fatores básicos”, explica Marília.
Naquelas pessoas tratadas que atendiam a necessidades simples, como o exemplo citado, o efeito acelerador da cicatrização ocorreu sem problemas, garantindo a recuperação das lesões nos três meses em que as doutorandas aplicaram a pesquisa.

Princípio Ativo

As proteínas usadas na produção da biomembrana são extraídas do látex da planta Calotropis procera, conhecida popularmente como ciúme ou algodeiro-de-seda, típica de regiões áridas como o Nordeste brasileiro.
Após a extração, essas proteínas são separadas e purificadas. Na UFC, a equipe do grupo de pesquisa de Biotecnologia Molecular de Látex Vegetal já conseguiu aplicá-las em processos que vão da produção de um “queijo vegetariano” até a criação de um produto para depilar couro animal.
No processo de separação, materiais como borracha e compostos secundários são removidos, para que as proteínas possam ser recuperadas, desidratadas e transformadas em pó. Esse pó é homogeneizado em uma solução de álcool polivinílico (PVA) até a formação de um líquido branco, que, quando seca, se torna quase um filme transparente: a biomembrana.
Ao ser colocado na pele em ferida aberta, o filme é progressivamente absorvido e promove a ação cicatrizante. “É uma liberação controlada”, diz a Profª Nylane. “As proteínas vão saindo aos poucos. Quando são aplicados géis, às vezes a pele não absorve, mas isso não ocorre com a membrana.” A pesquisa foi financiada com recursos do Programa de Pesquisa para ao SUS (PPSUS) e da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap).
Com informações da Agência UFC.
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