Belchior - Como o homem e sua obra permanecem, um ano após sua morte

SILVIO RICARDO RIBEIRO / AGÊNCIA ESTADO
Um ano se passou desde a morte de Belchior, numa madrugada de sábado para domingo.
À comoção inicial, porém, seguiu-se o esquecimento habitual em que a trajetória do artista havia deliberadamente mergulhado nos últimos anos, depois de sucessivos episódios novelescos que o atiraram num torvelinho familiar e na precariedade financeira.
Sua vida era tão imensa quanto sua obra, afinal. Disso o desaparecimento súbito era prova.
A palavra é justa para falar de Belchior: esquecimento.
Outra também muito cara: saudade.
E uma terceira: fuga.
Juntas, compõem esse rol de sentimentos em torno dos quais as músicas e os passos do cantor e compositor orbitavam, ajudando a entender por qual geografia amorosa o cearense se deslocava.
Mas outros temas dominaram a sua música.
A voz torta e cortante frequentemente aludia a uma inadequação migrante e à busca por um lugar no mundo, agonias presentes no seu cancioneiro.
Falava ainda dos não raros aperreios com os de casa e ao desejo de alucinação, este não apenas confeito lírico.
Em Belchior, alucinar-se era uma filosofia e uma resistência exercidas na esfera do indivíduo.
De obra essencialmente poética e política, o rapaz latino-americano tinha por norte a desobediência. Jamais fazer o que o mestre mandava. Era o seu evangelho particular. Habitava uma igreja da recusa.
Natural perguntar, então: onde estaria Belchior agora?
Dou um passo adiante: homem de contracorrente, teria subido ao palco da Maloca Dragão, festival que conjuga a revolução como lema, num flerte superficial e episódico com o maio de 1968, mas cujas práticas remontam a um personalismo do arco da velha?
Teria Belchior dito não?
Ou, em surpresa, cantaria somente? No mar da Praia de Iracema, arranharia seus versos e depois enfiaria a viola no saco, como muitos artistas costumam fazer à sombra dos governos?
Não se conhece resposta para nenhuma dessas perguntas.
São dias de “coronelismo ilustrado”.
Um despotismo esclarecido cujo mandonismo cerca-se dos mesmos mecanismos de dominação oligárquico já vistos noutros ciclos do poder no Ceará.
De tempos em tempos, esse poder se renova. Por fora, tem ares de novidade. Por dentro, porém, é muito antigo.
De modo que é difícil extrair qualquer ensinamento da futurologia.
Belchior se foi.
Primeiro, quando desapareceu. Depois, definitivamente. Os mais jovens conheceram seu corpo já sem vida, velado no mesmo Dragão do Mar que é signo ambíguo de um Estado que junta, mas que também aparta.
Lá, no dia seguinte ao da morte, uma segunda-feira, vi milhares de pessoas esperarem numa fila para se despedir do artista. É uma imagem ainda potente: cearenses em procissão para ver e falar uma derradeira vez àquele cuja obra traduzia à perfeição a contingência de sermos pessoas em trânsito constante, resultado um cruzamento de cores e credos.
Desenraizados, víamos de repente no poeta essa árvore de raiz profunda.
Melhor voltar à obra, portanto. É nela que encontramos a chave para o universo de Belchior.
É também uma maneira de reavivar não apenas esse gesto de recusa do poder quando o poder se manifesta feito engrenagem vertical.
E o que nos diz a canção do poeta exato um ano depois de sua partida?
Ensina o que sempre ensinou. Ensina o que não custa lembrar. Lições de arrebatamento e coragem: a entrega alucinada à paixão no dia a dia, o desejo constante de arribar mas levar consigo a areia de nossa terra, o sentimento que une o preto, o pobre, a estudante, o delírio de lidar com as coisas reais.
Hoje precisamos mais de Belchior do que há um ano.
Ouvi-lo com atenção. Não desesperar. E, uma vez ainda, amar.
HENRIQUE ARAÚJO
O Povo

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