Museu da Imagem e do Som tem desafio sob nova gestão de Xico Aragão

por Roberta Souza - Repórter
Xico Aragão: "não é só catalogação, mas recuperação das informações" ( Foto: Fabiane de Paula )
Já não é mais Dilmar Miranda quem está à frente da direção do Museu da Imagem e Som do Ceará (MIS-CE). O professor, que havia substituído o memorialista Nirez em fevereiro de 2015, entregou o cargo de forma silenciosa, em dezembro passado, para cuidar de assuntos pessoais. Antes de sair, porém, ele indicou um nome amigo, que já trabalhava como seu assessor no equipamento da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará (Secult), o mestre em museografia Xico Aragão.
A trajetória do novo gestor não é curta. Funcionário público do Estado há 20 anos, ele chegou a atuar como economista na Secretaria do Trabalho e Ação Social, mas, nos anos 2000, após voltar de um mestrado na Universidade Politécnica da Catalunha, em Barcelona, passou a integrar a equipe técnica da Secult. À época, o secretário da cultura era o jornalista Nilton Almeida. Com a especialização em museografia, foi facilmente lotado para trabalhar no Museu do Ceará.
Somente em 2006 ele migrou para o MIS, onde se encontra até hoje, agora na função de diretor. Xico já assume a gestão com dois grandes desafios: inventariar o acervo e entregar o equipamento - que está passando por reforma física - de volta para a cidade.
"A prioridade é focar no acervo e assegurar a nova casa com pelo menos duas ou três exposições de longa duração", destaca ele, que tem pelo menos os próximos oito meses pela frente, antes da virada de governo. O prédio, situado na avenida Barão de Studart, 410, está temporariamente fechado para restauração. Estimado em 160 mil peças, o acervo foi transferido para uma sede provisória, na Rua Silva Paulet, 324, onde deverá passar por um processo de higienização.
O diretor garante a entrega do prédio restaurado ainda no segundo semestre de 2018, mas não dá nenhum prazo para a apresentação do acervo catalogado e digitalizado como ele pretende. Isso porque, para a primeira ação, há um orçamento de R$ 1,2 milhão garantido - além de outros 13 milhões dedicados à construção de um prédio anexo - mas o segundo ainda carece de parcerias e investimentos.
Desafios
Nesse sentido, Xico avalia que existe muito trabalho pela frente. "E não é só catalogação. Passa pelo inventário a questão da recuperação das informações, de um fundo de informações que justifique a presença daquilo ali dentro. Não está ali por acaso. Está ali porque é de algum modo representativo. Considerando isso, cabe sim pensarmos agora porque é que a gente está mantendo e à custa de quem? Porque a própria estrutura do governo não tem", aponta, mas em seguida reconhece o investimento feito com o restauro.
Para ele, a grande preocupação no momento é se algo se perdeu. "Estamos no momento de abrir as caixas. Precisamos pensar esse acervo como algo que precisa ser recuperado", reconhece.
Isso porque, segundo Xico, "o material sofreu durante muito tempo em condições um pouco inadequadas". O que se propõe é que se tenha pelo menos três microclimas que assegurem a adequação e a conservação desse acervo no novo prédio. "Temos, por exemplo, um registro de áudio do Chico Albuquerque falando sobre a descoberta da luz, o que ele aprendeu com Orson Welles. Mas isso não estava na grande exposição recente que foi feita sobre ele. Temos isso, mas as pessoas não sabem. É necessário que se dê visibilidade ao acervo e perceba que aquilo tem um valor, existe, aquela memória precisa ser compartilhada pra ser eternizada. Ou a gente organiza essa memória ou vai perdê-la".
Parcerias
A clareza na crítica vem acompanhada de estratégias que já estão sendo negociadas. A sugestão imediata da Secretaria de Cultura é que o gestor invista em parcerias e realize projetos que culminem em Editais de Manutenção e Ocupação, lembrando o formato que se aplica ao Teatro Carlos Câmara, ou, para ser mais equânime na comparação, ao Museu do Ceará. "Ou a gente busca essas parcerias ou não sai do canto", enfatiza o diretor.
Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompei Sobrinho, Instituto da Fotografia, Museu do Ceará, Museu de Artes da UFC e Fórum de Cinema e Vídeo são alguns dos parceiros visados por Xico nesse momento de organização inicial. Pelos exemplos deles, o diretor pretende trabalhar.
A Associação de Amigos do MIS, cuja última gestão foi encerrada em 2014, também deve ser retomada pelo novo diretor, que vislumbra nela um potencial de articulação com estes possíveis parceiros. Logo que o MIS retomar as atividades, dois acervos adquiridos durante a gestão de Dilmar Miranda devem ser aproveitados em exposições de longa duração: um de fotos feitas no sertão do Ceará - durante a seca de 1982 - pelo fotógrafo mineiro Sebastião Salgado; e outro de Humberto Teixeira, compositor de Iguatu e parceiro musical de Luiz Gonzaga.
A coleção do cearense é variada e contém duas sanfonas, além de letras e partituras escritas por ele, fotografias, coleção de discos, roupas e outros objetos pessoais adquiridos com a família.
Xico Aragão também aposta num museu mais voltado à experimentação. "O museu é o lugar da experiência. A gente quer que o MIS tenha diálogo com essas novas linguagens, expressões contemporâneos, de videoarte, performance, tecnologia", demonstra.
Já no que diz respeito à estrutura física, a ideia é que seja reinaugurada até o final do ano com espaços expositivos, salas de oficinas para realização de workshops na área de cinema, audiovisual, música, artes visuais, história etc.
O novo edifício, anexo ao prédio, já está com licitação aprovada e as obras serão executadas pela Construtora Porto. O valor é de R$13.371.359,15. Assinado pelo arquiteto português Carvalho Araújo, o novo projeto fica ao lado da casa principal e funcionará como um complemento da mesma, com espaço para shows, cine clubes, auditório, biblioteca, ilha de edição, laboratório fotográfico, salas de pesquisas e consulta de acervo e espaços para exposições. O prazo de entrega, no entanto, é indeterminado.
A intenção é que se dê uma visibilidade maior para aquilo que Xico chama de "Circuito Abolição". "Nós temos ali a vice-coordenadoria do lado, o MIS, o Mausoléu Castelo Branco, uma galeria de arte no Palácio da Abolição, capela. E estamos num local estratégico, na orla. Temos muita visibilidade e potencialidade grande de visitação", acredita. Se os planos vão ser executados nos próximos oito meses e se a política pública de fomento a estes equipamentos culturais vai continuar, só o tempo dirá.
Fique por dentro
Sede provisória do MIS recebe ações culturais
Enquanto ocupa uma sede provisória na Rua Silva Paulet, o Museu da Imagem e do Som busca uma reaproximação com o público. No próximo dia 5 de maio, das 19h às 22h, tem início o Cine Espreguiçadeira, um cine clube com exibição de filmes de longa-metragem da cena cearense de cinema autoral. A referência às espreguiçadeiras se dá em diálogo com os moradores da Avenida Barão de Studart, que na década de 60 tinham o hábito de ficarem em suas calçadas sentados nesse tipo de cadeira para verem o movimento da rua. O evento acontece todos os primeiros sábados de cada mês e é aberto ao público. Também na sede provisória será lançado, no dia 19 de agosto, às 17h, o livro "História da Fotografia do Ceará do século XIX", primeiro publicado pela Editora MIS CE, do escritor e pesquisador Ary Bezerra Leite. Simultaneamente acontecerá a abertura da exposição com fotografias originais do livro.

Diário do Nordeste

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