Na escola de branco, um professor índio

Nascido na aldeia Gameleira, em Canindé, Júnior Kanindé é formado pelo Pitakajá (UFC) e está habilitado a ensinar disciplinas como história, matemática, português e ciências humanas
Transmitir conhecimentos e práticas sobre espiritualidade, crença, cultura, geografia, modo de vida, canto, dança e pintura dos kanindé é uma das atribuições do professor Antônio Saraiva Gomes, 32 anos, o Júnior Kanindé. As aulas têm ainda maior importância pelo cenário: uma "escola de branco" no Centro do município de Canindé.
Na Escola de Ensino Médio em Tempo Integral Capelão Frei Orlando, a oferta da disciplina eletiva (opcional) "História, cultura afro-brasileira e indígena em Canindé" atraiu 30 alunos do 1º e 2º ano, muitos sequer tinham conhecimento da etnia Kanindé na região.
"É muito diferente de eles pegarem um livro, que retrata o indígena nu e apenas dentro da tribo. O professor está quebrando esse estereótipo, mostrando que o índio faz parte da nossa vida. E isso é muito positivo, esse conhecimento diferenciado dos nossos alunos", afirma a diretora Idayana Bezerra.

Formado na primeira turma Pitakajá (UFC), em 2016, Júnior tem oito anos de experiência e

m magistério indígena. Por isso, pesquisou, no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), as visões do índio e do branco sobre a escola diferenciada. "Parti do princípio que nasci índio, vivi como índio, mas não estudei como índio. Entrevistei índios, brancos, professores, diretores. Cheguei a esta conclusão: os brancos acreditam que os índios existem, mas não acreditam na escola indígena. E acabam não deixando o filho estudar lá. A visão que o povo lá fora tem da escola indígena é de não acreditar que a gente ensina".
Nas funções atuais, o professor consegue desmistificar essa conclusão, vivenciando os dois modelos: ensina matemática para uma turma de EJA na Escola Diferenciada Manuel Francisco dos Santos, em Aratuba, e história e geografia para o 1° ano da Capelão Frei Orlando, além de três eletivas.

Herança
Quando foi aprovado na escola regular, Júnior disse que sua mãe questionou se deveria mesmo aceitar o desafio. E a resposta foi: "Mãe, a senhora sempre me disse que o que tinha pra deixar para mim como herança era o estudo. Então, como é que a senhora não quer que eu vá trabalhar numa escola de ensino regular por ser algo novo pra mim? Eu não estudei para ensinar somente a índio, estudei para ensinar o branco, o índio, o negro, estamos aqui para disseminar a nossa cultura e aprender com a cultura do outro".
Embora a disciplina esteja ainda na primeira turma (a eletiva dura um semestre), Júnior parece estar trilhando o caminho certo. Mescla aulas teóricas e práticas. A ideia é levar lideranças do povo kanindé à escola, e os alunos às aldeias.
Antes mesmo que a prática se concretize, Roque Pereira, 15 anos, do 1º. Ano, afirma: "Optei por fazer essa disciplina para que eu possa saber mais sobre essa cultura tão rica. O professor tem uma competência enorme. Tinha minhas dúvidas, questão da pintura, dança, e tudo isso ele está expondo, como fazem a religião deles, a adoração. Estou aprendendo bastante".
Diário do Nordeste

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