'Severina' fala sobre amor e mistério em universo de paixão pela literatura

Thales de Menezes
SÃO PAULO

“Severina”, que estreia nos cinemas nesta quinta (12), é uma declaração de amor aos livros. Carla Quevedo, atriz argentina que interpreta Ana, principal personagem feminina, concorda. Seu conterrâneo e também protagonista, Javier Drolas, acredita que o filme é uma visão muito particular do gênero da comédia romântica.
O brasileiro Felipe Hirsch, que rodou no Uruguai essa adaptação do romance do escritor guatemalteco Rodrigo Rey Rosa, pensou muito sobre a singularidade de fazer um filme aparentemente não político num momento de sua trajetória no teatro e no cinema totalmente imerso em questões sociopolíticas da América Latina.
“Fiz um filme só sobre o amor. Bem, como se falar só sobre o amor fosse pouca coisa”, diz Hirsch à Folha. “A ideia desse filme ficou muito tempo comigo, até que percebi que gostaria de fazer um filme fora do Zeitgeist.”
Difícil saber se ele realmente conseguiu se distanciar do “espírito de sua época”, tradução possível para esse termo alemão. “Severina” tem um evidente caráter atemporal, poderia ser lançado em 1978 exatamente como foi rodado. Mas esbarra em questões pertinentes em 2018.
“Algumas discussões se encaixam hoje”, diz Hirsch. “Como o fim das livrarias de rua, talvez uma América Latina que já não existe mais. Também o debate que compara as memórias mais digitais às memórias analógicas. Mas é um filme de amor.”
LADRA SEDUTORA
“Severina” mostra o envolvimento de um livreiro (Drolas) com uma garota que vai até sua loja roubar livros de forma sistemática. Ele percebe, mas deixa que ela continue fazendo isso porque fica encantado por Ana.
A aproximação dos dois é turbulenta. Ele descobrirá que ela vive com um homem mais velho, que pode ser seu pai ou seu amante, e que o hábito de roubar volumes é um exercício que Ana repete em várias livrarias da cidade. Em cada uma, deixa um livreiro enamorado.
“Não sei se ela se apaixona por eles”, questiona Carla. “Discuti muito com Javier e Felipe se Ana é consciente de seu poder de sedução. Creio que construí a personagem a partir dessa ideia de um jogo. Talvez sua motivação seja a adrenalina de estar roubando os livros e saber que aqueles homens percebem o que ela está fazendo.”
Para Drolas, o mistério sobre a personagem conduz o filme. Carla gosta da proposta de não buscar justificativas, de não intelectualizar demais a ação de Ana. “Talvez ela queira apenas continuar essa história, talvez esteja imitando as heroínas de tantos livros que rouba, buscando uma nova aventura.”
Hirsch nunca tinha trabalhado com a atriz. Carla conta que ele gostou de seu desempenho na série da HBO “Show Me a Hero”. Ela vive há oito anos nos Estados Unidos. Os brasileiros podem se lembrar dela, muito jovem, num papel no vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 2010, “O Segredo dos Seus Olhos”.
Drolas, do argentino “Medianeras” (2011), teve um papel em “A Menina Sem Qualidades”, série que Hirsch dirigiu para a MTV, em 2013, e voltou a trabalhar com o diretor em peças recentes. É o período que Hirsch define como fase de abordar questões sociopolíticas claras, como as montagens da tetralogia “Puzzle” e “A Tragédia e a Comédia Latino-Americana.”
“Eu escrevi uma série com 20 escritores da América Latina, que está inédita. Fiquei próximo desses autores e um deles foi o Rodrigo Rey Rosa. Roberto Bolaño o considerava um gênio. Ele se tornou uma espécie de autor dos autores”, conta Hirsch.
SEGUNDA OPÇÃO
Apesar desse relacionamento com artistas latino-americanos, a opção de rodar um filme no Uruguai, falado em espanhol, foi circunstancial. “Severina” seria rodado em português, com atores brasileiros, em Porto Alegre. Para o diretor, a cidade ainda tem o cenário necessário para a história, com livrarias de rua. “Cada vez menos, mas ainda estão lá”, ressalta.
Investidores desistiram do projeto e ele precisou cancelar tudo. O produtor brasileiro Rodrigo Teixeira, do bem-sucedido “Me Chame pelo Seu Nome”, chegou a ele com a chance de coprodução com a uruguaia Oriental Filmes. Veio então a reformulação do projeto para Montevidéu.
A livraria do filme era uma farmácia. “Não me pergunte como, mas meu diretor de arte, Gonzalo Delgado, colocou 30 mil livros lá dentro. O lugar se revitalizou e agora é um café, que se chama Farmacia”, conta Hirsch.
Todos os envolvidos na produção parecem compartilhar a paixão pelos livros. “São meus companheiros”, diz Drolas, 46. “É muito difícil que eu vá dormir sem ler alguma coisa.” 
Carla Quevedo, 29, mudou de apartamento várias vezes desde que se mudou para os  Estados Unidos. “Nessas mudanças, percebi que os livros são meu único patrimônio pessoal. Tenho uma relação obsessiva com eles.”
Fonte: F. São Paulo

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