Viúvo, 82 anos, se forma em filosofia: “Queria saber aonde foi a alma de Ângela”

Ele perdeu a esposa depois de 52 anos de vida juntos. "Fiquei devastado. Eu precisava de respostas: o que nos espera depois da morte?"

ITALO SPINELLI
Ele acaba de receber o seu diploma universitário, aos 82 anos de idade. E foi uma preocupação dilacerante o que levou Ítalo Spinelli, após toda uma vida na indústria italiana, a recorrer ao estudo da filosofia.
“Minha esposa Ângela morreu em julho de 2014, depois de 52 anos de vida juntos. Os primeiros dias foram terríveis. Fiquei devastado. Eu precisava de respostas, precisava encontrar um jeito de seguir em frente. O que nos espera depois da morte?”
Não foi um estudo solitário, pessoal, ocasional: foi com matrícula e tudo, na Universidade de Macerata. Ele escolheu essa universidade italiana pela possibilidade de acompanhar os cursos via internet, sem a obrigação da presença física no local. E Ítalo foi até o fim, enfrentando todos os exames e apresentando a sua tese sobre o grande filósofo e diplomata inglês Tomás Moro, autor da célebre “Utopia”, assassinado em 1535 por se recusar a ceder aos caprichos despóticos do rei apóstata Henrique VIII e canonizado como mártir pela Igreja católica em 1935, quatrocentos anos depois de ser morto por fidelidade à sua fé e à sua consciência.

A morte de Ângela

“Um câncer de pulmão, dos piores, a levou embora em poucos meses, depois de 52 anos juntos. Foi ela quem sempre me apoiou, com amor e até no sentido material, inclusive em momentos difíceis, que houve vários. Daquele dia em diante eu comecei a me perguntar: ‘Será que vou vê-la de novo?’, ‘Onde é que ela foi parar?’. E mais ainda: ‘Temos mesmo uma alma?’. Em suma, eu tinha que encontrar uma resposta para a morte da minha esposa”.

As dúvidas e as certezas renovadas

“Primeiro eu perguntei a um padre se era ‘perigoso’ estudar filosofia. Ele me disse para ficar tranquilo, que muitos teólogos da Igreja eram filósofos. Depois desses anos de estudo eu percebi que a filosofia é mesmo ‘perigosa’, porque, muitas vezes, ela se choca com a teologia. Todo mundo tem uma opinião diferente e discordante dos outros. Eu prefiro acreditar na possibilidade da imortalidade da alma. Eu quero reencontrar a minha esposa, mesmo que ninguém possa me dar certeza. Mas permanece a esperança: eu quero acreditar e por isso acredito”.
Ítalo prossegue:
“A alma vive. Eu acredito e penso como Pascal, o filósofo de quem me sinto mais próximo porque acho a aposta dele realmente brilhante. O raciocínio dele leva à conclusão de que é melhor acreditar em Deus: se Ele existe, eu consigo a salvação e vivi uma existência feliz em comparação com a consciência de acabar no pó”.
“Também tenho afinidade com Gardner, o primeiro filósofo que estudei depois da morte da minha esposa, e com Tomás de Aquino, que tentava demonstrar cientificamente a imortalidade da alma. E eles me convenceram mais ainda na minha oposição à eutanásia”.

Um exemplo para todos

Ítalo foi perseverante não apenas para se formar, mas principalmente para buscar respostas a uma questão existencial tão intensamente significativa. Se todos procurássemos aprofundar as nossas perguntas com a mesma constância, a nossa fé seria muito mais consciente e embasada.
Ele teve o desejo e a coragem de ir a fundo em uma das questões supremas da vida humana: a morte e a alma; e a sua busca não foi feita apenas como mero exercício intelectual, mas como necessidade vital.
“Em Macerata eu encontrei um ambiente entusiasmante, tanto com os alunos quanto com os professores. Um deles me disse, depois de um exame: ‘Ensinou mais coisas o senhor para nós do que nós ao senhor'”.
Disso não temos dúvida.
Aleteia

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