Em "Grande Hotel Abismo", Stuart Jeffries biografa, de forma acessível, a Escola de Frankfurt

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Como permanecer marxista num mundo que não seguiu as previsões de Marx? Foi essa inquietação, especialmente depois do fracasso da revolução na Alemanha em 1919, que levou à fundação do Instituto de Pesquisa Social, conhecido como a Escola de Frankfurt.
É a história desse instituto que Stuart Jeffries conta em "Grande Hotel Abismo". Nele, acompanhamos a vida e as ideias de seus principais pensadores: Max Horkheimer, Adorno, Walter Benjamin, Marcuse e Habermas.
Sob a direção de Horkheimer, a escola se desviou do marxismo clássico e perdeu o foco exclusivo na economia, passando a estudar a cultura - fosse em seu impacto na sociedade e na mente, fosse para tentar explicar como a história se desviou do curso previsto pelo marxismo clássico. Estava criada a teoria crítica, e seus proponentes se dedicariam ao longo de suas carreiras a isso: criticar.
Jeffries não é acadêmico, e sim um jornalista que traz o olhar do leitor interessado, mas não do especialista -bem como suas próprias críticas -, para autores usualmente restritos à academia. Ao longo de toda a obra, paira uma acusação que ele busca responder: a extrema direita contemporânea vê a Escola de Frankfurt como a grande artífice da destruição do Ocidente pela via da cultura.
Contra o fantasma conspiratório, fica claro o caráter desunido e antagônico dos pesquisadores da escola.
De um lado, temos Adorno, conservador que tinha ojeriza ao jazz (música impotente e alienante), valorizava a família (um esteio contra o totalitarismo) e temia a violência anárquica das revoltas estudantis de 1968 - chegou a ligar para a polícia quando manifestantes invadiram sua sala.
Do outro, Marcuse, que via na emancipação sexual uma chave para a revolução e aderiu aos protestos libertadores.
Para um mundo em constante transformação, as ideias têm que mudar também.
Dos anos 1960 em diante, Jurgen Habermas passou a dar o tom da escola, ao valorizar a democracia e o espaço público de troca de ideias como conquistas burguesas essenciais para qualquer projeto emancipatório e que precisam ser protegidas de forças da política e do mercado.
Ao final, ficamos com um grupo de intelectuais idiossincráticos lutando com instrumentos teóricos de outra era para encaixar ideias numa realidade que impunha resistência e não raro os perseguia.
Nessa tarefa foram capazes tanto de equívocos monstruosos e às vezes patéticos quanto de insights sobre os mecanismos psicológicos e culturais que ajudam na preservação do status quo.
O principal mérito do livro é reproduzir de maneira leve e bem-humorada o pensamento de autores cujos textos são áridos e recheados de jargão.
Além disso, a narrativa biográfica deles, repleta de adversidades - a fuga do nazismo, o suicídio trágico de Benjamin em 1940, os percalços nas revoltas estudantis - traz à tona o lado humano de cada um, enterrando os delírios conspiratórios.
Não foram os criadores da cultura contemporânea, e sim andarilhos desnorteados tateando seu rumo. Muito do que escreveram já envelheceu, bem como o pressupostos marxistas e freudianos de muitas análises, mas não deixa de ser rico acompanhar o desenvolvimento de uma linha de pensamento e sua aplicação a temas e momentos do conturbado século 20.
Tiveram, ademais, a grandeza de jamais compactuar com os regimes de terror que brandiam o nome de Marx; ao contrário, em diversas ocasiões cooperaram e defenderam o Estado americano.
Graças a Jeffries, a trajetória - por vezes trágica- desses intelectuais corre com interesse e bom humor, tornando-se acessível a um público maior.
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Diário do Nordeste

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