Centenário de Antonio Candido é marcado por exposição de seu acervo

por Adriana Martins - Editora assistente
Antonio Candido
Falecido aos 98 anos, Antonio Candido testemunhou muitas transformações sociopolíticas no Brasil
Há exatamente 100 anos nascia uma das figuras mais importantes para a literatura, o pensamento e a educação no Brasil. Em 24 de julho de 1918, Antonio Candido de Mello e Souza veio ao mundo no Rio de Janeiro, insuspeito do peso que sua presença teria, nas décadas seguintes, para o campo intelectual no País.
 
Sociólogo, crítico literário e professor universitário, é autor de uma obra extensa e ainda hoje considerada referência, por seu caráter dialógico com outros campos do saber. Seus estudos em Sociologia, alinhados a uma formação humanista, permitiram-lhe construir um olhar mais abrangente e aberto a respeito da formação literária nacional, resultando em um legado fundamental para o entendimento da mesma.
Nesse sentido, Antonio Candido antecipou a interdisciplinaridade para compreender a literatura como expressão da cultura brasileira. Sua biografia inclui ainda uma forte atuação como militante, sendo um dos precursores do socialismo democrático no Brasil.
Seu nome assina trabalhos seminais como "Formação da Literatura Brasileira", lançado em 1959, e a criação do Suplemento Literário no jornal O Estado de S. Paulo, caderno publicado entre 1956 e 1966 considerado um marco no campo da crítica. A preocupação em preservar esse legado foi o que levou a família de Antonio Candido a doar seu acervo - juntamente com o de sua esposa, a filósofa, crítica literária, ensaísta e professora Gilda de Mello e Souza - ao Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP).
Ocupação
Com o objetivo de organizar e tratar esse material, a doação ocorreu associada a uma parceria da família com o Itaú Cultural (braço social do Itaú Unibanco). A entidade patrocina o trabalho técnico necessário para disponibilizar a coleção ao público. A iniciativa também rendeu a Ocupação Antonio Candido, exposição montada na sede do Itaú Cultural, em São Paulo, que segue em cartaz até 12 de agosto deste ano.
No mês de abertura, em maio, a ocupação foi destaque no Caderno 3 (edição de 2 de junho). Por meio de anotações, manuscritos, datiloscritos, documentos pessoais, cadernos de estudos, textos revisados (mesmo depois de publicados), fotos e vídeos com entrevistas e depoimentos, a exposição apresenta, em primeira pessoa, diferentes facetas do autor e seu processo criativo - de que maneira planejava suas atividades, como retornava, corrigia, reelaborava raciocínios anteriores.
Na ocasião da visita, houve a oportunidade de conversar com Laura Escorel, neta de Antonio Candido e Gilda de Melo e Souza e uma das responsáveis pela curadoria, junto com as equipes dos núcleos de Audiovisual e Literatura e da Enciclopédia do Itaú Cultural.
"É um acervo muito grande, são cerca de cinco mil fotografias e 45 mil itens de acervo textual, além dos itens de acervo museológico e do acervo audiovisual. Isso tudo compõe o acervo de Antonio Candido e Gilda de Mello e Souza, mas nessa ocupação estamos trabalhando apenas com os itens do acervo dele", explicou Laura.
Segundo a pesquisadora, o processo de curadoria deu-se a partir de um mapeamento inicial empreendido por ela própria na residência do casal - "uma listagem de todos os itens, ambiente por ambiente da casa, móvel por móvel, descrevendo cada uma das pastas. A partir disse a equipe do Itaú Cultural fez uma seleção de itens, baseada no texto-ensaio 'O Direito à Literatura' (um dos mais famosos de Antonio Candido). Ele foi originalmente como palestra para um evento da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, em 1988, ano da promulgação da Constituição. Depois foi publicado no livro 'Vários Escritos'. Tomamos esse texto como inspiração dado o momento político crítico que vivemos no Brasil", justificou.
"A partir da seleção desse texto procuramos apresentar três aspectos fundamentais da personalidade de Antonio Candido suas atividades como intelectual, educador e militante. Procuramos selecionar do acervo documentos que pudessem trazer ao grande público esses aspectos. Paralelamente, fui sugerindo coisas pontuais à equipe, como as fotografias 3x4, que retratavam todos os períodos da vida dele; as fotografias de parceiros do Rio Bonito, tiradas por ele mesmo; os livros com dedicatórias de grandes autores, que eu tinha em casa; depoimentos que ele tinha me dado para minha pesquisa, que também não estavam no acervo doado ao IEB", contabilizou Laura.
Planos
Ainda segundo Laura, o trabalho de preservação do acervo, iniciado no IEB-USP em abril deste ano, encontra-se em estágio inicial. Mas a ideia é que ele termine até dezembro de 2019, para que então todo o material possa ser disponibilizado ao público. "É um período bastante curto para tratamento de acervos públicos no Brasil. Em geral, quando acervos pessoais de grandes intelectuais chegam às instituições públicas, levam muitas décadas para serem tratados do começo ao fim. O que procuramos fazer com essa iniciativa de buscar apoio da iniciativa privada foi acelerar esse processo de tratamento técnico", pontua.
A pesquisadora entende a urgência deste acesso e a importância da Ocupação como estratégia de levantar um debate a respeito dos pensadores no Brasil, "a respeito dos humanistas, a respeito do caminho que estamos tomando. O que procuramos fazer aqui é estimular uma cultura de memória, procurar estimular nas pessoas um interesse sobre o passado que os permita ter uma visão crítica sobre o presente e construir perspectivas pro futuro", observa.
"Quando tratamos de acervos pessoas, a ideia é que possamos investigar a história oficial sob outra perspectiva, porque acervos pessoais trazem dados às vezes conflitantes com o que diz essa história. Então acho que é importante a análise desse tipo de acervo, ela nos traz uma dimensão crítica", completa.
Diário do Nordeste

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