A voz das raízes


O pernambucano Paulo Neto investe em suas próprias composições, em seu segundo disco, "Rosário de Balas"

por Pedro Antunes - Agência Estado
Ele recita a frase de avó com tamanho carinho que é possível sentir um afago quase físico. O talento de intérprete, o seu ofício principal no início de carreira, carrega a voz de Paulo Neto para um local especial no qual as palavras encorajadoras ditas por Dona Cleonice para que ele deixasse Condado, município de Pernambuco localizado a 58 km da capital, em direção a São Paulo. "Ela me disse: 'Você precisa viver a sua carreira enquanto tem juventude e saúde. A única coisa certa que você tem é a sua casa'", recita o músico, vagarosamente, imerso nas lembranças. "Isso, essa frase, foi tão importante para mim".
Neto, cujo primeiro nome veio em homenagem ao avô, esposo de Dona Cleonice, decidiu seguir os conselhos que ouviu, trilhou seu próprio caminho. E rumou para São Paulo, em junho de 2008. "E minha avó morreu assim que cheguei aqui", diz ele. "Ela era minha melhor amiga, minha empresária. E dizia: 'Aqui já deu para você'".
Todo fim de ano, Paulo Neto voltava a Condado, para se reencontrar com suas raízes, familiares e amigos que por lá ficaram. Em 2015, chegou com o disco de estreia, "Dois Animais na Selva Suja da Rua", um álbum de intérprete, sua então principal função, com regravações de músicas de Belchior ("Tudo outra Vez"), Odair José ("Eu Vou Tirar Você Desse Lugar") e Taiguara (na faixa que dá nome ao álbum).
"Quando cheguei em Condado para mostrar o trabalho, muitas pessoas não entenderam", lembra Paulo Neto. "Gravei artistas com personalidades diferentes, de filosofias das quais as pessoas que eu conhecia ali não estavam familiarizadas. Ficou intelectual. Lembro de um amigo dizer: 'não entendo o que você quer passar com esse disco, com esse título'. Isso me marcou muito". Daí a virada de "Rosário de Balas", o novo álbum de um artista mais completo. Agora, cantor e compositor. Agora, exposto. Agora, diretamente ligado às raízes e ao que ouvia na radiola da vizinha, a Dona Biú. "Queria fazer com que meu disco se comunicasse com essas pessoas, entende?", explica.
Foi assim que ele explicou o que queria a Rodrigo Campos, produtor do álbum e alguém que passou por esse mesmo processo, essa tentativa de se conectar com o lugar de onde veio. No caso de Campos, a ideia era se aproximar de São Mateus. "Não É Um Lugar Assim Tão Longe", o álbum solo de estreia dele, lançado em 2009. Para Rodrigo, Paulo disse: "Se esse disco não for entendido pela minha vizinha, ele não me serve", ele diz, rindo. Rodrigo, lembra Paulo, colocou o dedo na barba e assentiu a compreender o conceito do álbum.
"Rosário de Rosas", lançado nas plataformas digitais e em formato físico em 2017, pela YB Music e Selo Circus, ganha seu show de estreia nesta sexta-feira, 12, no teatro do Sesc Pompeia, com uma banda invejável e particularmente inserida na cena paulistana de reinvenção da musicalidade regional, seja ela de onde for: Rodrigo (guitarra, violão e cavaco), Allen Alencar (guitarra), Marcelo Cabral (baixo), Dante Ozzetti (violão), Thomas Harres (bateria), Maurício Badé (percussão), Thomas Rohrer (rabeca), Dustan Gallas (Hammond e Rhodes) e Lulinha Alencar (acordeon).
disco
Sonho e realidade
A princípio, aliás, Rosário de Balas - título encontrado em um sonho de Paulo -, seria um álbum de intérprete. "Eu e Rodrigo passamos a buscar alguns compositores", conta Paulo. De agenda cheia, Rodrigo se ausentou do processo por algum tempo, para gravar um álbum próprio e o de Elza Soares (o estupendo "A Mulher do Fim do Mundo").
"Eu disse a ele que não havia pressa. Era um disco que não existia ainda", conta. "Mas passei a compor". Celso Sim assina a direção artística de "Rosário de Balas" e auxiliou Paulo a encontrar a linguagem desejada durante a ausência de Rodrigo Campos.
"Quando vi, estava fazendo canções nesse ambiente mais popularesco", conta Paulo. No fim de 2015, Paulo Neto voltou a Condado para se reconectar com suas raízes e, ali, buscar o restante do quebra-cabeça que era Rosário de Balas para si. Do avô, caminhoneiro e cordelista Paulo Silveira, ganhou "Bota Água na Roseira", a qual gravou e colocou no disco. Quando ouviu a versão do neto, caiu no choro. "Eu entendi que estava no caminho certo".

Diário do Nordeste

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