Padre Geovane Saraiva*
O acontecimento maior da nossa fé tem seu eixo na liturgia da Semana Santa, ocasião em que os cristãos meditam e entram em cheio na paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, no que diz Antoine de Saint-Exupéry: “O essencial é invisível aos olhos” e que só se vê bem com o coração, manifestado no despojamento e no aniquilamento do Servo de Javé, rei humilde e obediente (cf. Is 52, 13-53), até a morte e morte na cruz. O Papa Francisco falou no início destes dias sagrados e nos eventos que ocorreram nos dois últimos dias da vida de Jesus, suplicando aos que o escutavam e nós cristãos: “pensem muito sobre a quem se assemelham mais, àqueles que ajudaram Jesus ou àqueles que o condenaram, traíram ou eram indiferentes ao seu destino”.
Páscoa é ir ao encontro da vida, distanciando-se da morte, evidenciada na vitória e no milagre da vida a partir do duro contexto da morte. A Igreja sempre dar uma grande importância à simbologia do fogo, na luz do Círio Pascal, luz que nasce das trevas, sinal do Senhor ressuscitado, da vitória diante da angústia da morte. O fogo como sinal da presença de Deus no decorrer da história. A luz é a própria vida, pela presença do Cristo Jesus, trazendo vida à criatura humana, no “duelo forte e mais forte, na vida que vence a morte”.
Não podemos jamais esquecer a água como símbolo da vida, porque dela as pessoas renascem no batismo para a vida do mundo (cf. Jo 3, 1-7), levando-nos a compreender que a vida é duradoura e que participamos do ponto mais elevado, não da vida de um herói, mas fomos mergulhados na vida do próprio Filho de Deus, razão pela qual vivemos, constantemente convidados a sonhar com a glória futura, na feliz afirmação do refrão do Salmo responsorial: “Este dia que Senhor fez para nós, alegremo-nos e nele exultemos”.
A esperança é a grande oportunidade para a criatura humana assumir uma vida nova, uma vida diferente. Na Igreja, “memória”, “presença” e “profecia” são trinômio que só se compreende a partir da Páscoa, tendo o Senhor ressuscitado como o centro, o qual nos encoraja e nos enche de alegria e uma vez conquistada, jamais podemos perdê-la, tendo diante dos olhos, mente e coração o pensamento de Miguel Cervantes: “Quem perde seus bens, perde muito; quem perde um amigo, perde mais; mas quem perde a coragem, perde tudo”.
A Páscoa deve ser um processo que se realiza e acontece através do compromisso ético, na ação pastoral, no trabalho, no convívio social e nas mais diferenciadas atividades das pessoas de fé e que acreditam no futuro da humanidade e que “O Cristo, Nossa Páscoa”, com toda sua força, renova e fecunda a face da terra. A liturgia da Páscoa (Vigília Pascal), no dizer de Santo Agostinho, é a “Mãe de todas as celebrações” que, com seus ritos antigos, com toda sua beleza, sua profundidade poética e, ao mesmo tempo profética, deve nos estimular e desafiar. Ficarmos só no rito, seria muito triste ao coração de Deus.
A Páscoa deve ser um grito, um clamor, um anúncio e a proclamação, numa só fé, da busca de um mundo novo que tem seu início na esperança e no amor de Deus, exigindo da pessoa humana realização da vida. Quando teremos uma Igreja verdadeiramente marcada pela esperança, com um rosto pascal? Somos desafiados a construir esta Igreja, associados ao Papa Francisco, pela força e graça, que nasce da Páscoa. Assim seja!
*Padre da Arquidiocese de Fortaleza, escritor, colunista, blogueiro, membro da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza, da Academia de Letras dos Municípios do Estado Ceará (ALMECE) e Vice-Presidente da Previdência Sacerdotal - Pároco de Santo Afonso -geovanesaraiva@gmail.com
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