O encantamento me oferece uma certeza: esta é uma manhã de abril.
Seria eu capaz mesmo de identificar uma manhã de abril entre tantas?
Por Luís Giffoni*
Ao abrir a janela do quarto, a manhã me pegou pelo pé. Nenhuma nuvem, sol sem a brasa do verão, brisa de mar no vento, a Serra do Curral a esbanjar o verde do capim-gordura, sabiá cantando em surdina, para ele mesmo, sem a preocupação de esgoelar toda a gama de trinados para os filhotes (a esta altura já bem crescidos). Até um rabo-em-pé me surpreendeu com uma suave melodia, escondido no meio da folhagem de um coqueiro. Desconhecia essa habilidade do pássaro. A goiabeira despenca os frutos bem maduros. Estão cheios de bichos. Bicho de goiaba goiaba é, relembro a infância. O pé de manacá exala o perfume das derradeiras flores.
O encantamento me oferece uma certeza: esta é uma manhã de abril. Constatação idiota. Claro que é, pois estamos em abril. Basta abrir o computador ou olhar o calendário. Acontece que a questão vai além. Dentro de mim, sei que é uma manhã de abril. Nunca de junho ou de novembro. Em outras palavras, se me fossem dadas doze manhãs oriundas de todo o ano, eu escolheria exatamente esta para designar o mês.
Aqui começou o meu problema. Sem que desconfiasse, insolúvel. Nó cego. Na cabeça e na física. Seria eu capaz mesmo de identificar uma manhã de abril entre tantas? Como colocar diante de mim doze manhãs diferentes, uma de cada mês, para testar meu talento? Equivaleria a estar, ao mesmo tempo, em doze tempos diferentes. Com agravantes. Imagine que eu decida comparar esta manhã com outra semelhante, ocorrida em janeiro, num dia menos quente. A confusão está armada. Os físicos dirão que a seta do tempo corre para o futuro, nunca para trás. Uma vez abril, nunca mais janeiro. Dura verdade, duríssima. Por causa dela, perdi de vez a esperança de um dia desses acordar com dezoito anos. Conheço gente que ainda não se convenceu da realidade. Pós, cremes, tinturas não são máquinas do tempo. Quando muito, borram o dia.
Uma hipótese me salva: e se eu comparasse com uma manhã de janeiro do ano que vem? Nesse caso, o sentido da seta do tempo não seria comprometido. Quanta idiotice... Até parece que alguém conseguiria, neste momento, trazer novembro, dezembro ou janeiro para o presente.
A discussão, contudo, insiste em minha cabeça. Fico desnorteado. Não tenho um problema, mas um não-problema em mãos, porém me agarro a ele, transformo-o em bicho-papão. Seria resultado da intoxicação com tanta beleza matinal? Os ares andam tão irrespiráveis no Brasil que uma brisa fria e despoluída me provoca tamanho devaneio. Ou me acomete de crise aguda de non-sense. Olho uma borboleta azul que experimenta umas rosas cor-de-rosa, sem se dar conta de que nosso país existe. Ela só aparece nesta época do ano. Sim, é abril. Sei que é abril. Alguém duvida?
* Luís Giffoni tem 25 livros publicados, entre romances, contos, crônicas, ensaio e histórias para jovens. Recebeu diversas premiações como do Prêmio Jabuti de Romance, da APCA - Associação Paulista de Críticos de Arte, Prêmio Minas de Cultura, Prêmio Nacional de Romance Cidade de Belo Horizonte. Sua peça In Memoriam foi encenada pelo Oficinão do Grupo Galpão. Mora em BH.