27 de janeiro de 2023

A vida em melhores mãos

 Pe. Geovane Saraiva*

A esperança vai além do otimismo e do encantamento, comum e normal, tendo a visão de criaturas humanas iluminadas, quando simplesmente se aguarda e se espera coisas melhores. Essa compreensão ou concepção alegre pode encontrar sua origem motivadora no comportamento otimista, numa exuberante confiança, mas, por vezes, num comedimento, autodomínio ou compostura superficial.

A verdadeira esperança encontra seu cerne, quando se vislumbra garantia de respeito para com a vida, em toda sua profundeza, tendo como fundamento, o absoluto, o mundo restaurado e pacificado, na promessa de Deus, pelo mistério indizível da ressurreição de Cristo. Que cada leitor possa refletir sobre a esperança verdadeira, não fruto do próprio esforça humano, mas no dom do Espirito de Deus, tendo sua perceptível consistência num projeto de paz, num entranhamento íntimo e sereno, firmemente inclinado aos bens futuros, apesar de tudo que se possa acontecer. Também quando se assume combater toda e qualquer pessimismo.

A esperança quer ser, de outro modo, a capacidade das pessoas nunca se tornarem amarguradas e rancorosas, na mais irrestrita confiança de que a vida da criatura tem sua razão existencial, colocada nas mãos de Deus. Significa esperar, igualmente, na convicção de que a vida deste mundo, a partir das melhores mãos, querendo Deus o bem de cada pessoa humana e o bem de todos. Esperança, sim, na qual brilha o sol verdadeiro, com todo seu esplendor, penetrado dentro em nós, pelo Espírito  Santo de Deus, no seu resplandecente fulgor.

 A fé pede fascínio e encantamento, pede coragem e confiança. Pede expulsão da indiferença displicente e distraída. A fé consequente se traduz em amor, terno e ardoroso, num amor muito verdadeiro, ao alavancar e proporcionar paz, simplesmente extasiado, por acreditar e esperar, em um Deus que quer o bem-estar e regozijo de todos e cada um, com a vida em melhores mãos. Sustentados pela esperança e despojados de tudo que não convém, no sonho da luminosidade da glória do Pai, na Luz que a todos ilumina, Luz como fonte da vida, mais do que o dia, todo iluminado!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

22 de janeiro de 2023

Galileia dos pagãos nos Yanomamis

Pe. Geovane Saraiva*

Em um mundo dilacerado, machucado e bombardeado por todos os lados, contemplemos Jesus de Nazaré, vindo da origem de Deus, com seu registro bem definido na história, de dentro da intimidade do Pai, em seu inefável mistério de amor, não sendo mito, nem muito menos qualquer figura ou adereço. Ele é, sim, uma realidade misteriosa a envolver o mundo, a envolver a todos como seus leais amigos. Segundo o Apóstolo dos Gentios, Deus agora nos fala por meio do seu Filho.

É Deus nos chamando, nos convocando, não uma única vez na vida. Seus chamados se renovam constantemente, cada vez mais urgentes e exigentes, não se tratando só do seguimento de Jesus, mas, consequentemente, através de um convite para sermos “pescadores de homens”. Vemos a resposta imediata de Simão e André, de Tiago e João, enriquecida pelo generoso abandono das redes, da barca e até mesmo dos familiares.

Assim devem ser ouvidos, ou escutados, os chamados de Deus, que de diversos modos se manifesta, seja nos grandes chamados, como também em circunstâncias de humilde convocações, pelos quais se manifesta a voz de Deus, em situações e conjunturas concretas da vida cotidiana ou sob a forma de impulso interior, pedindo generosidade, renúncia e sacrifício.

Tudo a partir do contexto, no qual Jesus de Nazaré, como na profecia de Isaías, convertida e tornada realidade, é a luz fulgurante a iluminar a Galileia dos pagãos e depois a se difundir por todo o mundo. É o início de sua missão, na fidelidade ao Pai, pela escolha da vocação dos seus primeiros seguidores e colaboradores. Vemos que é Jesus mesmo que os convida enquanto pescavam naquele abençoado mar, o Lago de Genesaré, ou Mar da Galileia: “Vinde após mim, e eu farei de vós pescadores de homens! Imediatamente, deixando suas redes, seguiram-no” (Mt 4, 20s).

É o céu que se abre, no Reino de Deus instaurado, Reino esse, implantado sobre a terra, tendo seu começo pela Galileia dos pagãos, do povo que vivia nas trevas. No Jesus que entra em ação, apresentando-se como luz nas incertezas, mesmo nas mais inomináveis e indecorosas da vida, será que não quer dizer alguma coisa na realidade da comunidade Yanomami? Ali não é, de um modo mais premente, a nossa Galileia dos Pagãos?

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).


17 de janeiro de 2023

Remédio para o erro

Pe. Geovane Saraiva*

Nossa gratidão aos irmãos e irmãs, que no mesmo ideal querem caminhar conosco no compromisso da interlocução ou transmissão do Evangelho, repletos do amor de Deus, em favor das pessoas e do mundo. Na mensagem sobre a fidelidade de Deus, ao conduzir o povo de Israel na manifestação ou fenômeno único no mundo, percebe-se a esperança, através da novidade divina: a realização da humanidade, a salvação esperada. O povo passa a viver na dinâmica da fé, com a consciência de que a salvação significa, na sua concretude, a libertação, a experiência vivenciada em Israel, na sua relação com o Deus vivo, construindo sua própria história.

A história do povo de Deus, trazida para os nossos dias, considerando que, quando se erra por ignorância, distração, ou algo parecido, não se trata de pecado, de maneira alguma! Agora, quando o pecado bate à nossa porta, no “querer”, com clareza de consciência, convencidos de que estamos errados, no uso da própria vontade humana, colocando a nossa liberdade acima da vontade de Deus, em detrimento da irmã e do irmão, aí, sim, se constatam lapsos, equívocos ou erros: o pecado.

Se, por um lado, “equivocar-se ou errar é humano”, por outro lado, ultrapassar a realidade inclemente e não indulgente, com suas vastas consequências, precisa de um único e sólido remédio, como na afirmação de João Batista: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29).

A família humana, ao habitar a face da terra, sendo essa mesma terra cultivada e não cultivada em florestas, cerrados, caatingas e matas atlânticas, sem esquecer dos mares, se resume a uma só linguagem: sua indulgente sensibilidade. Sabe-se que nessa linguagem tem-se um conjunto de ações, chegando-se ao mal e ao bem, alternando entre angústia e segurança, sofrimento e alegria.

Na precariedade da vida, no entanto, as pessoas procuram soluções, não só com a inteligência, mas mergulhados, com todo o seu ser, na consciência dessa condição humana, como obra-prima da criação; e é aí que entra a nossa fé, no contexto dessa mesma criação, em resposta à existência da criatura humana, aqui nas palavras de Santo Agostinho: “Fizeste-nos para ti, Senhor, e irrequieto está nosso coração, até encontrar sossego em ti”.

É Deus nos falando ao nosso coração, do nosso desejo, em buscar o Infinito. É a manifestação da glória de Deus que se realiza na caminhada da humanidade, através dos séculos, participando e não se separando da história da existência humana e do mundo, na esperança do final feliz: que, em Deus, tudo seja reconciliado. Amém!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).