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Poesias e narrativas urbanas ganham as ruas de Fortaleza

por Nícolas Paulino - Repórter
Desde a pré-história, o ser humano sentiu a necessidade de comunicar(-se). Se, no início, o suporte das gravuras rupestres eram as robustas paredes de pedra - entre esses travessões, um salto de milhões de anos -, hoje são os muros da urbe que ganham pinceladas e esguichos de tinta. Não só eles: as formas multiplicam-se em lixeiras, postes, canos e outros equipamentos. E, se lá atrás, as mensagens remetiam a caçadas e rituais, hoje desnudam sentimentos do corpo e da alma. Em Fortaleza, não é difícil se deparar com centenas de gentilezas, reflexões e opiniões deixadas por artistas urbanos que tentam dar alívio a quem vive na quinta marcha.
"A gente se gostava tanto, hoje nem tanto". Descontinuidade. Interrupção. Um "silêncio que ficou entre nós", do artista André Solidão. Ele começou a espalhar fragmentos de seu livro pela cidade em 2015, através de lambe-lambes, ou seja, cartazes colados em muros, postes e outras superfícies. Depois, passou para o estêncil, técnica que utiliza telas prontas (geralmente de acetato) e tinta spray. Cada lata, a R$17, rende cerca de 50 aplicações, dependendo do peso da mão de quem a manuseia. Com amigos, escolhe um dia e sai espalhando inquietude.
"Eu acho que o mundo precisa de mais poesia, e esse foi o modo que eu encontrei para provocar o ser humano. Às vezes, você está na parada de ônibus, estressado do dia a dia, e de alguma forma aquilo pode te tocar e trazer alívio", explica. Assim, escreveu "Perdi o ônibus pensando em você" num cruzamento da Praia de Iracema, para instigar a lembrança de quem se ama. Afinal, segundo Solidão, o verdadeiro eu-lírico por trás das frases é a Cida, personagem que nasceu nas poesias, em 2012.
Positividade
"Ela é uma garota que foi esquecida por si própria. É como nós somos: esquecidos, porque não percebemos nós mesmos e o próximo", pontua o escritor. André já deixou pessoas com pulgas atrás da orelha em bairros como Messejana, Fátima e Edson Queiroz. Porém, o lugar mais marcante onde depositou um fragmento foi a praia de Jericoacoara, porque é "mágico".
"Quando houver silêncio, grite", diz mais uma das frases de Solidão. É um registro sobre a positividade escondida no cotidiano, como o "Vai dá certo" curto e direto de Jemison Sousa. Certamente você já deve ter topado com a frase em algum lugar de Fortaleza. Adepto do estêncil desde 2004, o artista ganhou maior notoriedade em meados de 2014, ao passar mensagens de esperança e apoio "para quem está na rua, mas principalmente quem está no trânsito". A forma (incorreta para a gramática culta, dirão alguns), porém, não influencia o conteúdo.
Lixeira Grafitti
Para a pesquisadora Alice Dote, o modo como olhamos, escutamos e falamos com a cidade constitui modos de habitar particulares (Fotos: Natinho Rodrigues)
É lembrança de que nem tudo é sufoco, impaciência, desespero ou claustrofobia numa gaiola de aço. "Se eu puder arrancar um sorriso, já vai ter valido a pena", garante Jemison. Mas quantos? Difícil contar, ainda mais com as centenas - o número correto é incerto, já que ele nunca parou para contar - de marcas deixadas na cidade e no "caminho das praias", como Taíba, Morro Branco e Beberibe. O objetivo é "deixar uma marca e inspirar pessoas que possam se identificar", resume.
Ainda mais em lugares tão incomuns como lixeiras públicas, estratégia motivacional para quando as pessoas "se sentirem um lixo". É para acreditar que momentos difíceis são passageiros. É para espalhar o bem quantas vezes forem precisas. É levar poesia para o lugar mais democrático que existe, a rua, proposta semelhante à do publicitário Serginho Gouveia, criador de frases autorais desde 2007 que possui mais de mil fragmentos no portfólio. Contudo, foi só há dois anos que ele começou a espalhar poesia em Fortaleza.
Arte literária
O trabalho é todo manual: ele retira as telas de acetato da pasta, veste as luvas, posiciona a lata de spray e pressiona o êmbolo. O resultado é uma "arte literária", uma "poesia urbana", como ele mesmo denomina. "Todas as frases são baseadas na minha história de vida, em alguma situação que eu passei e coloquei no papel. Acho que as pessoas se identificam porque elas também viveram coisas parecidas", diz.
A intensa rotina de trabalho até tenta atrapalhar a continuidade das ações, mas Serginho garante que não vai parar. Aliás, os planos são de inovação. Ele já fez um curso de lettering para aprender a desenhar as tipografias de próprio punho. Por ser mais "trabalhosa", a técnica fica reservada para iniciativas especiais. Enquanto isso, ele continua a visitar e marcar locais como a comunidade Poço da Draga, na orla da Capital.
"A pichação, o grafite e o estêncil contam como a cidade respira, como ela coloca alguma coisa pra fora, algum sentimento. Não podemos simplesmente apagá-los e deixar a cidade cinza, porque muitos artistas, inclusive anônimos, contribuem para que ela não seja só preto e branco. É um colorido a mais", opina.
Encontros
Para a pesquisadora Alice Dote, co-criadora do grupo "narrativas possíveis?" (ao lado do produtor cultural Alysson Lemos), as frases expõem uma Fortaleza "que não existe nas linhas de um mapa ou nas imagens de um cartão postal, mas a Fortaleza de seus habitantes, continuamente desenhada a partir de seus encontros, narrativas e experiências, como um texto que é escrito constantemente".
Além de serem uma forma de expressão de sentimentos, como amor e rebeldia, elas também denunciam problemas sociais, como questões de raça, gênero e classe social. "Essas frases também são as falas da cidade. Elas contêm sempre algo de inesperado e mesmo de perturbação, o que é inerente à vida urbana", sintetiza Dote.

Arte mobiliza histórias pessoais

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Entrevista com Alessandra Oliveira. Coordenadora do grupo de pesquisa Jornadas Urbanas e Comunicacionais da Universidade de Fortaleza (Jucom/Unifor)
Sobre o que versam e conversam as mensagens das ruas?
Aqui em Fortaleza, tem muita gente desenvolvendo trabalhos escritos. O "Vai dá certo" é o que tem maior abrangência, mas vários coletivos colocam frases que te levam para outro espaço, como o "Sinal fechou? Lembra do cheiro dela". É algo que arte urbana tenta fazer: refletir sobre a pressa.
Que caráter elas assumem para o leitor, já que são produzidas em suportes fora do comum?
Causam estranhamento e um deslocamento pra te fazer pensar sobre o próprio ordenamento da cidade. O estranhamento é uma das principais lições da arte urbana, e você consegue criar outro diálogo com o espaço urbano. Ela possibilita a criação de afeto pela cidade e suas estruturas.
Quem pode ser apontado como o narrador dessas frases?
Esses escritos estão impregnados de múltiplas vozes. O sentido inicial do autor se perde no momento em que ele coloca a mensagem a público. O próprio muro conta uma história. Quando o artista a produz, é a partir de uma afetação dele pela cidade, mas o resultado também é de todos e das coisas.
Diário do Nordeste

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