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Filósofos, psicanalistas e historiadores interpretam os zumbis da cultura pop

Jean-Christophe Bott/EPA
“Os monstros que dominam qualquer cultura ou período particular oferecem um vislumbre pouco usual dos medos e tensões que caracterizam o momento histórico”, escreve o roteirista e estudioso Jamie Russell em Zumbis: O Livro dos Mortos (LeYa). Desde que o cineasta George Romero atualizou esse mito haitiano para os novos tempos com seu A Noite dos Mortos-Vivos (1968), esses monstros dominaram boa parcela do gênero de horror pelas mais diversas mídias. Para tentar compreender esse fenômeno cultural, o recém-lançado livro Ensaios sobre Mortos-Vivos (Aller), organizado por Diego Penha e Rodrigo Gonsalves, reúne textos de psicanalistas, historiadores e filósofos do Brasil e do exterior para interpretar em várias esferas o que significam, afinal, esses seres.
O psicanalista Ivan Ramos Estêvão explica que mortos-vivos “possuem sua gênese no vodu, crença dos escravos haitianos que misturava animismo africano e catolicismo romano e que começou quando os europeus levaram à ilha do Haiti os escravos africanos”. Desde sua origem, o zumbi é um corpo sem conteúdo, fadado à escravidão, destituído de faculdades mentais e condenado à labuta incessante nas plantações da colônia francesa. Russell relembra que o medo dos haitianos não era do ataque dessas criaturas, mas sim de se tornar uma delas e perder a própria individualidade. 
É justamente a incapacidade de individuação que preocupa o filósofo esloveno Gregor Moder em um dos ensaios mais inquietantes do livro. “Ninguém pode tirar o outro de seu morrer”, escreve Martin Heidegger em Ser e Tempo. A partir dessa “ideia de que a morte é inalienavelmente minha”, Moder transmite o real horror do zumbi: ele aliena o direito à morte e, portanto, à própria individualidade, criando uma massa amorfa de ex-indivíduos. Para dar a dimensão dessa questão, ele faz uma comparação com a mitologia grega: Alceste, mulher de Admeto numa peça de Eurípides, aceita morrer para dar ao marido a imortalidade. Esse sacrifício, segundo Moder, inflige uma “dívida impagável”, o que explica como a noção de morrer pelo outro funciona tão bem na esfera religiosa.
O psicanalista Christian Dunker tenta traçar uma genealogia literária dos zumbis. Ele parte de A Vida das Marionetes (1810), do poeta alemão Heinrich von Kleist, passando pela criatura do Dr. Frankenstein, no romance de Mary Shelley, e pela múmia de John L. Balderstone, interpretada por Boris Karloff no cinema em 1932. “O ponto característico nessa linhagem do terror é que o protagonista restringe sua vida a um único objetivo, um único desejo, que é perseguido de forma irreflexiva, automática e inflexível”, afirma Dunker. 
Ao unificar essa tradição, o autor fornece uma série de interpretações possíveis dos zumbis: “São os trabalhadores que não dormem, os lumpen despossuídos até deles mesmos, os noias e ‘craqueiros’, os refugiados e imigrantes boiando no Mediterrâneo ou reduzidos às cruzes na fronteira entre México e EUA, são as massas errantes africanas, os velhinhos que pesam na Previdência. São todos esses zumbis que parecem ‘atrapalhar’ a marcha funcional das vidas dotadas de valor contra as vidas que obstruem os processos produtivos.”
Outra solução vem dos psicanalistas Leonel Braga Neto e Marta M. Okamoto, que tentam entender o enorme interesse por parte do público: “Parte desse sucesso deve-se certamente ao gozo de se ver autorizado a matar semelhantes com a justificativa de não serem mais humanos que legitimou e legitima ainda tantos assassinatos com um discurso que faz do diferente um alvo a ser eliminado, fruto do ódio àqueles que não pactuam dos mesmos princípios, culturas ou crenças.” Esse fetiche pelo massacre do “outro” justificado pela desumanização estaria no cerne dos crimes de ódio, crescentes no Brasil e no mundo.
Já o historiador Lúcio Reis Filho leva a discussão para a economia: “Antes uma alegoria do corpo colonial escravizado, o zumbi passou a representar o novo escravo, o trabalhador capitalista que vive a ilusão de ser livre.” No entanto, um dos aspectos interessantes que ele ressalta é a relação do zumbi com a ideia de contágio. Talvez essa seja justamente uma das chaves para se compreender esse monstro na contemporaneidade. 
Reis Filho credita a videogames como Resident Evil (1996) – em que um vírus foge ao controle de uma corporação farmacêutica – e The Last of Us (2013) – em que um fungo parasita toma controle de seus hospedeiros humanos – boa parte do ressurgimento dos zumbis no imaginário cultural recente e afirma que sua popularidade “pode ser explicada em parte pelo modo com que o zumbi articula (...) os medos contemporâneos sobre a perda de autonomia e a capacidade da ciência de criar devastações apocalípticas.” Ele cita o professor da Universidade de Iona Kim Paffenroth, que vê o zumbi criado por uma arma biológica como “sintoma de um mundo pós-11 de setembro, ansioso com as possibilidades do bioterrorismo, da mesma maneira que a geração anterior viveu constantemente nas sombras de uma guerra nuclear”.

Cada um dos oito ensaios do livro oferece uma visão instigante e única a respeito desse fenômeno. O mérito da obra está em provocar uma reflexão de alto nível a partir de um tema equivocadamente tido como pouco intelectualizado. Como Christian Dunker afirma: “Qualquer um pode dizer que zumbis e fantasmas não existem, mas, ao mesmo tempo, sabemos que coisas como a Cracolândia, assassinatos de negros em periferias de grandes cidades e corpos de refugiados boiando no Mediterrâneo existem. O problema central aqui é que entre a existência e a não existência existe uma coisa chamada Real. Real cuja verdade só é acessível por meio de estruturas de ficção.”
André Cáceres, O Estado de S.Paulo

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