Pular para o conteúdo principal

A face serena da tragédia

Pedro Aihara tem sido a voz da equipe de bombeiros que lida com a angústia do Brasil.


Pedro Aihara, 26 anos: 'Trabalhamos como se essas pessoas fossem nossas mães e nossos pais'.
Pedro Aihara, 26 anos: 'Trabalhamos como se essas pessoas fossem nossas mães e nossos pais'. (Divulgação / Instagram)
Por Heloisa Mendonça*
Desde o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG), o tenente Pedro Aihara se tornou o rosto conhecido do trabalho árduo de centenas de bombeiros que têm corrido contra o tempo para localizar as vítimas e desaparecidos da tragédia. Porta-voz da corporação desde o primeiro dia da tragédia, tem sido entrevistado repetidamente pelas dezenas de jornalistas que acompanham os desdobramento do desastre na mina administrada pela Vale. Sua desenvoltura e serenidade para lidar com as perguntas têm surpreendido o Brasil inteiro, até por conta de sua pouca idade. Ele tem 26 anos e já participou do resgate na mina do Fundão, em Mariana (MG). Mesmo preparado, ele segue sendo humano. O tenente se emocionou na manhã desta segunda-feira ao falar sobre a incansável busca pelos desaparecidos. "A maior dificuldade é ter de lidar com a angústia. Podem ter certeza de que estamos trabalhando como se essas pessoas fossem nossas mães e nossos pais”, disse com os olhos marejados no início da manhã.
Aihara, que tem dormido de três a quatro horas por dia desde a tragédia, ressalta em todos os seus anúncios que o trabalho tem sido feito da maneira mais ágil possível, mas que ele demanda muitas particularidades, já que se trata de uma “operação de guerra”. “A gente entende que os familiares das vítimas estejam numa situação em que buscam muita informação, mas temos que entender que essa atuação é muito delicada, estamos falando de milhões de rejeitos de minério de ferro, trabalhamos com uma barragem. E, dentro da área quente, trabalhamos com material orgânico envolvendo animais, plantas e pessoas. É preciso fazer um trabalho muito criterioso”, diz. “Um trabalho rápido, por mais que a gente se esforce, não é possível de ser feito na agilidade que as famílias querem”, lamenta. A buscas, explica ele, se estendem por uma área de 10km de distância e milhões de metros cúbicos de rejeitos.
Aihara não tem se esquivado das perguntas da imprensa nem do questionamento mais doloroso feito repetidamente nas coletivas sobre a possibilidade de encontrar sobreviventes. Segundo o tenente, pela característica da lama, será muito difícil que alguém que foi arrastado pelos rejeitos da barragem da Vale tenha sobrevivido. O relógio tampouco ajuda. Com o passar dos dias, as chances de encontrar sobreviventes é ainda menor, mas não está descartada. Os bombeiros trabalham também em áreas limítrofes para tentar encontrar alguém que possa ter conseguido fugir. “A tragédia envolve lama, que é um tipo de material que ocupa muito espaço, é diferente de quando a gente tem algum tipo de desabamento, em que há bolsões de ar e é provável encontrar sobreviventes... Mas ainda trabalhamos com todas as possibilidades”, ponderou na manhã desta segunda.
A possibilidade de as buscas se estenderem por meses dependerá de como será o trabalho de recuperação de corpos, na avaliação do tenente. “É um trabalho extremamente pontual. É preciso ter cuidado para o material de animas não ser confundido com a de humanos. Pela quantidade de rejeitos, irá durar semanas”.
Atualmente, 280 bombeiros trabalham na operação da tragédia de Brumadinho. Cerca de 14 aeronaves, fornecidas pela própria corporação, Polícia Militar, Polícia Civil, Força Aérea Brasileira e o Governo do Rio de Janeiro, estão em uso para auxiliar as equipes. Alguns bombeiros vieram de outros estados, como São Paulo, Rio, Espírito Santo, Alagoas e Goiás. O número de integrantes de Minas Gerais chega a 130.
Assim como o tenente Aihara, muitos deles trabalharam há três anos na tragédia de Mariana, quando a barragem de Fundão se rompeu, matando 19 pessoas e deixando um mar de lama pelo Rio Doce. O episódio deu a eles mais experiência nesse tipo de resgate, mas lidar psicologicamente com tamanha perda de pessoas é ainda um grande desafio. Segundo Aihara, as equipes que estão trabalhando nos resgates estão passando por atendimento psicológico.
Trabalhando incansavelmente em um resgate perigoso que envolve lama e uma área de risco, os esforços dos bombeiros são reconhecidos por muitos moradores e familiares de desaparecidos que assistem dos bairros e estradas o sobe e desce constante de helicópteros. A missão dos bombeiros mineiros, no entanto, não tem sido valorizada adequadamente pelo Estado de Minas Gerais, que vive uma crise fiscal. Atualmente os salários dos bombeiros estão sendo parcelados e a quitação integral do 13º salário de 2018 está atrasada, e sem perspectiva de ser recebido em curto prazo.
*Heloisa Mendonça escreve para o El País

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Participe da Coletânea "100 Poetas e 100 Sonetos"

O Instituto Horácio Dídimo de Arte, Cultura e Espiritualidade está selecionando 100 poetas para compor a Coletânea “100 Poetas e 100 Sonetos”. Os sonetos são de tema livre e devem ser metrificados em qualquer tamanho ou estilo, rimados ou não. 

Não haverá taxa de inscrição e nem obrigatoriedade de aquisição do livro pelos participantes, que em contrapartida cedem seus direitos autorais. 

A data e local do lançamento da coletânea serão definidos posteriormente. 

Para participar, envie o seu soneto para o email ihd@institutohoraciodidimo.org ou pelo formulário até 10/07/2019 com uma breve biografia.

Por https://institutohoraciodidimo.org/2019/06/11/coletanea-100-poetas-e-100-sonetos/

Corpo do Jornalista Carlos Heitor Cony deve ser cremado na terça-feira

Vinícius Lisboa - Repórter da Agência Brasil* O corpo do jornalista Carlos Heitor Cony deve ser cremado na próxima terça-feira (9), no Memorial do Carmo, segundo a Academia Brasileira de Letras (ABL), respeitando o desejo do imortal. Cony morreu ontem (6), aos 91 anos, vítima de falência múltipla dos órgãos após dez dias de internação. Segundo a ABL, como a morte ocorreu em um fim de semana, procedimentos jurídicos e administrativos terão que ser resolvidos nesta segunda-feira (8). Após a cremação, suas cinzas devem ser lançadas em um local que remete a sua infância. Também a pedido do jornalista, seu corpo não foi velado na sede da academia. A amiga e também jornalista Rosa Canha disse que Cony desejava uma cerimônia íntima. "Ele não queria velório, não queria missas nem nenhum tipo de homenagens. Ele pediu muito que fosse uma cerimônia apenas para a família".  Saiba MaisTemer lamenta morte do jornalista Carlos Heitor Cony Carlos Heitor Cony nasceu no Rio em 14 de março de 1926.…

O Natal em Natal (RN), a capital potiguar fundada em 25 de dezembro de 1599

Neste mês, a cidade se reveste de enfeites e de festas culturais, através do projeto 'O Natal em Natal'.
Considerada uma das maiores e mais bonitas do Brasil, a Árvore de Natal instalada no bairro de Mirassol encanta a natalenses e turistas. (Alex Regis/ Secom Natal)
Os moradores da capital do Rio Grande do Norte têm um motivo a mais para se alegrar e vivenciar esta época do ano. Afinal, eles celebram o “Natal em Natal”. Aliás, a capital potiguar recebeu este nome devido a data da sua fundação: 25 de dezembro de 1599. Neste mês, a cidade se reveste de enfeites e de festas culturais, através do projeto “O Natal em Natal”, promovido pela prefeitura municipal. Ao todo, segundo a prefeitura, são mais de 40 eventos que contemplam dança, música, teatro, audiovisual, artesanato, gastronomia e outras manifestações culturais.
Na zona sul da capital, foi acessa, no dia 3 de dezembro,  a tradicional “árvore de Mirassol”, com 112 metros de altura, ornamentada com enfeites nos formatos de …