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Entrega do Nobel de Literatura terá boicote de ao menos dois países

Do UOL, em São Paulo*

O escritor austríaco Peter HandkeImagem: Alain JOCARD / AFP
Escolhido para o Prêmio Nobel da Literatura de 2019, o escritor austríaco Peter Handke vai receber a distinção amanhã, em Estocolmo (Suécia), mas ao menos dois países devem boicotar a cerimônia. O ministro do Exterior do Kosovo, Behgjet Pacolli, anunciou que seu embaixador não participará do evento e afirma que o representante da Albânia fará o mesmo. O país vizinho também confirmou hoje sua ausência. O motivo: o autor austríaco seria um "amigo e apoiador" das políticas do ex-líder sérvio Slobodan Milosevic.
No sábado (7), um oficial do governo turco pediu que a Academia sueca mude a decisão de premiar Handke.
Ex-presidente da antiga Iugoslávia, Slobodan Milosevic foi acusado por crimes de guerra e genocídio. Ele morreu aos 64 anos, em 2006, antes do final de seu julgamento.
Milosevic era o controlador das Forças Armadas nacionais quando ocorreu a sangrenta dissolução da Iugoslávia na década de 1990, o que incluiu a Guerra do Kosovo (de 1998 a 1999), em que o país de maioria albanesa se desligou da Sérvia.
Handke, que reiteradamente expressou aprovação à Sérvia durante as guerras, fez uma eulógia no funeral do Milosevic. Em certa ocasião, ele descreveu como "massacre de soldados muçulmanos" o genocídio de Srebrenica (em 1995), em que tropas comandadas pelo bósnio-sérvio Ratko Mladic mataram cerca de 8.000 homens e adolescentes bósnios.

Mais tarde, o escritor revisou sua posição, descrevendo o episódio como "o pior crime contra a humanidade" desde a Segunda Guerra Mundial. A decisão de conceder-lhe o prêmio de literatura provocou protestos em toda a Europa e a resignação de dois membros do Comitê do Nobel. Um membro da Academia Sueca, o historiador e autor Peter Englund, também anunciou que boicotaria a cerimônia.

Depois de ser indicado para o prêmio em novembro, Handke negou publicamente ser simpatizante de Milosevic. Ele também se tornou cada vez mais verbalmente agressivo, quando indagado sobre suas opiniões mais polêmicas a respeito da guerra da Iugoslávia.

Interpelado sobre Srebrenica por um repórter, na última sexta-feira em Estocolmo, ele comparou a pergunta a uma carta de ódio com "caligrafia" de excremento: "Eu lhe digo que prefiro o papel higiênico, uma carta anônima com papel higiênico dentro, do que sua pergunta vazia e ignorante."

Em novembro, o autor de 77 anos também cancelou uma entrevista e mandou que deixasse sua casa o repórter que lhe perguntara sobre o passaporte iugoslavo tirado por ele em 1999.

(*Com informações da Reuters e da agência DW.)

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