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Mauricio de Sousa lança “Caçadas de Pedrinho”, adaptação da obra de Monteiro Lobato

Por Estadão Conteúdo


Em novo livro, Mauricio de Sousa coloca personagens de frente para o perigo em um livro mais "suave"; a nova versão é de autoria de Regina Zilberman


Dos livros de Monteiro Lobato que tanto encantaram Mauricio de Sousa quando ele começou a ler, "Caçadas de Pedrinho" não é o preferido. O criador da Turma da Mônica gosta mais de "Os Doze Trabalhos de Hércules". Não à toa, a história que ele recentemente lança coloca seus personagens dentro do Sítio do Picapau Amarelo e se conecta com uma memória de infância - algo que o diverte. Um dia perdido no passado, a tropa de burros da família trazia, da região de Mogi das Cruzes e Santa Isabel para São Paulo, ovos em cangalhas protegidos por palha de milho. No meio do caminho, eles se agitaram, corcovearam. No que pulavam, as cangalhas arrebentavam, e os ovos se quebravam. "Tinha uma senhora onça esperando por eles. Foi prejuízo total".
O garoto ouviu a história como se tivesse acontecido ali por aqueles dias. "Fiquei assustado, querendo saber onde as onças viviam. Quando li 'Caçadas de Pedrinho', essa lembrança de pavor voltou", conta agora aos 84.
Fã de Lobato, ele lembra também que a caçada não o atraiu tanto quanto a prosa em si do autor, e que, naquela época, por influência da avó, ele 'já era meio defensor de animais".
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A Turma da Mônica em 'Caçadas de Pedrinho'
Divulgação
"Há um esforço hoje de fazer uma adequação da obra, extirpando aqui e ali alguma coisa ligada a um tempo e aos costumes dos anos 1920, 1930", comenta Mauricio de Sousa.
Ele completa: "E foi nossa preocupação também que a gente colabore para que Lobato não seja esquecido ou encostado na parede por causa de uma ou outra parte do livro que falava de preconceito ou racismo".

POLÊMICAS

Esta é a terceira adaptação da coleção da Girassol, depois de Narizinho Arrebitado e O Sítio do Picapau Amarelo, e a mais complicada. Além da caçada, há a questão do racismo, expressa sobretudo pela personagem Emília.
"Este é um dos textos mais polêmicos. Lobato usa palavras que, na época, não ofendiam, mas que hoje ofendem. Não adianta colocar uma cortina de fumaça. Isso também precisava ser ajustado", explica Regina Zilberman, uma das principais especialistas em literatura infantil do País. Para ela, as mudanças feitas não comprometem a narrativa nem o conteúdo das ações dos personagens.
Em certo momento, no original (nas livrarias pela Globo, editora exclusiva de Lobato até o domínio público, em 2019), lemos um diálogo entre dona Benta e Tia Nastácia, narrado assim pelo autor: "Que nada, Sinhá! - insistiu a negra". Agora, lemos: "Que nada! - insistiu a amiga". Um pouco mais adiante: "Lá isso é - resmungou a preta pendurando o beiço". E agora: "Lá isso é - resmungou ela".
Emília também expressa seu racismo. "Isso não é muito simpático da parte dela. Às vezes, ela fala demais", comenta a pesquisadora. "Emília é uma criança desbocada. Precisamos dar uma matizada com relação a algumas expressões, o que também não compromete a obra". Palavras como "pretura" e "carne negra", usadas para se referir a Nastácia, não estão na nova edição. Vale lembrar que quando uma obra cai em domínio público, 70 anos depois da morte do autor, ela pode ser publicada por qualquer editora, adaptada ou no original.
Regina conta ainda que esta é uma das obras mais extensas de Lobato, um desafio na hora de adaptá-la, e lembra que as duas novelas - a da onça e a do rinoceronte - foram publicadas de forma independente e depois reunidas pelo autor.
"É um livro que conversa consigo mesmo. Na primeira parte, as crianças matam a onça e se defendem do ataque das outras, apoiadas por outros animais, e acabam se salvando. Na segunda, tem uma reversão. Em vez de perseguir um animal, elas protegem o rinoceronte, que depois vai ter uma participação importante em outros volumes da obra do Lobato. O próprio Lobato deve ter se antenado que era preciso matizar aquela violência da primeira parte", avalia.

MEA-CULPA

Enquanto conversa sobre o desafio de trazer Lobato para os dias de hoje, Mauricio de Sousa diz que ele próprio se vê na mesma situação neste momento. Porém, nada que envolva racismo. "Não posso esquecer que até nas minhas histórias, e estou desenhando há 60 anos, também houve coisas que escrevi e desenhei e que hoje já estamos mostrando que houve mudança de hábito e costumes", explica.
A discussão agora, na Mauricio de Sousa Produções, é se alguns desses originais serão reproduzidos ou não nas edições especiais que estão sendo preparadas pelos 60 anos da empresa. "A Disney está fazendo isso e colocando explicações sobre como era, por que era e por que não é mais. Vamos ver", comenta o desenhista.
Caçadas de Pedrinho
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Livro 'Caçadas de Pedrinho'
Divulgação
Monteiro Lobato
Adaptação: Regina Zilberman e ilustrações de Mauricio de Sousa
Girassol
2020, 88 páginas
R$ 39,90

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