29 de abril de 2021

O mistério de Deus e do homem

Padre Geovane Saraiva*

Como alhures já disse, a fé nos faz penetrar em profundidade no mistério de Deus e no mistério da nossa condição humana, na certeza de que só Deus pode preencher o coração do homem. Unidos a Jesus de Nazaré, podemos nos perguntar: “Que é o homem, para que dele te lembres? Ou o filho do homem, para que o visites? Fizeste, por pouco, menor do que os anjos, de glória e de honra o coroaste, e todas as coisas colocaste debaixo de seus pés” (Hb 2, 6-8).

O critério do amor ao próximo consiste no exercício da fé e da prática cristã, através das constantes ações, no amor que vai ao encontro do essencial, mas simultâneo, no amor de Deus e no amor ao próximo, no pleno cumprimento da lei de Deus. O mistério da missão de Jesus, ao dignificar e engrandecer a vontade de Deus, se pode afirmar que seja nossa aspiração maior, favorecendo, a partir desse contexto redentor, a felicidade das pessoas: a humanização de Deus e a divinização do homem, aperfeiçoado e aprimorado no sentido teológico, não a Deus, mas ao homem. Como é importante atentar para Deus, sempre Deus e Senhor, único no mundo da criatura humana, sem jamais ser substituído por ela, a contar com suas restrições, limitações e contradições!

O amor, com sua mística, vai ao encontro do próximo, no amor terno e compassivo, também no sentido inflexível, implacável e radical, tal qual Deus se manifesta na sua bondade, a partir da mesma condição de ser absoluto, que abrange tudo, ao nos afastar de qualquer dúvida que de Deus possa surgir, no Filho Jesus, o primado, ilimitado e irrestrito, no direcionamento incontestável como o primeiro interessado na realização da criatura humana. Reflitamos, pois, no mistério de amor, que na bela alegoria da vida, dom e graça de Deus, somos aquilo que esperamos, na imagem de Marta, que consiste na realidade da vida presente, sem esquecer a imagem de Maria, que consiste, por sua vez, na esperança da vida futura; uma representa aquilo que somos e a outra representa aquilo que esperamos, com o futuro definitivo em Deus (cf. Lc 10, 38-42).

Penetrar no mistério divino trata-se de um apelo do nosso bom Deus, no amor do Filho, traduzido em serviço, no caminho ou direção do verdadeiro esplendor, que passa pelo nosso serviço humilde, numa convocação que inclui os que têm serviços de elevada grandeza e largura, não em detrimento dos destinatários e súditos, mas no serviço solidário, voltado a todos, generoso e doado, inspirado no gesto supremo de Jesus: o de lavar os pés dos discípulos.                                        

Guardemos o gesto humilde e extremamente inigualável de Jesus, que nos convoca a uma única coisa: aprender a colocar na mente e no coração, sem que nunca se tenha medo de assimilar ou apreender, voltando-nos ao mistério da humanidade na sua condição divina em Deus. Nele, a humanidade toda restaurada, reconciliada e pacificada, tendo coparticipação na vida de Jesus de Nazaré, o verbo encarnado do Pai, que desceu do céu e se dignou participar da vida humana. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF)

Permanecer em Jesus Cristo para produzir bons frutos

 Mensagem de Dom Jeová Elias

“Eu sou a videira, vós os ramos. Aquele que permanece em mim, e eu nele, esse produz muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (Jo15,5).

Dom Jeová Elias*

No Evangelho deste V domingo da Páscoa Jesus se apresenta como a videira verdadeira; também apresenta o Pai como o Agricultor e os seus discípulos como os ramos da videira.
A videira era uma plantação de uvas muito importante na cultura da terra de Jesus, com as exigências que trazem essas plantações, sobretudo das podas no tempo correto, para que a planta realmente produzisse frutos agradáveis.
A imagem da videira foi aplicada muitas vezes ao povo de Israel como indicativo da predileção divina (Cf. Jr 2,21; Is 5,1-7). Deus plantou e cuidou daquela vinha para que produzisse frutos de justiça e santidade; ofereceu os meios necessários para que ela desse uvas boas. Mas Israel não correspondeu à expectativa divina: ao invés de produzir frutos de direito e de justiça, produziu frutos de transgressão do direito e a violência (Cf. Is 5,7).
Em vista da infidelidade de Israel, Jesus se apresenta como a verdadeira videira, capaz de produzir os frutos esperados: de direito e de justiça. Ele é autêntico.
O Pai é apresentado por Jesus como o agricultor que cuida da vinha para que ela produza bons frutos. Ele deseja instaurar na terra um projeto de liberdade e vida plena para todos. O cuidado do Pai se manifesta na imagem da poda, meio imprescindível para que a parreira produza em abundância bons frutos. A poda, neste sentido, não é sinônimo de provação, de punição ou dor, mas é graça.
A produção dos frutos depende do cuidado que tem o agricultor. Depende também da qualidade da videira, mas os frutos de justiça e de direito nascem dos ramos, dos membros da comunidade cristã. A palavra ramos é a segunda que mais aparece no nosso texto deste domingo: seis vezes.
Outra palavra que se destaca é fruto: aparece seis vezes no texto. Para alguns autores, os frutos são as boas obras; para outros, são a missão, o apostolado; e para outros os frutos são o amor, pois Jesus afirma: “nisso conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,35). Para produzir abundantes frutos, os discípulos devem escutar e aderir à Palavra de Jesus e permanecer nele.
A palavra que aparece com o maior destaque é permanecer: 8 vezes se repete essa palavra no Evangelho de hoje. Significa estar ligado a Jesus Cristo como seu discípulo, amá-lo acima de tudo e alimentar-se desse amor.
A nossa fé é marcada pelo encontro com uma pessoa: a pessoa de Jesus Cristo. Ela não se reduz a um elenco de preceitos, a um conjunto de doutrinas, mas tem sua força nesse encontro com Jesus Cristo, que dá um sentido novo à nossa história. Nele encontramos a razão da nossa vida: na sua palavra, no seu projeto, no seu amor. Também encontramos a motivação para dar sentido à vida dos outros e para transformar as nossas relações. Permanecer significa estar em Jesus e, a partir desse encontro com Ele, alargar o nosso horizonte.
O convite dirigido por Jesus a permanecer nele e a produzir frutos é desafiador na nossa cultura, marcada pelo transitório, pelas rápidas transformações. O Documento de Aparecida diz que vivemos uma mudança de época. Parece que as coisas estão fora do lugar. O que antes servia para explicar o mundo já não resolve. Acontecem coisas que nunca pensávamos que fosse acontecer. Não conseguimos responder a muitas questões e, quando encontramos algumas respostas, mudam as perguntas. As transformações ocorrem com muita rapidez, os critérios de valores mudam. Por isso a dificuldade em permanecer, em criar relações estáveis. As relações se rompem com facilidade.
Claro que devemos mudar para melhor, aprofundar mais a nossa fé, amadurecer, mas permanecendo fiéis a Jesus Cristo, ao seu projeto de vida, aos seus valores. Dom Helder Câmara dizia: “é graça divina começar bem. Graça maior é persistir na caminhada certa. Mas graça das graças é não desistir nunca”. Também recordava que para permanecer o mesmo é preciso mudar muito.
A outra dificuldade é produzir frutos de amor. A intolerância é uma marca forte na cultura atual. O nosso subcontinente latino-americano e caribenho tem o maior número de católicos do mundo, mas também somos a região com a maior marca de injustiça social, de corrupção, de violência, de desonestidade. Que frutos estão produzindo muitos cristãos? Lamentavelmente, alguns produzem frutos de violência, frutos de intolerância; infelizmente ainda fazem isso em nome da sua pseudo fé. Chegam a agredir, em nome da defesa de uma doutrina, aquele que pensa diferente, que crê diferente, que tem opções diferentes. Jesus Cristo nos pediu o amor: não somente entre nós que cremos nele, mas até pelos nossos inimigos.
Neste domingo recordamos os sete anos da Páscoa de Dom Tomás Balduíno. Rendemos graças ao bom Deus pelos 31 anos do seu pastoreio em nossa Diocese. Ele permaneceu na escola de Jesus. Sua vida foi marcada pela defesa dos direitos humanos, tão desrespeitados na nossa pátria, sobretudo os dos povos indígenas e dos trabalhadores sem terra. Que ele interceda por aqueles que tanto amou e que continuam sendo espoliados nos seus direitos. Que também inspire outros profetas na defesa dos direitos dos povos indígenas e dos sem terra.
Permaneçamos na escola de Jesus Cristo! Nele encontremos o sentido para a nossa vida e nele busquemos também a razão para produzir frutos amorosos, que marquem a nossa vida e a vida da nossa sociedade.
Deixo o meu abraço a você e a sua família e desejo-lhes uma semana feliz.

*Bispo de Goiás-GO

22 de abril de 2021

IV domingo da Páscoa o dia do Bom Pastor

 Jesus o Bom Pastor (Jo 10,11-18)

Celebramos neste IV domingo da Páscoa o dia do Bom Pastor e a jornada mundial de oração pelas vocações.

Mensagem de Dom Jeová EliasDom Jeová Elias*

A figura do pastor, mesmo que inusual na nossa cultura, é recorrente na Bíblia, desde o Primeiro Testamento, onde Deus se apresenta como o pastor do seu povo, que cuida das ovelhas mais debilitadas, a ponto de carregá-las nos ombros. O belíssimo Salmo 23 apresenta Deus como um pastor que tudo providencia para que as suas ovelhas vivam bem, e as protege de todos os perigos.
Para manifestar o seu pastoreio, Deus constituiu algumas pessoas para cuidar do seu povo. Contudo, muitas dessas autoridades traíram o chamado divino. Ao invés de cuidar do povo, exploraram-no, conforme denunciam os profetas Jeremias, Ezequiel e Zacarias. Por isso, o próprio Deus irá cuidar do seu povo. Ele o faz na pessoa de Jesus e dos seus discípulos missionários, que deverão empenhar-se no cuidado da vida dos seus filhos e filhas.
As palavras que mais se destacam no Evangelho deste IV domingo da Páscoa são: pastor, que aparece 5 vezes, sendo três delas com o adjetivo bom; ovelhas aparece 7 vezes, além dos pronomes referentes; conhecer aparece 4 vezes e vida, que aparece também 4 vezes.
Jesus se apresenta como pastor. Mas a figura do pastor não era entendida segundo as ilustrações de hoje. A imagem simpática apresentada por Jesus era exceção. Os pastores, conforme Joaquim Jeremias, estavam elencados entre as profissões desprezíveis. Eles não gozavam de boa reputação. Eram tidos, na maioria das vezes, como pessoas desonestas por pastorearem seus rebanhos em pastagens alheias e extorquirem a renda do rebanho. Muitas das lideranças políticas e religiosas da época mereciam esse rótulo. Certamente de hoje também. A figura do pastor aplicada a Jesus já se encontra retratada em diversas catacumbas dos primeiros séculos do Cristianismo. Significa que era valorizada pelos primeiros cristãos.
Jesus diz ser o bom pastor (v. 11 e 14). Ele é diferente dos mercenários que exploravam o rebanho e fugiam, abandonando as ovelhas diante de um perigo iminente. Seu pastoreio é comprometido. Ele é o bom pastor porque conhece as suas ovelhas e as defende a ponto de dar a própria vida por elas. Conhecer, na perspectiva bíblica, é mais do que ter ciência, saber a identidade; conhecer é ter relação amorosa. Jesus compara o conhecimento recíproco com as ovelhas ao conhecimento entre Ele e o Pai.
O pastoreio de Jesus não aprisiona as ovelhas num único curral. Aqui está presente a crítica às estruturas da religião da época, e de hoje, que aprisionam as pessoas e não oferecem a verdadeira vida. O pastoreio de Jesus é universal, não se reduz simplesmente a um redil: Ele é pastor de todos, veio trazer a vida para todos.
A missão de pastor que Jesus se atribui comporta a oferta da vida. Quatro vezes se destaca a palavra vida, além dos dois pronomes que a retratam. A preocupação de Jesus é com a vida do seu rebanho. Ele veio para que todos tenham vida (cf. Jo 10,10). Sacrifica a própria vida na defesa da vida do seu povo. Os mais sofridos e debilitados têm um lugar especial no seu coração: os enfermos, os marginalizados, os famintos, os pecadores…
O bom pastor não tem outra pretensão senão a vida das suas ovelhas. Para isso, Ele vai comprometer a sua própria vida. Essa ideia bonita do Evangelho de hoje é destacada inúmeras vezes nas pregações e discursos do papa Francisco: contra o carreirismo, contra o clericalismo, contra a autorreferencialidade na igreja, contra os pastores que muitas vezes usam da função, nos diversos âmbitos, não só no religioso, mas nas funções sócio-políticas, em proveito próprio ou dos seus grupos, e contra os mercenários da fé.
Como discípulos missionários de Jesus Cristo, devemos assumir a preocupação com a vida, sobretudo das pessoas mais fragilizadas. “Uma religião que não plenifica a vida das pessoas ou que não as faz mais felizes não é digna do ser humano”. Aos bispos brasileiros na Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, o papa Francisco lembrava que pastoral é o exercício da maternidade da Igreja, que não somente gera, mas alimenta, acompanha o crescimento, corrige e conduz pela mão. O Papa destacava também aos bispos a necessidade da Igreja redescobrir suas entranhas maternas de misericórdia, inserindo-se num mundo de feridos.
Essa preocupação com a dignidade da vida dos mais frágeis, sobressai no Documento de Aparecida, onde a palavra vida aparece 631 vezes. Também é central na mensagem do papa Francisco. Nos diversos discursos e pregações proferidos nas suas Viagens Apostólicas aos dez países da América Latina e do Caribe, a palavra vida foi pronunciada cerca de 850 vezes. Para Francisco, a vida humana é sagrada e deve ser defendida em qualquer situação. Mas os privilegiados são os pobres e os doentes. Ele afirma, sem rodeios, que “existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres. Não os deixemos sozinhos!”
Somos Igreja, Povo de Deus, com responsabilidade pastoral. O pastoreio não é de encargo somente de um padre, ou de um bispo, ou de um religioso, mas pertence a todo o povo de Deus. Somos um povo de pastores, convidado a assumir o nosso batismo, a trabalhar em favor da vida, a superar a autorreferencialidade e uma espiritualidade estritamente intimista.
A Igreja nos convida a rezar, neste domingo do Bom Pastor, pela vocações. Destaco também, nesta reflexão, algumas ideias da mensagem do papa Francisco para este dia, com o tema: “São José: o sonho da vocação”, em sintonia com a celebração do ano dedicado a José.
O papa constata a vida discreta de José, mas capaz de realizar algo de extraordinário aos olhos de Deus. Ele não pronuncia uma palavra nos Evangelhos, mas distingue-se por um coração generoso, capaz de dar e gerar vida no cotidiano. As vocações devem gerar e regenerar vidas todos os dias. Este deve ser o compromisso, sobretudo das vocações sacerdotais e religiosas, especialmente neste período de pandemia, com incertezas sobre o futuro e o próprio sentido da vida.
Três ideias são apresentadas pelo papa Francisco na sua mensagem: os sonhos de José, o serviço e a fidelidade.
Os quatro sonhos de José (cf. Mt 1,20;2,13.19.22) podem ser vistos como chamados de Deus, que mudaram os projetos pessoais do patriarca, pois seu coração estava voltado para o Senhor. Nos sonhos ele reconheceu a voz discreta de Deus que se manifesta no nosso íntimo com mansidão e não com espetáculo. Mesmo que os sonhos tenham sido perturbadores, revelaram o desejo de Deus em suscitar e defender a vida do seu Filho. Eles impelem José a sair, a dar-se, a ir além de si. Mas em todos os transtornos trazidos, “revelou-se vitoriosa a coragem de seguir a vontade de Deus”.
O papa também destaca José como modelo de serviço: em tudo ele vive para os outros e não para si mesmo. O serviço foi a regra de vida cotidiana dele. Ele foi a mãoestendida do Pai celeste para o seu Filho na terra.
Quanto à fidelidade ao chamado, José teve a coragem de dizer sim, embora fosse exigente a missão. As primeiras palavras que ele ouviu foram: “não temas!” (Mt 1,20). A fidelidade de José não foi quebrada em vista das dificuldades enfrentadas.
Como José, cada pessoa chamada por Deus deve ter um sonho, uma utopia a seguir, uma razão para fazer valer a pena viver. Na inquietação vocacional inicial está um sonho de ser feliz e de fazer os outros felizes, servindo e contribuindo para a construção de um mundo melhor. José é modelo de serviço para todas as vocações, que devem ser as mãos amorosas do Pai em prol dos seus filhos e filhas. Também é modelo de coragem na resposta ao chamado divino. O convite que Deus fez a José a não ter medo se atualiza em cada vocação.
Neste dia de oração pelas vocações, rezemos pelo nossoquerido papa Francisco, pelos nossos bispos, pelos nossos padres, pelas nossas pastorais e por todas as pessoas que assumem o seu lugar de serviço. De um modo especial, rezemos pelas pessoas que sofrem perseguições por causa da defesa da dignidade da vida humana, sendo fiéis ao projeto de Cristo.
Desejo que a celebração do mistério pascal renove nossa esperança e fortaleça nossa caminhada neste tempo inesperado de pandemia.
*Bispo de Gooás-GO

21 de abril de 2021

O nome "cristão"

 Padre Geovane Saraiva

O cristão é um ungido, aquele que carrega consigo as marcas da graça de Deus e que é seguidor de Jesus de Nazaré. A palavra "cristão" não foi inventada pelos judeus — eles não reconheciam Jesus como o Cristo —, mas pelos próprios cristãos, que chamavam a si mesmos de discípulos, ou fiéis seguidores de Cristo. O cristianismo começou a ser reconhecido, interna e externamente, como uma religião separada do judaísmo rabínico (cf. At 11, 26), e o nome "cristão" surgiu em Antioquia, por volta do ano 43. Aqui não há motivo para se duvidar da historicidade dessa informação. A palavra encontra-se em At 26, 28 e em 1 Pr 4, 16. O que importa mesmo, no dizer do Papa Francisco, é: “Ser cristão não é antes de tudo uma doutrina ou um ideal moral, é a relação viva com ele, com o Senhor Ressuscitado”. Fica aqui nossa reverência às comunidades de fé, que no início buscaram sua própria organização, tendo como fundamento a experiência fraterna — entre seus membros — do Cristo Ressuscitado, na fração do pão, na oração, lembrando também da fidelidade aos ensinamentos dos apóstolos, animados e inspirados pela força soberana da Palavra de Deus.

A vocação da Igreja, na sua missão redentora, tem sua origem na cruz. Por isso não é possível imaginar e mesmo conceber a Igreja sem a cruz de Cristo; nem idealizá-la sem solidariedade, sem ternura e sem compaixão. Ela conta com o coração, e a partir dele o entrelaçamento do humano com o divino. O humano e o divino, sim, não numa circunstância ou estado de ânimo passageiro, mas supondo-se uma eficácia sábia e criteriosa. Sua participação deve se dar de corpo e alma, mesmo que a mais completa harmonia do mundo seja um sonho, nas suas alegrias e esperanças, angústias e dores, na vivência dos contrastes e distinções do coração, também no intercâmbio mútuo e recíproco, dentro das atitudes de coragem e risco. Não pode perder de vista aquilo que é indestrutível e duradouro, com a consciência de que a virtude da ternura consiste em arriscar a própria vida.

Determinar a origem ou o momento do cristianismo é uma questão de opção. Para quem aceita, pela fé, a vinda de Jesus Cristo, vê que a humanidade entrou numa nova relação com Deus, na origem do cristianismo, a qual coincide com a sua atividade. Admitir esse contexto significa colocar a origem do cristianismo alicerçado na fé da comunidade primitiva, e não num julgamento puramente objetivo, tendo que se afastar de pressuposições incompatíveis à fé, que deve ser autêntica e verdadeira. A historicidade da pessoa e da atividade de Jesus Cristo pôde ser provada por seus contemporâneos, que naturalmente não precisavam dessa prova; teve-se de exigir a fé. Assim também a presença do cristianismo na história atual pode ser constatada cientificamente, mas a sua verdadeira essência só pode ser conhecida pela fé, a partir da intimidade com o Senhor Ressuscitado.

A expansão desmedida, descomunal e açodada do cristianismo nos tempos primitivos foi favorecida por um conjunto de fatores ou condições, a saber: a posição favorável da Palestina em relação aos três continentes; a helenização da cultura; o florescimento das religiões como “mistério” — salvação da humanidade (soteriologia), ao criar um clima propício para uma religião com caráter universal; sem esquecer a expansão do Império Romano com suas redes de estradas, estrutura de comunicação e uniformidade na língua. Sabe-se da contribuição, sine qua non, dos estudiosos que divulgam o desembaraço do cristianismo no início da era cristã, contando com os próprios cristãos, dentre eles escravos, comerciantes e soldados, sobretudo os que abraçavam a fé diante dos tribunais, nas prisões e no martírio, como na expressão de Tertuliano: “Sangue dos mártires é semente dos cristãos”.

Neste tempo de pandemia, com a Covid-19, que já levou do planeta mais de três milhões de seres humanos, com tantas pessoas amigas e conhecidas, somos forçados a ter um olhar ou uma reflexão mais forte, destacada e marcante. Na direção do mistério da fé, fica o desejo de se compreender melhor, na qualidade de seguidores de Jesus de Nazaré, o mundo contemporâneo. A Igreja Católica, sendo sinal do novo céu e da nova terra, carrega consigo a proposta de destruir o suplício ou castigo eterno, no anúncio de São João, ao afirmar: "Vi um novo céu e uma nova terra; porque o primeiro céu e a primeira terra desapareceram e o mar já não existe mais". Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

15 de abril de 2021

Quando não se vê Deus

 

Padre Geovane Saraiva*

A acolhida, vinculada à disposição em se viver uma fé sólida, a partir de Jesus de Nazaré, mas num fascínio comovedor, está, sim, dentro da busca da descoberta de algo, ou daquele tesouro precioso, muito além de sua própria feição, meramente humana, convencido de que em tudo isso se poderá reconhecer um sinal, o sinal de Deus, mas num convite para abraçar a fé, com um sim todo livre e integralmente convicto, numa confiança incondicional e absoluta. Essa fé deve ser destemida e resoluta no Homem de Nazaré, revelador da face afável do Pai, mas por pessoas livres, alegres e ardorosas. Que ela cresça por sua importância, de tal modo persistente, autêntica e verdadeira, como a de um jovem judeu, ao escrever no muro do seu pequeno bairro, ou gueto, da cidade de Varsóvia, esta afirmação: “Creio no sol, também quando não brilha; creio no amor, também quando não o sinto; creio em Deus, também quando não o vejo”.

A vida humana é capaz de abraçar quatro dimensões, que, segundo Santo Agostinho, devem ser representadas na cruz transformando-se em esteio ou égide de toda a espiritualidade cristã, a saber: “Compreender com todos os santos qual a altura e a largura, o cumprimento e a profundidade de Cristo, e conhecer o amor de Cristo que excedo todo conhecimento” (Ef 3, 18-19). O apóstolo Paulo deixa claro quando afirma: “A largura significa as boas obras do amor para com o próximo; a altura é a esperança pelo prêmio celeste; o cumprimento é a perseverança até o fim; a profundidade encantadora, inefável e imperscrutável de Deus – do bom Deus – é a que concede graças à criatura humana”.

Ouvir, acolher e viver uma fé sólida, a partir de Jesus de Nazaré, está em consonância com a metáfora do doutor da graça, Agostinho, quando nos ensina: “Do navio que parte e chega à pátria, mas a pátria só pode ser vista após a viagem do navio”. A verdade é que nos encontramos no contexto real do mar. Basta olhar as ondas e as tempestades que se levantam neste mundo em que estamos inseridos. Ele assegura na mais elevada confiança que não havemos de naufragar, pois temos um leme, ou comando, definido e seguro: o remo da cruz.

O sentido de ouvir e acolher nos faz pensar na passagem do Evangelho, que fala sobre Marta e Maria (Lc 10, 38-42): a imagem de Marta, nas atividades de sua própria casa, enraivecida até pela insensibilidade e pela não colaboração de Maria, representa a humanidade, nas suas ações e ativismos; já Maria representa como sendo uma pessoa exemplar, em sua didática de saber ouvir com atenção os ensinamentos do mestre Jesus de Nazaré, externando, evidentemente, sua opção pela melhor parte, mas no sentido daquilo que é permanente. Ela, ao realizar essa escolha no tempo presente, nos enche de esperança, porque haveremos de experimentá-la no futuro. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

12 de abril de 2021

Fortaleza 295 anos: parabéns!

 Padre Geovane Saraiva*

Fortaleza, batizada de Loira Desposada do Sol, metrópole e capital do Estado do Ceará, também conhecida como Terra do Sol e cidade natal do renomado brasileiro Dom Helder Câmara, completa, neste dia 13 de abril de 2021, 295 anos. Eis o nosso desafio maior: encontrar resposta para os anseios de todos os que nela residem, recordando, mais uma vez, o que disse Dom Aloísio Lorscheider: “A cidade deve ser um espaço de convivência solidária para todos os que nela moram, convivência essa que seja resultante da convergência de esforços para tornar a cidade sempre mais humana e também mais cristã”.

Que possamos guardar o pensamento de sonhar e, obstinados, lutar pela edificação de um povo forte, grande e civilizado, mas que o Deus verdadeiro esteja no centro, como nos garante o Livro Sagrado, no Salmo 127: “Se Deus não constrói a casa, em vão trabalham os seus construtores; se Deus não cuida da cidade, em vão vigiam as sentinelas”. Vemos, com clareza, a exigência do próprio Deus, que pede gestos de todos os seus moradores, afastando-os de toda e qualquer maldade, na busca de ações concretas. Decididos, que eles respondam aos anseios dos que sofrem, sobretudo diante da sensação que temos: de que áreas de riscos não são levadas em conta, explícitas na principal via do aeroporto internacional de Fortaleza.

O mundo da cidade de Fortaleza, que caminha para três milhões de habitantes, é complexo e diverso. Para que Fortaleza possa se transformar perante as grandes mudanças, urge superar preconceitos e intolerâncias, dentro do contexto da esperança cristã, na certeza de que chegará o tempo em que Deus acabará com o domínio dos que pensam numa civilização longe de Deus, com explorados e exploradores, com um povo longe ser livre e independente.

A pandemia não nos impede de contemplar a beleza de nossa cidade de Fortaleza! Que cresça nosso entusiasmo, no sentido de lutar  pela liberdade de seus habitantes, preservando-os e salvando-os de toda a maldade. Parabéns, Fortaleza!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

7 de abril de 2021

Hans Küng: teologia e ética

Padre Geovane Saraiva*

Morreu Hans Küng, teólogo suíço, filósofo, professor de teologia, nascido no dia 19 de março de 1928. Estudou filosofia e teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, foi ordenado sacerdote em 1954 e continuou seu processo educacional em várias universidades europeias, incluindo Sorbonne, em Paris. Seu falecimento aconteceu no dia 6 de abril de 2021, em Tubinga, na Alemanha.Lamento e me arrependo de não ter mergulhado e bebido melhor na fonte e patrimônio dos seguidores de Jesus de Nazaré, no grande comunicador da esperança e teólogo católico em voga, no nosso despretensioso comentário.

Hans Küng, influente e polêmico teólogo, preocupou-se em tornar compreensível a mensagem do Evangelho e em dar-lhe um lugar na vida dos seguidores de Jesus de Nazaré. Ele nos ajuda, de verdade, a crer em Deus, com seu pensamento, rigorosamente teológico, a saber: “Deus é mais real do que toda a realidade; ele é realidade última no coração dos homens e das coisas. Deus, infinito em todo o finito; permanente em todo passageiro; incondicional e absoluto em todo condicional e relativo; imperscrutável e inesgotável fundamento último; a origem última e o sentido último de tudo que existe”.

Proclamou, como professor de teologia, a solidariedade e a fraternidade anunciadas e desejadas por Jesus de Nazaré. Ensinou que a fé vai acima de um simples dever: na direção de um compromisso e de uma necessidade vital. Sempre sonhei com o mínimo de sua relevante sabedoria, com a esperança consequente a influenciar muita gente, evidentemente apoiado na força da palavra de Deus. Soube indicar Cristo como o foco, sem sombra de dúvida, no homem Jesus de Nazaré, sendo, incontestavelmente, o fundamento último do mundo e da criatura humana, ao contrário do abismo escuro, pavoroso e tenebroso. Küng foi um crítico da Igreja, sim, mas com raízes sólidas na mesma, de mente e coração, sem nunca pensar em a abandoná-la (cf. W. Kasper).

Com Hans Küng temos um cristianismo mais lúcido, uma fé mais plural, mais viva e corajosa, distante da frivolidade ou tolice, longe da leviandade ou vaidade que não edifica. Com seu pensamento e sua força profética deixou um legado e um registro na história cristã hodierna, os quais jamais se podem negar, numa expressão: patrimônio para o mundo cristão, além de ter sido uma figura de destaque no Concílio Vaticano II, participando do mesmo na qualidade de perito. Com sua partida, a Pontifícia Academia para a Vida afirmou: “Desaparece uma grande figura da teologia do século passado, cujas ideias e análises sempre devem fazer-nos refletir sobre a Igreja Católica, as Igrejas, a sociedade, a cultura”.

Hans Küng, como mestre e artífice na sua carreira ou caminhada teológica, profícua e salutar, sem em circunstância alguma se fechar ao diálogo, anunciou que “o verdadeiro homem, Jesus de Nazaré, é, para a fé, a real revelação do único Deus verdadeiro”. Para ele temos o sentido da Eucaristia como refeição, essencialmente comunitária e de ação de graças, e também como banquete da alegria pelos pecados, com o Senhor presente, sendo essa refeição esperança messiânica que aponta para frente, na direção do futuro, conclamando gestos e ações concretas.

Essa é sua herança, ou espólio, do sacerdote e acadêmico Hans Küng, no seu sonho por uma ética global, que agora se encontra em paz, numa vida sem ocaso, nas mãos de Deus com seus eleitos. Por uma vida teológica, com diálogo e ética integral, segundo os critérios do Evangelho de Jesus, que o Senhor dê o repouso eterno ao seu servo e teólogo, bom e fiel!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).



3 de abril de 2021

Nossa páscoa na Páscoa do Senhor

Padre Geovane Saraiva*

A luminosidade da festa da Páscoa, naquele clarão do novo fogo, por bondade de Deus, quer acender na humanidade um grande desejo: o de se viver a nossa fé com lucidez e coerência, mas na consciência de que Jesus Cristo ressuscitado é o princípio e o fim. Jesus ontem, hoje e sempre está, evidentemente, no tempo, na eternidade, na glória e com poder por todos os séculos, na sua luz que ressuscita, resplandecente, e também dissipa as trevas do nosso coração e da nossa mente (cf. Missal Romano, p. 271).

Vemos Jesus na fidelidade ao Pai e à humanidade, com sua vida consumada no alto da cruz, na condição de servo fiel até o fim, fomentando-nos coragem e persistência: “É graça divina começar bem, graça maior é persistir na caminhada, mas graça das graças é não desistir nunca”. A Páscoa só tem razão de ser na mesma solidariedade e despojamento, num misterioso silêncio, ativo e expectante, mas no incontável número de mães e pais que choram seus filhos e filhas ceifados/as pela Covid-19.

O lamento e a dor de tanta gente nos fazem voltar ao alarido de Maria, que acompanhou seu filho Jesus até o pé da cruz (Jo 19, 25). A campanha “Vacina, sim” nos faz lembrar a campanha pelas “Diretas já”, há 37 anos. A desaprovação de então pode ser considerada a mesma: negacionismo, obscurantismo, trivialidade, tolices e asneiras, sem esquecer das torturas infames e degradantes, além do opróbrio vil e ignóbil, numa ausência de tolerância, evidentemente dentro desse contexto, clamando pela liberdade esperançosa, numa simbologia pascal, possibilitando aquele duelo forte – e mais forte – da vida que vence a morte.

Com Dom Helder digamos: “Que eu possa aprender, afinal, cobrir de véus o acidental e o efêmero, deixando, em primeiro plano, apenas o mistério da redenção: o mistério da Páscoa”. O que importa mesmo a todos nós é que seja o espírito da esperança pascal a nos desafiar, colocando-nos, na mente e no coração, a proposta do percurso divino, afastados da ilusória e mutável esperança, entrelaçados no triunfo da Páscoa eterna.

Que a nossa páscoa, na Páscoa do Senhor, seja consequente, a partir do que acontece hoje, por causa do coronavírus, pois sabemos que devemos cumprir o preceito de se despedir de seu ente querido pela distância – e mentalmente –, repetindo-se também a prece ou oração que brota do interior das pessoas, pelos mesmos irmãos queridos e demais pessoas que chegaram ao fim da jornada terrena e ao ocaso. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).