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Primeira dama de Porto Rico diz que Paulo Coelho escreveu ‘Cem anos de solidão’

Paulo Coelho
Piada feita no Twitter com a afirmação da primeira dama de Porto Rico.
Opa, agora mesmo disse Cem anos de solidão, é de Gabriel García Márquez, não Paulo Coelho, me enganei – Beatriz Rosselló, primeira-dama de Porto Rico.
O engano da esposa do governador de Porto Rico, Ricardo Rosselló, fez muitos porto-riquenhos morrerem de rir em tempos de extremas dificuldades para a ilha depois da passagem do arrasador furacão Maria.
Na sexta-feira, dia 3, em uma entrevista à rádio WKAQ, Beatriz Rosselló, de 32 anos, falava sobre sua iniciativa Unidos por Porto Rico e lhe perguntaram se pensava em verter para o inglês a canção da campanha de apoio ao povo porto-riquenho. Respondeu: “Assim como Paulo Coelho fez com seu livro Cem anos de solidão, sim, em inglês, e chegou a mais pessoas, entendemos que sim, que vamos fazer a música em inglês, com artistas dos Estados Unidos também”. Alguns minutos depois lhe passaram um bilhete. Desdobrou e disse sorrindo, sem qualquer encabulamento, a frase com a qual este artigo começa.
Em questão de horas, virou trend topic no Twitter em Porto Rico a hashtag #LasNovelasDeBea [os romances de Bea], com a qual as pessoas propunham outros autores para obras fundamentais. Gozações literárias como A Odisseia de Homero Simpson #LasNovelasDeBea”, “Dom Quixote de la Mancha por Dante Alighieri #LasNovelasDeBea”, “A Guaracha do Macho Camacho por Pedro Calderón de la Barca #LasNovelasDeBea” ou uma piada política como “A Divina Comédia por Autoridade de Energia Elétrica #LasNovelasDeBea” que coloca humor no drama de mais de três quartos da população que continuam sem energia depois de mais de um mês da passagem do Maria.
Rosselló atribuiu ao best-seller brasileiro Paulo Coelho a obra-prima do colombiano Gabriel García Márquez, Prêmio Nobel de Literatura. Em sua nota sobre “a escorregada” da primeira-dama, o jornal local Primera Hora menciona que Cem anos de solidão “é uma leitura exigida de estudantes de escolas de ensino médio e universitário na América Latina, incluindo Porto Rico”. Para além da gafe, a escritora e jornalista Ana Teresa Toro (Aibonito, 1984) escreveu em um post no Facebook que no sábado, 4 de novembro, foi compartilhado por cerca de 600 pessoas.
“Fazemos bem em nos espantar porque a primeira-dama atribuiu a autoria de Cem anos de solidão a Paulo Coelho. E não, não é um deslize menor, nem é pouca coisa. Sim, é um escândalo e é vergonhoso. Significa muitas coisas.
Algumas:
(1) A falta de cultura geral e universal, algo que é fundamental na construção de opiniões e visões de mundo, que em muitos casos acabam se tornando políticas públicas e formas de governo. Com melhor educação, mais entendimento da experiência do outro. A literatura é mestra, exatamente, nisso.
(2) Que como sociedade começamos a observar a figura da primeira-dama como algo mais do que uma figura decorativa, devendo exigir mais dela.
(3) Que o desconhecimento de uma das obras-primas mais importantes da literatura em espanhol e mundial, traduzida a incontáveis idiomas, é um reflexo da falta de contato e conexão com o espanhol, um idioma que —como todos— é muito mais do que um conjunto de palavras, é um modo de ver e entender o mundo, um filtro para a realidade. Se não se conhece em profundidade o filtro pelo qual nosso país lê e interpreta o mundo —o espanhol— não é possível entendê-lo.
(4) Sim, o inglês é a língua do poder, do dinheiro e da ciência, e é bom falá-lo, escrevê-lo e dominá-lo. E, para fazer melhor, sua literatura é fundamental. Não é diferente com o espanhol e um não deve ficar acima do outro. Podem coexistir em paz. De fato, quem dera convivessem mais mesmo.
(5) Não se trata de julgar um autor pelo tipo de literatura que escreve, nem de entrar em debates de que é boa ou má literatura. Isso não tem importância. O que importa aqui é a ausência de um nome chave na história de nossa língua materna, uma figura que deve ser familiar e próxima a todos nós. Por exemplo, pensemos no gelo.
(6) Também não se trata de humilhar uma pessoa específica, mas de refletir sobre o que esperamos daqueles que ocupam posições de poder, com capacidade de influenciar o país e levar mensagens de liderança para a massa. Mas, sobretudo, de pensar nas lacunas que há em nossa educação. Muito mais antigas do que as que o Maria deixou, e muito mais profundas”.
El País

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