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No clássico "Cama de gato", Kurt Vonnegut ensina a olhar de forma zombeteira um mundo em direção à catástrofe

por Dellano Rios - Editor de Área
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Toda vez que as coisas estão visivelmente indo mal, não tarda a aparecer alguém recomendando a leitura de "1984". O romance de George Orwell é ambientado em uma sociedade autoritária, sem espaço para liberdade de qualquer ordem para seus cidadãos. Publicado em 1949, o livro evocava os fantasmas do passado, do presente e do futuro do Ocidente, após os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial. Quando as coisas vão mal, mas nem todo mundo se dá conta, a pedida é "Admirável Mundo Novo" (1932), do também inglês Aldous Huxley. Ele apresenta uma sociedade anestesiada pelo prazer (às custas de uma parcela dela, claro), incapaz de se dar conta de suas contradições e violência.
A ideia daqueles que citam estas duas obras é ter, na literatura, uma metáfora que ajude a compreender os processos sociais e onde a situação pode acabar dando. Para tais fins, os romances do norte-americano Kurt Vonnegut (1922 - 2007) são menos lembrados. Mas o fato é que eles têm a oferecer algo mais importante do que metáforas. Em livros como "Cama de gato", Vonnegut dá uma lição de como ver o mundo, que é, ao mesmo tempo, uma proposta de postura diante dele.
Vonnegut entra nessa história porque partilha um ponto com os colegas britânicos. Claro que é outro, além do fato de serem todos escritores, homens, brancos, do mundo anglófono, de se tratar de literatura. "Cama de gato", para citar o mesmo romance de antes, é uma obra que também se localiza no terreno da ficção científica. Só que, enquanto Orwell e Huxley são frequentadores bissextos, Vonnegut construiu ali sua obra.
Absurdo
Vonnegut não costuma ser tão lembrado como autor do gênero com a mesma frequência que, por exemplo, Isaac Asimov ou Philip K. Dick. Mesmo que boa parte de seus romances e contos possa ser, inequivocamente, inscritos neste filão. Se isso se dá desta forma, deve-se ao tal "olhar" do autor. Vonnegut costuma ser associado a outra tradição - a dos satiristas.
Como Mark Twain (1835 - 1910), um dos grandes nome desta tradição em língua inglesa, ele opera uma crítica social a partir de um olhar zombeteiro, que expõe o absurdo em que se vive. Humanista radical, Vonnegut desnuda a artificialidade dos valores e símbolos que sustentam nossa civilização e, com frequência, determinam suas barbáries; como em "Cama de gato".
Enfim
"Cama de gato" está sendo citado, de forma reiterada, porque é o mote dessas ideias. O romance acaba de ganhar uma nova edição brasileira, pela Aleph, com tradução de Livia Koeppl. Originalmente publicado em 1963, o livro estava fora de catálogo no Brasil há alguns anos.
A trama acompanha os inesperados caminhos tomados por John (ainda que ele prefira que nos refiramos a ele como Jonah), um homem comum interessado em escrever um livro sobre o que os norte-americanos ilustres fizeram no dia que a primeira bomba atômica foi lançada sobre Hiroshima, no Japão.
Ele acaba conhecendo os filhos de um dos criadores daquela arma, que estão de posse de uma invenção secreta do pai: uma substância capaz de fazer a água congelar a temperatura ambiente. O caminho de John, ou Jonah, circunda, adentra e se fixa numa ilha caribenha, comandada por um ditador sanguinário e adepta de uma religião chamada bokononismo, meio cínica e niilista, que professa o valor das mentiras inofensivas para se viver melhor.
Ok? Tudo parece meio absurdo. Mas absurdos também são os alvos de Vonnegut no livro, como a corrida armamentista, o uso da religião para controle social e as relações políticas. Ou não são?
Livro
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Cama de gato
Kurt Vonnegut
Tradução: Livia Koeppl
Aleph
2017, 280 páginas
R$ 49,90
 
Diário do Nordeste

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