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O SIARA HOLANDÊS

Grecianny Carvalho Cordeiro*
A História é escrita pelos vencedores, disse George Orwell. 
Mas os vencedores nem sempre contam a verdade. E a verdade, de um modo ou de outro, sempre desponta no horizonte, por mais que nuvens negras tentem encobri-la. O tempo passa e os fatos são avaliados e reavaliados pelos historiadores, pelos estudiosos, até que novas versões sobre determinados fatos históricos surgem, levando-nos à reflexão e, muitas vezes, cedemos às paixões, em detrimento da razão.
Foi pensando nisso que, recentemente, li o excelente livro do Historiador cearense Raimundo Girão, A Cidade do Pajeú (1982).
Aprendemos que o conquistador do Ceará e o fundador da cidade de Fortaleza foi o português Martim Soares Moreno, conhecido por Índio Branco, o eterno aventureiro que conquistou também o coração de Iracema, “a virgem dos lábios de mel”. Logo, causa estranheza crer que, na verdade, o fundador de Fortaleza teria sido, o holandês Matias Beck.
Em 20/03/1649, Matias Beck partiu do Recife em direção ao Siara, em cinco embarcações: Geele Sonne, Synegael, Vlissinge, Capodello e uma chalupa, levando um total de 298 pessoas, dentre soldados, marinheiros, negros e índios.
No dia 03/04/1649, Matias Beck desembarcou no Mucuripe. Após ganhar a confiança dos nativos, os holandeses marcharam até o monte Marajaitiba, às margens do Pajeú, “um belo rio d’água doce”, o local escolhido para edificar o forte Schonnenborch. Ali seria o “berço da cidade”.
Com a rendição holandesa, em 26/01/1654, Matias Beck deixa o Siara. E somente entre 1812/1823, o forte Schoonenborch seria reformado sob os auspícios do engenheiro Silva Paulet, passando a chamar-se Forte Nossa Senhora da Assunção.
Raimundo Girão esclarece que as nossas raízes lusitanas, de influência católica, jamais permitiram atribuir qualquer mérito a Matias Beck e aos holandeses protestantes, na formação da cidade de Fortaleza.
Quando Secretário Municipal de Urbanismo, Raimundo Girão cuidou em formar uma comissão para elaborar um anteprojeto destinado a sistematizar a nomenclatura dos logradouros públicos, sugerindo nomeação de ruas, avenidas e praças em homenagem aos colonizadores portugueses Pero Coelho de Sousa e Martim Soares Moreno, e também ao holandês Matias Beck.
Na época, surgiu uma polêmica, pois muitos não aceitavam a rendição de homenagens ao “herege”, “calvinista” e “pirata” Matias Beck.
Foi quando a verdade histórica perdeu espaço para a paixão, com o consequente desapego à razão.


*Promotora de Justiça

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