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Padre Geovane Saraiva* Como é bom rezar e colocar em primeiro lugar o mistério da redenção! Nem sempre, porém, sabemos rezar e nem d...

1 de julho de 2017

Poeta Mel Duarte abre miniturnê gaúcha de slam com bate-papo

A miniturnê da poeta e slammer paulista Mel Duarte pelo Rio Grande do Sul começou da melhor maneira possível: em um evento promovido no espaço Aldeia, a escritora, uma das principais expoentes do movimento slam no Brasil, participou de um bate-papo com dezenas de pessoas e fez uma performance de poesia falada.
– Você é a primeira poeta viva que eu conheço – resumiu, quase no final do encontro, uma professora da plateia.
Mel Duarte esteve na Aldeia, em Porto Alegre, para bate-papoFoto: André Feltes / Especial
Descontraído e informal, o bate-papo contou com a mediação da jornalista Carol Anchieta. Mel conversou com a plateia sobre os conceitos do movimento slam, a importância da participação feminina e negra em espaços culturais, os temas de suas obras e a história de sua carreira. Chegou a dar dicas para quem quer se arriscar na poesia – ou mesmo em eventos de slam:
– Eu costumava ler livros com um caderninho e um dicionário do lado. Ia anotando as palavras e, depois, me testava a escrever algo com algumas dessas palavras. Ou pegava uma imagem aleatória e tentava fazer um poema sobre aquilo. Agora, para organizar as ideias da sua cabeça, só você, mesmo.
No Estado, Mel vai participar de mais dois eventos em Porto Alegre, no sábado – uma oficina e um encontro de grupos de slam do Estado – e um em Pelotas, no domingo. 
Poeta, slammer e produtora cultural, Mel atua com literatura independente há mais de uma década, faz parte do coletivo Poetas Ambulantes e é envolvida com o Slam das Minas/SP. Publicou os livros Fragmentos Dispersos (2013) e Negra Nua Crua (2016), mas se tornou amplamente conhecida após sua participação no sarau de abertura da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2016 – seu vídeo recitando poemas chamou atenção nas redes sociais.
MEL DUARTE NO RS
Porto Alegre
Sábado (1º), das 10h às 17h
Slam Oficina: de onde vem, pra onde vai?, com Mel Duarte, na Aldeia. Valor: R$ 70. Inscrições em bit.ly/MelDuartePoaInscri

Sábado (1º), às 19h30min
Slam Conexões – Edição Mel Duarte (com participações de Slam Peleia, Slam das Minas/RS e Slam RS) no Largo Zumbi dos Palmares.

Pelotas
Domingo (2), às 15h
Slam Poesia com Mel Duarte na rua, em frente à Casa Cultural Las Vulvas (Rua Padre Anchieta, 949). 

Zero Hora

Ave do Cariri vira tema de selo dos Correios para chamar atenção ao risco de extinção

Três pássaros ameaçados de extinção tornaram-se selo de correspondências dos Correios. Entre eles está o soldadinho-do-araripe, espécie que só é encontrado nas cidades de BarbalhaCrato e Missão Velha, no Cariri Cearense. O lançamento dos selos ocorreu nessa segunda-feira (26), no GeoPark Araripe, no Crato, a 508 quilômetros de Fortaleza.
Segundo o diretor regional dos Correios no Ceará, Erico Jovino, os selos foram confeccionados para alertar a população sobre “o zelo que devemos ter com todas as espécies de animais” e para o “alto índice de desmatamento que está ocorrendo no mundo”.
A degradação de mananciais e o desmatamento são consideradas as principais ameaças para o soldadinho-do-araripe. A estimativa é de que o soldadinho-do-araripe seja extinto em 15 anos se nada for feito.
Conforme o biólogo Weber Girão, que descobriu a espécie em 1996, a estrutura geológica da Chapada do Araripe é a única capaz de servir de habitat para a espécie. “É um planalto, uma zona de mais de 1 milhão de hectares de chapada e essa área capta a chuva e concentra nas encostas do lado caririense, justamente nesses municípios de Barbalha, Crato e Missão Velha”, descreve Weber. 
Uma das características mais marcantes da ave é a sua diferença de cor entre machos e fêmeas. Enquanto os machos adultos são coloridos, as fêmeas são verdes.. Comumente, os machos são confundidos com os galos-de-campina, que também têm a cabeça vermelha. “Ao contrário dessa ave, ele tem um topete sobre o bico e a garganta dele não é vermelha, mas branca”, esclarece Weber Girão.
As outras aves que vão estar nos selos dos Correios são o pararu-espelho e a rolinha-do-planalto. O pararu-espelho é um pássaro da Mata Atlântica que está desaparecido desde os anos 80, enquanto a rolinha-do-planalto tem como habitat natural o cerrado, com registros escassos e espalhados nos estados de Goiás, Mato Grosso e São Paulo. A tiragem dos selos é de 1 milhão e 950 mil unidades, a um custo de R$ 1,25.

Tribuna do Ceará

Há 20 anos o herói Hércules fazia sua primeira aparição no cinema

Hércules e seu amigo de infância Pégaso enfrentam monstros mitológicos em suas aventuras em busca de um lugar no Monte Olimpo
No dia 4 de julho de 1997 chegava aos cinemas brasileiros um novo longa de animação da Disney, "Hércules", com uma história baseada no personagem da mitologia grega.
Depois de alguns filmes mais fracos como "O Corcunda de Notre Dame", o longa renovou o sucesso da empresa e trouxe um novo estilo de animação tradicional mais anguloso que havia dado seus primeiros passos com "Pocahontas". O novo traço foi bem recebido e continuou com "Mulan" e, principalmente, com "Tarzan".

Mitologia
A história mitológica do filho de Zeus com uma mortal sofreu grandes alterações para se encaixar nos padrões do que a companhia acha interessante para o seu público. Além do pai, Hércules ganhou uma herança divina também por parte de mãe, é filho de Hera, e um par romântico atormentado por Hades, deus do mundo inferior e dos mortos.
Na animação, Hércules nasce no Monte Olimpo e é um bebê feliz com toda atenção e luxo que pode receber um deus. Porém, Hades não está satisfeito com a atenção dispensada ao menino e envia seus capangas para envenená-lo. Hércules não bebe a gota final da poção e perde todos os seus poderes, menos a sua super-força, marca registrada do personagem.
Sabendo que não fizeram o serviço completo, os capangas deixam o bebê na Terra. Ele é acolhido por um casal de mortais que cuidam dele até a adolescência, quando ele descobre sua ascendência divina e busca provar-se digno a voltar a viver no Monte Olimpo.
Com a participação de personagens importantes da mitologia grega como o sátiro Filoctetes, o cavalo alado Pégaso, e monstros como a Hidra, Medusa, Leão de Nemeia, Hércules terá que enfrentar muitos perigos e até a perda da amada para derrotar Hades e os Titãs.
Além das mitologia grega, "Hércules" faz referência a "Karatê Kid", "O Rei Leão" e diversas marcas famosas como American Express (Grecian Express), Gatorade (Herculade) e Air Jordan (Air-Herc).

Repercussão
O filme foi bem recebido pelo público e teve críticas positivas. Ganhou o Oscar de Melhor Canção Original por "Go The Distance" ("Vou vencer distâncias..."), apesar do grande número musical ser "De Zero a Herói", canção que ecoa até hoje nos meus ouvidos quando ouço falar da animação.
"Hércules" ganhou uma prequela, um filme para TV que serviu de piloto para a série animada exibida no Brasil entre 1999 e 2006 e que fala do tempo em que o protagonista estudava na Academia de Prometeus.
A narrativa de Hércules em busca de reconhecimento no Monte Olimpo traz uma lição moral: a de que não adianta ser poderoso se esse poder não for usado para o bem, para ajudar os outros. Ou, como diria o Tio Ben, personagem de Homem-Aranha, "... Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades".

Novo campeão
"League of Legends" ganha um novo herói no dia 12 de julho. Kayn (imagem) já está disponível no PBE, servidor de testes, e possui duas classes, Assassino das Sombras que caça oponentes à distância e Rhaast, integrante da raça Darkin, que usa uma foice para enfrentar os inimigos a curtas distâncias. O papel do Campeão é escolhido no início da partida.

Necromante
Enfim, a macabra classe chega a Diablo III. O pacote "Ascensão do Necromante" já está disponível no jogo para PlayStation, Xbox e PC. Os Necromantes usam o poder de sangue e ossos para erguer mortos-vivos a partir dos restos mortais. O pacote inclui outros itens em jogo, além de mais dois espaços para personagens e duas abas do Baú Pessoal (somente no PC).

Diário do Nordeste

Museu da Fotografia Fortaleza sedia debate sobre "Sereias", projeto que adentra a vida de pescadoras cearenses

Projeto Sereias
Cercado por um extenso litoral, o território cearense ganhou do encontro com o mar capítulos decisivos na formação de seu povo. Para além dos campos sociais e históricos, estes verdes mares ainda prosseguem como tema sedutor para músicos, cineastas, artistas visuais, videomakers e fotógrafos. Assim, em qualquer passeio mais apressado pela memória, saltam exemplos notórios, caso dos registros realizados pelo fotógrafo Chico Albuquerque (1917-2000).
O serviço fotográfico acompanha a demarcação do tempo e consegue imprimir as marcas contextuais dos profissionais inseridos neste campo. Fruto de elaborada pesquisa, o projeto "Sereias" é pontual na proposta de explorar a fotografia enquanto ferramenta transformadora.
Ao literalmente mergulhar e divulgar o universo feminino da pesca artesanal no Ceará, o trabalho repara o erro de que o mar seja estritamente uma zona masculina. Desvenda e consegue ir muito além em sua proposta.
O Museu da Fotografia Fortaleza (MFF) recebe hoje (1), às 14h, Fernanda Oliveira e Sergio Carvalho, autores do projeto. Em parceria com o "Golpe de Vista", programa vinculado à Pró-reitoria de Extensão da Universidade Federal do Ceará (UFC), a palestra gratuita conta com a mediação do professor Silas de Paula e participação de Tibico Brasil, Iana Soares e Ademar Assaoka.
A investigação dos fotógrafos-pesquisadores será o cerne do diálogo com o público. A imersão fotográfica de "Sereias" resultou em livro, exposição, além de vídeo-documentário, making of e site. Uma chance de se aproximar e compreender a experiência de adentrar as comunidades costeiras do Ceará que possuem mulheres participantes nas atividades de pesca.
Composição
Somos apresentados ao cotidiano de quatro pescadoras artesanais do litoral cearense: Cleomar, Maria Cabelão, Sidnéia e Márcia. Para isso, os fotógrafos partiram em aventura que percorreu da enseada do Mucuripe, passando por Acaraú, Canoa Quebrada, Redonda, Fortim e Cumbe. Com olhar delicado e direto, desvendam as narrativas de mulheres que disputam, com esforço, espaço na fechada comunidade da pesca.
Apesar de serem ainda minoria, aos poucos, essas trabalhadoras se impõem neste setor que guarda a cultura de preconceitos em relação a elas.
Um detalhe precioso desta iniciativa incide sobre o fato de que superar esta barreira não tem sido tarefa fácil, principalmente porque somente agora elas próprias estão se reconhecendo como pescadoras, à medida que se organizam em associações e/ou colônias de pescadores.
Força
Iniciada em 2012, a pesquisa e documentação visual antropológica protagonizada pela dupla foi executada em cinco anos. Sob as histórias e memórias de marisqueiras, pescadoras de arrastão, algueiras e lagosteiras, os fotógrafos adicionam à pesquisa a discussão de gênero, ampliando o campo de estudo da linguagem de escrever e comunicar com a luz.
Este processo foi concebido e conduzido de modo poético por Fernanda e Sérgio. "Sereias" age de maneira singular ao potencializar a experiência sensorial do mundo e reconfigurar este tema, a da luta destas mulheres, enquanto dimensão pública.
Assim, não só o elo do trabalho é revelado, mas também o teor interpretativo plasmado nas fotos, que impulsionam o ensaio em múltiplas direções. Contribuem também para o documento os artistas Tibico Brasil e Mika Holanda, que complementam a abordagem ao construir vídeos que exploram o diálogo com estas mulheres. O projeto ainda trouxe para si o texto dedicado da jornalista Iana Soares.
No texto de apresentação de "Sereias", as curadoras e pesquisadoras associadas, Angela Magalhães e Nadja Fonseca Peregrino, são diretas ao traçarem os paralelos e esforços angariados com esta obra.
"Fotos e vídeos são, a um só tempo, atravessados pela força da linguagem, onde um vocabulário próprio une informação à sintaxe poética", diz o texto.
"E se a fotografia faz uma clara remissão ao real, justamente por isso mostra-se um instrumento valioso para dialogarmos com o mundo à nossa volta", completa.
Trajetórias
Fotógrafa e pesquisadora, Fernanda Oliveira é mestra em Comunicação e Linguagens - linha de pesquisa Fotografia e Audiovisual - pela Universidade Federal do Ceará UFC (2012) e especialista em Teorias da Comunicação e da Imagem pela UFC (2008). Com o projeto "Sereias, mulheres do mar", ganhou o Prêmio Internacional Latino-Americano de Fotografia (Colômbia, 2013).
Teve, ainda, seus projetos expostos nos principais festivais de fotografia brasileiros: Fotoarte Brasília - Mulheres líderes (2007); FestfotoPOA - Santa Terezinha: o morro de uma cidade e As cores violetas (2010); Paraty em Foco - As cores violetas (2011); Paraty em Foco - Nos caminhos da Caravana Farkas (2013); e Prêmio Chico Albuquerque de Fotografia (2014) e Editais de Arte do Centro Cultural dos Correios, com o projeto Sereias: Mulheres do Mar (2015).
Já o piauiense Sergio Carvalho começou a fotografar em meados da década de 90. Desde então desenvolve a fotografia como expressão artística e documental com um forte viés humanista. Realizou diversas exposições em salões de arte e festivais de fotografia, tais como o deVERcidade (Fortaleza, 2005, 2006, 2007 e 2010), FotoArteBrasília (2010), Festival de La Luz (Argentina, 2010), FotoPoa (Porto Alegre, 2012), Photobook Award (Kassel, Alemanha, 2011), POY LATAM (2013) e Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia (Belém, PA, 2015).
Mais informações:
Palestra "Edição Especial Sereias". Hoje (1), às 14h, no Museu da Fotografia Fortaleza (R. Frederico Borges, 545, Varjota) Inscrições: pelo e-mail
Educacao@museudafotografia.
Com.Br ou na recepção do Museu. Contato: (85) 3017.3661

Diário do Nordeste

Escritor e pesquisador, Gilmar de Carvalho escreve sobre a peleja de Cego Aderaldo com a vida, a arte e a tradição

por Gilmar de Carvalho* - Especial para o Caderno 3
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Mote para outros artistas, a figura de Cego Aderaldo conquistou popularidade digna de mito ( Foto: Elizangela Santos )
Aderaldo Ferreira de Araújo tinha visto o mundo e ele começava na Rua da Vala, no Crato. Cegou aos 18 anos, em 1896, depois de beber um copo d'água. Dizia que os olhos sangravam, como uma personagem de tragédia grega.
Conheceu cores, formas, texturas e também as agruras da vida, que ele não poderia esquecer, sob pena de falsear o real, cujas imagens se diluiriam aos poucos.
Estaria fadado a ser um trabalhador da Rede Viação Cearense (RVC). Casaria, teria filhos, faria carreira. A vida traiu o roteiro que parecia ter sido esboçado para ele.
Devia ser um sonho trabalhar na ferrovia e um espetáculo ver as pessoas que chegavam e/ou partiam, acompanhar os pregões dos vendedores, e ouvir apitos ou o barulho onomatopaico dos trens.
Aderaldo pediu a Deus um meio de sobreviver diante de tantas dificuldades. Não queria pedir esmolas. Mal sabia que Portugal tinha reservado aos cegos a venda de poesia nas feiras, prática, informalmente, trazida para o Brasil.
Ele foi muito além da banca dos folhetos e da estratégia de cantar um trecho da história, levando os curiosos à compra do cordel para terem acesso ao enredo completo.
Começou a improvisar. Tinha este dom e tiraria partido dele. Ninguém profetizou que ele seria um dos maiores cantadores brasileiros de todos os tempos. As palavras ajudaram a salvar Aderaldo.
Deve ter cantado até ter a coragem de "vender" sua performance, sertão a dentro. Todo começo tem seus entraves, como um rito de iniciação, que só os bons, os corajosos e os determinados conseguem transpor. Aderaldo foi um deles.
O Crato era muito longe, onde acabavam os trilhos que partiam da Capital. Quixadá foi o lugar escolhido por ele para se fixar. No sertão central, teria como balizas as pedras que emergiram em épocas imemoriais e formavam um cenário de planeta inexplorado. O Império construiu o açude do Cedro. Era o início de uma ofensiva para represar a água, depois de secas devastadoras, que mataram tanta gente.
Ele conseguiu afinar sua voz, dar agilidade ao repente, e improvisar como poucos. No começo usava uma rabequinha, substituída pela viola. A capacidade de aceitar desafios era grande.
Outros cantadores leram dicionários, para destrinchar as palavras cujo sentido não sabiam. Folhearam livros de história sagrada, com episódios espetaculares e perfis de reis, juízes e profetas. Buscaram decifrar os sinais do Lunário Perpétuo. Fixaram-se nos livros de geografia, para saber qual a capital da Birmânia. Aderaldo não podia ler. Outros o fariam para ele, para ativar a memória, que cavalgaria na hora da peleja.
Não era só uma questão de alinhar palavras ou de construir castelos com elas. Aderaldo precisava da argumentação. Isso faria dele um cantador de respeito. Chegou lá, graças à retórica, aprendida com a vida, no burburinho dos mercados, na aventura das viagens, onde tivesse gente reunida, ele estaria atento e tiraria lições do que seria dito, silenciado ou insinuado.
Ele movimentava a "roda da fortuna", para formar seu repertório, e rejeitava o "balaio", o verso pronto, o argumento previsível, que muitos cantadores esgrimem na luta.
Com muito esforço, começou a se construir como mito. Precisava ser elogiado, para ser chamado e se confrontar com os rivais. A fama do bom cantador correu léguas e as pessoas não mediam esforços para participar de suas apresentações.
No começo, prevalecia o "pé de parede", com a bacia no meio da sala. O dono da casa contratava os cantadores e pedia a colaboração dos convidados. A doação, de um tostão que fosse, mostrava a gratidão pela acolhida, era uma forma de ser convidado para outras apresentações.
O anfitrião podia servir um café e até alguma comida, se o ano tivesse sido de bom inverno ou se os cantadores fizessem jus a este mimo.
A cantoria não podia prescindir da plateia, da torcida que vibra, xinga, aplaude, deprecia, tampouco do mote que alguém leva para surpreender, subverter o enredo e provocar reviravoltas. A cantoria tem sempre um vencedor.
Aderaldo foi construindo sua imagem, à margem das estratégias às quais a Indústria Cultural recorre, cada vez mais, para "construir" os ídolos com os quais trabalha. Ser "celebridade" não quer dizer muita coisa, em um contexto de indigência criativa, de diluição dos argumentos, e de insegurança na hora de saltar no escuro e transpor o abismo das palavras. É aí que deve cintilar a argumentação mais vigorosa, como uma epifania, em meio ao escuro que nos cerca.
A consagração veio com o Festival dos Cantadores, no Theatro José de Alencar, em 1947. Ele fez bonito e foi vencedor, de acordo com a mídia.
Iniciou vários meninos na arte de guiar um cego. Eles não desempenhavam este papel por muito tempo. Quando cresciam, e chegava a hora de constituir família, eram trocados por outros, sempre com a autorização dos pais. Mário Aderaldo ficou, ganhou "status" de filho e cuidou da memória do cego até morrer.
Aderaldo foi se consolidando aos poucos. Viajava muito. Espalhou seu nome pelo nordeste, Virou lenda. Todo menino que usasse óculos ganhava o apelido de Aderaldo, por aproximação com a cegueira do mestre.
Em Belém do Pará, inspirou o famoso folheto "Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum", e disputou com cantadores afamados.
Viajou para o sudeste, se apresentou nos programas de rádio e chegou à TV Tupi. Ganhou um projetor de filmes do governador paulista Adhemar de Barros.
Ditou suas memórias ao escritor Eduardo Campos e ganhou as páginas do livro "Eu sou o Cego Aderaldo", publicado pela Imprensa Universitária do Ceará, nos anos 1960. O escrito (impresso, neste caso) veio reforçar a voz.
Os registros que temos nos mostram a força de seu canto, a urdidura das palavras, e a competência dos seus argumentos. A performance, no entanto, será sempre intraduzível. Perdemos esta parte para sempre. Esta habilidade artesanal evidencia uma herança milenar e engrandece este homem que virou estátua, a nos saudar da Estação Rodoviária de Quixadá, onde foi colocada depois de sua morte, há cinquenta anos.
Doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), professor da UFC e autor de livros como "Artes da Tradição", "Madeira Matriz" e "Patativa do Assaré - Uma biografia" (que ganhará reedição em julho)
 
Diário do Nordeste

Com obras iniciadas em 2013 e logo paralisadas, o Memorial Cego Aderaldo, em Quixadá, segue no papel

por Alex Pimentel - Especial para o Caderno3
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Memorial Cego Aderaldo, à espera de novas obras; abaixo, estátua do cantador ( Fotos: Alex Pimentel )
Em junho de 2105 o então secretário de Cultura do Ceará, Guilherme Sampaio, visitou o Memorial Cego Aderaldo, em Quixadá. O espaço cultural surgiu a partir da restauração do antigo casarão de Maria Gomes, situado defronte à Praça José de Barros, no Centro da cidade.
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Aproveitando a visita de inspeção, o secretário estadual se reuniu com a sociedade, profissionais ligados ao setor cultural e gestores públicos, para marcar o início do seu funcionamento - o prazo era até o fim daquele ano, restando apenas o fornecimento da mobília e a definição de quem ficaria a cargo da administração.
Passados um ano e meio, o Memorial ainda não foi inaugurado. O secretário de Cultura, Esporte e Juventude de Quixadá, Audênio Moraes, que assumiu o cargo no início deste ano, na gestão do prefeito Ilário Marques, estuda junto à Secult a possibilidade da sua pasta assumir o controle do equipamento cultural. Nele deverá funcionar uma oficina e escola de rabecas e de xilogravuras, para a produção de livretos de cordel. Também está prevista uma exposição de parte do acervo pessoal de Cego Aderaldo, embora no museu da cidade, o Jacinto de Sousa, exista um vão dedicado ao poeta popular e repentista.
Abandono
Segundo a Secult, a obra de reforma do casarão, mantendo os traços arquitetônicos originais, foi iniciada em outubro de 2013. O prazo de execução era de cinco meses.
O madeiramento do telhado foi substituído, as alvenarias foram rebocadas e o piso de madeira substituído.
Os serviços incluíram instalações elétricas, hidráulicas e sanitárias e a colocação das novas esquadrias seguindo o modelo original. O valor da obra foi R$ 475.869,89. Os recursos foram do Governo do Estado. Hoje, o estado do prédio é de abandono.
Quando estiver funcionando o Memorial resgatará e exaltará o "Mestre da Cantoria", título atribuído a Cego Aderaldo por seus contemporâneos, em razão das disputas de viola com outros cantadores, nas quais sempre se sobressaía por conta dos seus improvisos aguçados.
Retornava das viagens ao Norte, pelo Nordeste e até à capital paulista, com mais fama e dinheiro na bagagem. O sucesso também transformou Quixadá no recanto dos repentistas violeiros. Suas proezas eram motivo de orgulho na cidade, conforme relembra o pesquisador João Eudes Costa, de quem foi amigo.
Mas o tempo passou, Cego Aderaldo adoeceu e foi morar em Fortaleza, onde morreu. As "pelejas", como eram conhecidos os desafios de rimas entre os cantadores, foram desaparecendo. Na cidade, praticamente não existem mais.
Além de Miguel Peixoto, comerciante entusiasta do gênero, falecido, apenas o repentista Guilherme Calixto, o poeta Erasmo Barreira e o comerciante João Soares - este último um dos idealizadores do Encontro de Profetas da Chuva, realizado tradicionalmente em Quixadá - dedicam-se à promoção dessa cultura.
Esquecimento
Hoje, fora o pequeno espaço no museu, lembranças de Cego Aderaldo emergem apenas quando é realizado algum sarau nas escolas ou ao se avistar a estátua no pátio da rodoviária. Mesmo assim, o personagem acaba frequentemente confundindo com algum político. A escultura de cimento retrata fielmente o cantador, com seus trajes característicos, o paletó e o chapéu.
A viola, apesar do tamanho em proporção real, parece passar despercebida diante do olhar dos transeuntes, como se o silêncio das suas cordas emudecessem a história.
Entretanto, todos os anos o cantador é homenageado por quem admira a cultura nordestina. No ano passado, além do Encanta Quixadá - festival de repente realizado a quase uma década - a exposição "Cego Aderaldo: A trajetória de um poeta", no Centro Cultural Rachel de Queiroz, destacou sua trajetória como um dos maiores colaboradores da musica popular do Ceará.
Em 2015 ele também foi homenageado, na IV Edição do Festival da Cantoria, Tradição, Crença e Poesia, realizada pelo Instituto Assum Preto, de Senador Pompeu. A programação foi diversificada, com apresentação de repentistas e trovadores, seguida de folguedos da cultura popular e do Grupo Folclórico Junino Flor de Mandacaru, do município de Cariré, que desenvolveu a temática "Cego Aderaldo o Poeta do Sertão: rimas, versos e cantorias",
"Quem chega de longe para participar ou apreciar as disputas de cantoria se sente em casa", observa o produtor do evento, Adriano Souza.
Quem quiser conhecer a casinha onde Cego Aderaldo morou a maior parte da sua vida, ela ainda está erguida, no fim da Avenida Plácido Castelo.
Quando foi presidente da Fundação Cultural de Quixadá, a ex-vereadora Irisdalva Almeida, a Dadá, trabalhou pela identificação e catalogação dos bens do cantador. A ideia era transformar sua antiga morada no Memorial e ali abrir à visitação seu relicário.
Mas a família preferiu são dispor o imóvel para esse fim. Foi da humilde morada, aliás, que roubaram seu violão, em 2013.O sumiço ainda é um mistério.

Diário do Nordeste