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Choram porque amam

Padre Geovane Saraiva* Como é bom rezar e colocar em primeiro lugar o mistério da redenção! Nem sempre, porém, sabemos rezar e nem d...

8 de janeiro de 2017

Prisões Brasileiras

Grecianny Carvalho Cordeiro*

No primeiro dia do ano de 2017, duas facções criminosas entram em conflito e dão início a uma sangrenta rebelião no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), em Manaus, culminando com a morte brutal de 60 presos. Além disso, mais de uma centena de presos conseguiu fugir.

Essa foi a segunda maior chacina em um estabelecimento prisional, depois do Massacre do Carandiru, em 1992.

O Massacre no Compaj serve para mostrar o que todos nós sabemos e fingimos não saber e, em especial, o que o Estado brasileiro, a União e as Unidades Federadas sabem e fingem não saber, porque não quer e não se importa.

No Brasil, as prisões continuam com os mesmos problemas de décadas atrás: superpopulação carcerária, más condições dos presos, péssima infraestrutura, dentre outras mazelas.

No entanto, no Brasil de hoje, a problemática penitenciária se agrava em virtude da infiltração e do domínio do crime organizado, por meio de várias facções criminosas, a exercerem o poder de mando no interior dos presídios brasileiros, de norte a sul, de leste a oeste, nas capitais e no interior.

O Estado perdeu o controle total e absoluto dos presídios para a criminalidade organizada. Isso é fato. Embora não possa o Estado assumir sua incompetência em gerir os estabelecimentos penitenciários, em propiciar um correto e adequado cumprimento da pena prisional, que dirá, em possibilitar a ressocialização do preso, para que cumpra sua pena e retorne ao convívio da sociedade.

Então alguns Estados inventaram de contratar empresas privadas para gerir prisões, a pretexto de: ser mais barato, mais eficiente, humanizar a pena, oferecer serviços dignos aos presos, tais como: alimentação, atendimento médico, odontológico e jurídico, melhor infraestrutura, etc.

A privatização, terceirização ou cogestão de administração de presídios por empresas privadas (como se queira chamar), em diversos Estados mostrou ser cara, ineficiente, incapaz de humanizar a pena, de oferecer uma boa infraestrutura aos presos e bons serviços...

A rebelião da Compaj, em Manaus, deixa isso claro.

E mais, uma das empresas administradoras de presídios contribuiu com considerável quantia para a candidatura do governador do Amazonas!

Num país em que o público e o privado possuem uma relação promíscua, em que empresas financiam campanhas políticas, partidos e candidatos, por que seria diferente no âmbito prisional?

Esse filme nós conhecemos muito bem, não é mesmo?
     
*Promotora de Justiça

Atlas Histórico-Brasil 500 anos tem nova versão, 18 anos após primeira edição

Atlas Histórico Brasil 500 Anos tem nova versão - Foto Divulgação CPDOC/FGV)
Atlas Histórico Brasil 500 Anos tem nova versão - Foto Divulgação CPDOC/FGV) Foto Divulgação CPDOC/FGV)
Cristina Índio do Brasil - Repórter da Agência Brasil
O estudo da história do Brasil ganhou um atrativo com informações em vários formatos. Agora, os interessados podem utilizar a nova versão do Atlas Histórico. Brasil 500 anos, lançada 18 anos depois da primeira edição, publicada pela revista IstoÉ, e ainda,com uma facilidade: todo o conteúdo elaborado por uma equipe de pesquisadores da Escola de Ciências Sociais (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas (FGV), pelo jornalista e tradutor Bernardo Joffily e pela professora de história da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) Mariana Joffily. A nova versão está disponível na internet,. Entre as pesquisas e a elaboração, o projeto levou três anos.
As informações se referem a períodos antes do descobrimento do Brasil, às navegações portuguesas, à Nova República e seguem até o segundo governo Lula, que foi a fase final das pesquisas. Para a historiadora, como agora a versão é digital, o Atlas poderá receber ampliações sem restrições. “É um material aberto a atualizações e também a enriquecimentos. Se algum leitor encontrar algum verbete que não está em determinado capítulo, a ideia é que seja interativo. A pessoa manda a sugestão e a equipe do CPDOC acrescenta o verbete. Essa é uma questão importante - dialogar com o usuário”, disse em entrevista à Agência Brasil.
Pré-descobrimento
Mariana Joffily chamou a atenção para o período anterior ao descobrimento do Brasil. De acordo com a historiadora, é preciso conhecer como foi a ocupação do território. “A primeira imagem que se tem é sobre a ocupação das Américas. É muito importante porque temos muitos trabalhos em que o marco zero da história do Brasil seria a vinda dos portugueses, mas se pensarmos em ocupação do território existiam habitantes e outras coisas antes”, disse.
O primeiro atlas histórico lançado no Brasil desde 1998 teve o apoio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e quem quiser acessar as informações, gratuitamente, poderá navegar em mapas, imagens, arquivos de áudios e de vídeos e textos explicativos, desenvolvidos pelos pesquisadores da FGV. Na nova edição, vai ser possível verificar ainda os verbetes do Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro do CPDOC e itens do Acervo Histórico do FGV/CPDOC, além de consultar o link da edição anterior.
“Pelo fato de estar na internet a gente pôde fazer hiperlinks, ligações com outros documentos. O Atlas, na verdade, remete, para quem quer ter material complementar, o nosso acervo histórico do CPDOC e verbetes biográficos e de eventos, imagens, áudios de entrevistas que fizemos. Quem clicar, por exemplo, na Nova República poderá ter informações sobre Ulisses Guimarães ou Tancredo Neves”, contou à Agência Brasil o diretor do FGV/CPDOC, Celso Castro.
Interação dos alunos
No momento em que um dos mais frequentes pedidos dos alunos é uma escola com programas de ensino mais envolventes, Celso Castro destacou que o Atlas poderá servir de equipamento para os professores em sala de aula. “É um material que ajuda a ampliar ou contextualizar os assuntos tratados nos mapas. Democratiza muito o acesso. Qualquer pessoa que tem acesso à internet e hoje tem acesso público também gratuito, pode ver. A gente espera que seja muito utilizado como instrumento auxiliar do ensino, principalmente, o médio ou o fundamental”, acrescentou.
O uso do conteúdo nas escolas pode ter ainda mais uma atração. A projeção dos mapas e dos infográficos pode ser explorada em camadas, com as informações sendo apresentadas aos poucos. “Na internet, você pode ir colocando camadas diferentes, que vão incluindo em um mesmo mapa diferentes extratos de informação. Em um Atlas físico, isso não pode ser feito, a não ser em alguns muito caros, com folhas de plástico que podem ser folheadas em cima”, disse.
“Há alguns fenômenos que podem ser vistos no passo a passo. Por exemplo, a Coluna Prestes, que percorreu um 'tantão' do Brasil, vai fazendo o histórico da Coluna e mostrando aos poucos o caminho sendo percorrido no mapa”, acrescentou Mariana Joffily.
Recursos modernos
Para facilitar ainda mais a navegação foram usados recursos tecnológicos para deixar os materiais como os mapas e vídeos menos pesados para carregar. “Procuramos fazer algo que fosse acessível, útil,  fácil para disponibilizar. Ficamos muito contentes de ter feito essa atualização do Atlas, que já tinha quase 20 anos de publicado”, lembrou.
Embora o conteúdo esteja em português, como está na internet, o Atlas poderá ser consultado também por quem estiver fora do país. O professor Celso Castro adiantou que no futuro será possível que o material seja traduzido para outros idiomas. “É uma ideia importante para uma futura reformulação, mas para quem tem interesse no Brasil e consegue entender português também pode visitar de qualquer lugar”, afirmou.
O FGV/CPDOC foi criado em 1973 e desde então realiza pesquisas e disponibiliza material de bens públicos relacionados à história do Brasil. Além disso, produz material didático.

Mortalidade por câncer cai 25% em 25 anos nos Estados Unidos

A mortalidade por câncer de mama diminuiu 38% entre 1989 e 2014. (AFP)
A mortalidade por câncer nos Estados Unidos caiu 25% desde 1991, quando experimentou um pico, uma redução equivalente a 2,1 milhões de mortes a menos neste período, de acordo com o relatório anual da American Cancer Society (ACS), publicado nesta quinta-feira.
Este declínio acentuado no número de mortes causadas por esta doença se deve, principalmente, a uma queda constante do tabagismo, combinada aos avanços médicos na detecção precoce de tumores e no tratamento.
O relatório aponta uma queda acentuada da mortalidade ligada a quatro tipos de câncer. A associada ao câncer de pulmão caiu 43% entre 1990 e 2014 entre os homens e 17% entre 2002 e 2014 entre as mulheres.
A mortalidade por câncer de mama diminuiu 38% entre 1989 e 2014. O declínio foi ainda mais significativo no câncer de próstata, que caiu 51% de 1993 a 2014, e no colorretal, que também diminuiu 51% entre 1976 e 2014 em ambos os sexos.
De acordo com o relatório da ACS, haverá 1,68 milhão de novos casos de câncer nos Estados Unidos em 2017 e mais de 600.000 mortes por esta doença.
A incidência de câncer durante a última década permaneceu estável entre as mulheres e diminuiu quase 2% por ano entre os homens.
A taxa de mortalidade da doença reduziu em cerca de 1,5% ao ano para ambos os sexos.
O relatório foi publicado no Journal for Clinicians.

AFP

Ficção científica 'Passageiros' investe no lado romântico

Cena do filme "Passageiros", de Morten Tyldum ("O Jogo da Imitação"). (Divulgação)
Por Alysson Oliveira
Se “Passageiros”, de Morten Tyldum (“O Jogo da Imitação”), tivesse a coragem de se assumir como a ficção científica que se anuncia, talvez fosse menos problemático do que o drama romântico que é.
A premissa é boa, embora já explorada com mais competência em dezenas de filmes e romances do gênero. Sujeito perdido e sozinho no espaço. O que fazer? Não muito tempo atrás, Matt Damon, em “Perdido em Marte”, plantou batatas até chegar o resgate.
O personagem de Chris Pratt, Jim Preston, está numa situação semelhante, ainda que não precise produzir sua própria comida. Numa nave generacional (que viaja numa velocidade menor do que a da luz e vai levar mais de um século para chegar ao seu destino), ele acorda da hibernação muitos anos antes de concluída a viagem, quando a câmara onde dormia sofre uma pane.
O que fazer em uma nave que mais parece um hotel de luxo? Além de estar completamente só, ele não tem tantas opções para matar o tempo, no entanto. Há distinção de classes e a dele parece ser uma das mais baixas, não lhe dando acesso a todos os ambientes, nem a muitas opções de alimentação. E mandar um recado à base na Terra não é uma opção viável, pelo larguíssimo tempo exigido.
Jim Preston, então, passa alguns anos se entretendo como pode: saindo da nave por uma porta especial e passeando no espaço, e conversando com um robô-barman (Michael Sheen), enquanto se embebeda.
Ele também tem acesso a todos os arquivos com informações dos 4.999 passageiros que ainda hibernarão por cerca dos 130 anos que a viagem ainda durará. É aí que ele descobre Aurora (Jennifer Lawrence), uma escritora a caminho de nova colônia apenas pela experiência, para ficar um ano e depois voltar à Terra (onde todo mundo que conheceu estará morto há anos) e escrever um livro.
Sem muita crise de consciência, ele a desperta. E junto com ela chegam também os maiores problemas do filme que sai do prumo exatamente nesse momento.
Escrito por Jon Spaihts (também roteirista de “Prometheus”, outro filme que começa bem e acaba mal), “Passageiros” é a materialização de um fetiche masculino potencializado: a mulher dependente e presa a um homem. Aurora – sem saber o que ou quem a acordou – não tem muita opção a não ser se apaixonar por Jim.
E é claro que isso acontece. O dilema ético e moral que surge daí é substituído por joguinhos de sedução em torno da beleza do casal e do espaço sideral. A partir do momento que Jim acorda Aurora, ele a condenou a uma vida ao seu lado (mesmo que ela o ignore). As justificativas, obviamente, para tal ato partem apenas das necessidades dele.
Não é difícil simpatizar com Jim, um sujeito legal preso sozinho no espaço. Mas ele tinha direito sobre a vida de Aurora? Qualquer crise de consciência que ele pudesse ter logo se dissipa, pois a cada cena o filme parece querer justificar a atitude do personagem.
Há um ou outro momento com um bom visual – uma piscina num ambiente sem gravidade é o melhor deles – mas “Passageiros” não se sustenta. Nota-se uma certa falta de química entre os atores – as tão faladas cenas de sexo são de uma sensualidade tão mecânica quanto o robô-barman – e nem o até agora infalível carisma de Jennifer Lawrence encontra sua melhor expressão aqui.

Reuters

O legado de Ferreira Gullar

Gullar era anárquico, contemplativo e sensível. (Divulgação)
Por Pedro Zambarda
Na ocasião da morte de Clarice Lispector, em 9 de dezembro de 1977, Ferreira Gullar escreveu a seguinte poesia:
“Enquanto te enterravam no cemitério judeu / do Caju / (e o clarão de teu olhar soterrado/ resistindo ainda) / o táxi corria comigo à borda da Lagoa / na direção de Botafogo / as pedras e as nuvens e as árvores / no vento mostravam alegremente / que não dependem de nós”.
E hoje, na ocasião da sua morte, cinco dias antes do aniversário do falecimento de Clarice, eu releio os mesmos versos. Gullar era anárquico, contemplativo e sensível.
Comecei a escrever ficção quando tinha oito anos num caderno que tinha em Santos na companhia dos meus pais. Mas foi um professor de literatura no colegial com os livros de Carlos Drummond de Andrade e Ferreira Gullar que me mostraram o poder das palavras, que possuem um profundo significado quando colocadas no papel. Cada um delas.
Diferente de Fernando Pessoa ou Camões, Gullar também me ensinou que era possível fazer rimas bobas, assimétricas e versos soltos que descreviam cenas, angústias e desejos. Ele me mostrava que escrever tinha uma lógica própria. “Traduzir-se” é o meu mantra sobre existência e linguagem. “Uma parte de mim / é multidão; / outra parte estranheza / e solidão / Uma parte de mim / é só vertigem / outra parte, / linguagem”.
E não há texto que traduza melhor em arte escrita o que foi a ditadura militar no Brasil do que seu “Poema Sujo”. É o meu poeta de releituras constantes em busca de inspiração.
Escreveu para séries de TV, como Carga Pesada na Globo, e possuiu uma obra como crítico de arte – além das suas obras como pintor. Foi múltiplo em vida.
Tinha uma grande fila de desafetos, começando pelos escritores concretistas Augusto e o falecido Haroldo de Campos, que também me ensinaram a escrever poesia. No entanto, Ferreira Gullar me mostrava que a arte não precisa e nunca precisou se encaixar em rótulos. Era o que ele classificava como neocroncreto. Me ensinou que os versos podem ser, de fato, livres.
Entrou na Academia Brasileira de Letras, que debochava antes, em 2014 aos 83 anos. Era maranhense de São Luís, filho de quitandeiro e amigo de José Sarney. Foi comunista do Partidão. Virou, depois do fim da ditadura, um crítico das esquerdas e um opositor dos governos de Lula e Dilma, além do próprio PT.
Era ressentido e beirava o reacionário em muitos dos seus textos antipetistas publicados na Folha de S.Paulo, mas a discordância que tive de suas opiniões políticas nunca me tirou o brilho que tive ao reler sua obra artística.
Numa pequena coletânea de poesias que publiquei ano passado pela editora de estudantes da USP, dediquei minha inspiração no texto a três poetas: Gullar, Drummond e Fernando Pessoa. Se o último me ensinou a importância de encarnar personalidades diferentes, o primeiro me deu liberdade na escrita e contato com a realidade mais dilacerante.
Ferreira Gullar morreu neste domingo aos 86 anos de pneumonia no Rio de Janeiro. Tal como “as pedras e as nuvens e as árvores” na morte de Clarice Lispector, o mundo mostrou alegremente que não se importa com ele ou conosco.
Ficam comigo as lições aprendidas em sua poesia, arte e linguagem.

DCM